A peleia anticolonial do povo venezuelano
Publicado em: 9 de janeiro de 2026
No último dia 3 de Janeiro de 2026, ainda em ritmo de “ressaca” das tradicionais comemorações de abertura do ano novo, a América Latina, em especial, nossos irmãos e irmãs venezuelanos (as) foram testemunhas com extrema perplexidade de um estrondo de bombas, uma manifestação ímpar da barbárie que ganha novas formas de expressão na contemporaneidade, no sentido de buscar instalar uma nova etapa do colonialismo no seu território. Evidentemente, que também há um olhar de profunda dor de quem há visto como se pretende reduzir legítimo essa ação em uma circunstância de “butim” de guerra, porém, estamos falando e sentido a interlocução de um povo de dificílima rendição – as palavras aqui escritas e soletradas são desde uma perspectiva de um cidadão brasileiro e militante com experiência internacionalista, com exercício do pensamento crítico comprometido para compartilhar uma visão que mesmo distante fisicamente se apresenta afetivamente estreita da Pátria de Bolívar.
A primeira parte que devemos desarmar é o relato de que esse acontecimento foi algo isolado e “depurado”, o que assistimos não foi uma “operação cirúrgica” (como muitos analistas pseudocientíficos da “Realpolitik” quiseram esboçar nas primeiras horas), se não a aparição perversa, nítida e desesperada da Doutrina Monroe que nunca sumiu e que se vem restaurando (Trump quer atualizar para “Donroe”), na Venezuela pessoas foram massacradas militarmente, nesse caso, tanto venezuelanos como cubanos, uma quantidade relevante de objetos estratégicos e espaços civis foram bombardeados neste país. Analisando o noticiário venezuelano, se percebeu, por exemplo, a agressão ao Instituto Venezuelano de Investigações Científicas – IVIC, importante de espaço de produção científica que também foi atacado, ao que tudo indica, por ter uma antena repetidora de sinal (antena de telecomunicações das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas). Um ataque a uma instituição dessa envergadura não é um dano colateral, mas, sim, um “epistemicídio” estratégico, uma mensagem objetiva do Império de destruir a capacidade desse país produzir conhecimento autóctone, reafirmando a velha divisão colonial dos que pensam e dos que são pensados.
Aliás, ao citar o Império, estou querendo me referir a forma de disciplinamento no marco da disputa Geopolítica atual, necessário para os EUA manter sua hegemonia e dominação, por isso, Imperialismo e Anti-Imperialismo, são palavras essenciais, que as vezes deixamos esvaziar de sentido em grande medida, se sente um notório rechaço no debate público em nossa região e no Brasil por intelectuais, acadêmicos e cidadania em geral, ao uso das locuções Imperialismo e Anti-Imperialismo em algo como “demonização comunista”, dando insumos para uma disputa simbólica que estamos sendo derrotados e que deriva ao fim e ao cabo toda uma forma de resistência seja ou não identificada com esse projeto emancipador comunista. No entanto, se acredita que não cabe outra coisa que compreender o Imperialismo como um processo sociológico chave para interpretar o mundo de hoje como uma forma de dominação que se revela de muitas maneiras e atua de forma intensa e descarada como estamos presenciando, portanto, a “periferia do mundo” tem de ser visceralmente Anti-Imperialista, não apenas como uma questão sociológica, também, ética, humana e política.
Continuando, o ataque militar que se testemunhou é a pintura pitoresca perfeita do mito fundacional da Modernidade, que justifica a violência com se fosse um ato civilizatório, ocultando sua verdadeira face a politica de morte do Império, a gestão do terror, para garantir sua acumulação e hegemonia aplicaram ao pé da letra o material Imperial da Doutrina do Choque (Naomi Klein). Iniciando com a asfixia econômica por medidas coercitivas unilaterais; logo a guerra midiática e cognitiva, que para deslegitimar a democracia venezuelana, nomearam representantes ilegítimos e lacaios do Império Yankee; depois o financiamento do terrorismo urbano, com a efetuação das “guarimbas” que mandaram queimar vivos os sujeitos que tivessem “cara e cor” de chavistas nas ruas; e para completar, o bloqueio criminal que se roubou milhões de dólares. Cada gesto recheado do padrão colonial de acumulação, e além disso, a construção do outro como bárbaro, ignorante, selvagem, como inumano para habilitar todas as formas de agressão.
Bem é sabido, que a batalha cognitiva é um novo campo da peleia colonial, onde coloca em perspectiva a luta por nossas subjetividades, buscando colonizar os nossos desejos, corações e mentes. Isto posto, se observa que um povo formado para a Resistência como o Venezuelano não se ajoelharia, que o povo não vacilava, que não conseguiam encher sua consciência com o conto de sereia do “sonho americano”, operaram seu ultimo recurso atormentado – a agressão militar direta, com uma finalidade colonial límpida – roubar os recursos naturais do povo venezuelano.
Nesse contexto, é importante ver mais além do roubo material que querem desferir, se trata de um ataque ao ser, a “ontologia bolivariana”, ao direito de existir como Povo Soberano com projetos próprios (a sua tão refletida idiossincrasia), e no meio desse ataque massivo, ocorreu o ato que deixa nu a essência colonial de toda essa operação, e aqui a precisão dos conceitos é um ato de resistência, e se deve anunciar com a força da verdade, que há de corrigir imediatamente o termino que o Império pretende impor ao Povo Venezuelano e resto do mundo, o Presidente Constitucional Nicolás Maduro Moros e a primeira combatente (dama) Cilia Flores não foram capturados, e sim violentamente sequestrados em seu domicílio, violando todas as formas de Direito Internacional e isto não é retórica gratuita, é um fato jurídico e político, a linguagem é o primeiro território colonizado, então, se deve resistir com as palavras corretas, como joio não é trigo, sequestro não é captura, invasão não é intervenção, barbárie não é política, essas correções jogam como um ato de defesa da realidade e da verdade contra a distração imperial.
O Império, nesse sentido, quis montar o espetáculo colonial por excelência e significar o corpo do líder demonizado, desumanizando-lhe, diminuindo a um troféu de guerra, humilhando publicamente para demostrar seu poder absoluto e supostamente intocável, é parte de um roteiro para fazer crer que tudo ocorreu sem resistência e que houve traição, mas a jogada não foi tão infalível assim, a dignidade do Presidente Maduro, sua preparação e serenidade, converteu o cenário em um “Contra-Espetáculo” de Libertação.
Um dos poucos gestos de Maduro depois do sequestro (V vertical e I horizontal com dedos das mãos, que inclusive tem virado símbolo político para as lideranças e povo), além de desejar “Happy New Year” para os carcereiros, demostraram toda aposta na cena do poder que necessita deixar para existir, sua atitude transmitiu força, lealdade e interesse potencializado, revelou uma fragilidade Imperial que se desmorona quando não pode produzir sua missão.
Esse “Contra-Espetáculo” do Presidente Maduro, foi uma grande vitória frente aos bombardeios, essa mesma dignidade, essa mesma calma estratégica se há visto nos relatos de sua conferência diante do “Tribunal Colonial” em Nova York. Aí, frente a uns juízes ilegítimos, não se apresentou um réu, se não um Chefe de Estado com atitude de firmeza exemplar, desarticulou com sua presença a farsa judicial convertendo o tribunal do Império em um cenário de denúncia e resistência.
Desse modo, é primordial abordar a narrativa tóxica que o Império quer estabelecer, que não houve resistência, que Maduro pactuou seu sequestro ou que houve traição. Esse discurso não só aparenta ser falso, senão que são armas de guerra cognitiva clássica dos manuais de contra-insurgência da CIA, onde servem para gerar desconfiança e fazer ampliar o movimento de extrema-direita.
O primeiro que se deve entender é que a unidade do Projeto e Liderança Bolivariana é firme e que não houve traição, essa unidade se encarnou na juramentação serena e decisiva da companheira Delcy Rodriguez perante a Assembleia Nacional e todo corpo Diplomático Internacional, sua lealdade ao assumir a responsabilidade constitucional circundada das Instituições e do Povo, foi um ato de continuidade democrática e revolucionária, que desmente qualquer relato de fratura. Também, se despertou a capacidade política e se instalou a Assembleia Nacional no dia previsto pela Constituição Bolivariana e o Povo nas ruas está exigindo cada dia nas ruas a libertação do Presidente e da Primeira Dama.
Então, o que passou realmente? Não foi uma traição, se não uma nova etapa da Guerra Colonial, o Império implementou na nossa Região sistemas avançados de Inteligência Artificial para a Guerra, não foi a delação de um General que permitiu localizar e sequestrar Maduro e Cilia, foi sim a entrega de dados, de padrões de consumo eletrônico, de comunicação processada por sistemas de última geração, está plataforma de algorítimos preditivos permitiram antecipar comportamentos e direções com uma precisão absurda. Realmente, executaram um salto tecnológico massivo, houve apagões em distintas partes da cidade de Caracas e se desmobilizou radares, sistemas de comunicação e defesa antiaérea, por meio eletrônico e cibernético. Por isso, não foi falta de valor, não foi a miserável traição, se não uma potente e simétrica tecnologia militar de grau massivo, a CIA não precisa comprar ninguém na Venezuela, no Brasil, no Rio Grande do Sul ou até mesmo em Candiota, compra e processa dados, sabotou com essa prática distintos países e esse é uma das faces do Imperialismo no Século XXI.
O esforço para a produção de um consenso necessário, para poder perpetuar essa barbárie, o Império reciclou todas as narrativas contra os processos Bolivarianos, quando já não serve o discurso da “Falta de Democracia”, “Ditadura de Maduro”, “dos Direitos Humanos”, “do Terrorismo”, se ativa uma das últimas que faltava “o Narcotráfico”, e para dar mais força a sua política fascista e desumanizada, lançaram do “Narcoterrorismo”. É dizer, localizaram os Venezuelanos e Venezuelanas com a escória da humanidade, isso ficou patente nos cargos absurdos que querem implicar ao Presidente Nicolás Maduro e a Primeira Combatente Cilia Flores, essas narrativas são estruturas míticas Imperiais, dispositivos discursivos remontados ao largo da História Colonial que na atualidade se veste em “Projeto de Combate ao Narcotráfico”, sua função é sempre a mesma – produzir um inimigo cuja a vinculação se volte moralmente aceitável, inclusive desejável para a Opinião Pública domesticada Anglo Saxã.
No entanto, o que vimos foi muito mais que isso, em seu primeiro discurso depois do criminal bombardeio e sequestro, Donald Trump deixou algumas coisas nítidas, se trata do único que interessa, roubar e controlar os recursos naturais do Povo Venezuelano, em particular o Petróleo. Como se sabe, a Venezuela é o maior país com reservas de Petróleo comprovadas no mundo. Assim, o que se apresenta é como uma missão moral de “salvar”, “combater”, “democratizar” é a cobertura ideológica da acumulação por despossessão. O petróleo, como antes foi a prata é a substância sobre a qual se verifica e se renova a Colonialidade do Poder. E esse ocorrido na Venezuela forma parte do fio condutor do Projeto Imperial para a nossa região – Trump deu sinais truculentos de que logo vem Cuba, Colômbia, México, Groenlândia e porque não imaginar nosso Brasil.
Frente a essa remetida e por vício de operar uma práxis revolucionária do tradicional “O que fazer?” Arrisco-me a provocar algumas tarefas urgentes e concretas para os Partidos de Esquerda, Movimentos Sociais e Pensamento Crítico.
Em primeiro, se deve descolonizar o Direito e a Governança Global – deve se expor como o Direito Internacional Hegemônico à sido um instrumento de legitimação do Colonialismo. Os organismos multilaterais internacionais deveriam cumprir com o seu papel e exigir a aplicação do Direito Internacional, submetendo os EUA e seu Presidente a juízo, no entanto, a história nos mostra que estas Instituições estão estruturalmente viciadas pela Colonialidade, por isso, a resposta deve ser dobrada, exigir responsabilidade dessas instituições enquanto se fortalecem com urgência espaços pluriversais de Governança Global desde o Sul Global, dotado de mecanismos reais de defesa coletiva e justiça.
Em segundo (não necessariamente nessa ordem), alianças de Soberania Tecnológica e Cognitiva – o ataque e uso da Inteligência Artificial marca a rota de uma batalha decisiva da Soberania Tecnológica, a resposta deve ser a construção de sistemas próprios de Inteligência Artificial para o uso em defesa dos Povos, a defesa da nossa Soberania na Região passa pela autonomia digital.
Terceiro, defender a unidade e não alimentar rumores – A Revolução Bolivariana (imaginamos uma revolução em todo continente kkk) é uma força unida, a instalação da Assembleia Nacional, a juramentação de Delcy Rodriguez e a calma estratégica e digna do povo nas ruas, demostra que deve-se rechaçar, também aqui no Brasil, qualquer narrativa que frature essa unidade.
E quarto, mobilização global por objetivos sólidos e contundentes – a solidariedade deve ser objetiva, exigir a liberação imediata e incondicional de Presidente Nicolas Maduros Moros e da Primeira “Dama” Cilia Flores, denunciar a barbárie dessa intervenção, fazendo ver que não se trata somente de Venezuela, mas de não permitir que se crie um precedente de impunidade para jurisprudência da Política Imperial de Trump para a nossa região. A solidariedade deve transcender a proposta e constituir em uma rede global de proteção e defesa da Soberania dos Povos, entendo a batalha na Venezuela e a peleia pelo futuro da Autodeterminação no Sul Global.
Essa agressão tende catalisar, neste momento um processo de conscientização no sentido “Freireano” e de Libertação, os grupos historicamente oprimidos pelo Colonialismo Imperial reconhecem nesta agressão a mesma lógica de desprezo e desapropriação que vem sofrendo por séculos, seja o que seja, o que pensam do processo bolivariano. Este ponto é muito importante, porque a defesa da Soberania Venezuelana, se entrelaça em um Projeto Político que se afirma como antagônico a ordem do Capitalismo Global, em efeito não é a vitimização se não da radicalização, o que passou pode ser um gatilho para um giro decolonial profundo do que significa Soberania, é tão forte a barbárie cognitiva, tão descaradamente contra os princípios do direito que nossos povos e o Presidente venezuelano Nicolás Maduro, frente a isso, vieram agora encarnar a face de resistência de Soberania do Sul Global. Esta é mais uma prova que o modelo “westfaliano” de Soberania sempre é violado no Sul (lembremos do “Impeachment” de Dilma Rousseff), no seu lugar deve se formar um conceito corporal, territorial, comunitário, comunal da Soberania – a Soberania como um ato de cuidado e defesa do nosso povo que exerce a coletividade, em ação, desde as comunidades que produzem vida.
Finalmente, este evento, pode marcar uma disjuntiva histórica, a brutalidade do ataque, ao deixar a lógica perversa do Império redefine nossos horizontes e solidariedade, isto já não pode ser somente um gesto Diplomático, nem mesmo um gesto humanitário, tem que se converter em uma necessidade imperativa de sobrevivência e defesa comum. A solidariedade como uma frente de retaguarda global, os movimentos anticoloniais, decoloniais, de libertação, já não lutam sozinhos contra as formas do colonialismo, se não contra a reformulação Neoliberal e Neofascista. Venezuela é apenas o laboratório onde o Império quer testar seus métodos, por outro lado, a Solidariedade com Venezuela é o campo que os Movimentos Sociais e Populares do Sul devem aprender, devem praticar em tempo real e criar seus próprios processos de emancipação.
E como aprendi com camarada na caminhada – “Comuna o Nada!”
Axil Costa é ex-membro Brigada Internacionalista Apolônio de Carvalho – MST/Venezuela, Filósofo, Educador Físico e Investigador CELARG (Centro de Estudos Latino Americanos e Caribe Romulo Gallegos)
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