O renascimento da Doutrina Monroe: a América Latina na encruzilhada do Século XXI
Publicado em: 8 de janeiro de 2026
Os Estados Unidos publicaram sua nova Estratégia de Segurança Nacional. Não se trata de mais um documento na rotina burocrática de Washington. É uma confissão aberta de que o mudou mudou e não a seu favor. O relato da superpotência que “lidera a ordem internacional baseada nas regras” se desfaz nas entrelinhas de um texto que marca um regresso ao mais rude hemisferismo e a um realismo sem filtros ideológicos.
A mensagem é inequívoca: os Estados Unidos sente o declínio relativo e, diante disso, reordena suas prioridades na América Latina no centro do tabuleiro.
Depois de décadas de globalização, a Casa Branca constata que já não pode sustentar sua hegemonia planetária. O eixo Indo-Pacífico – com a China como rival sistemático – deixa de ser o eixo fundamental. Agora, a segurança nacional começa na fronteira sul e é definida por três fatores que Washington considera como ameaças: imigração, crime organizado e controle territorial dos cartéis.
É o retorno explícito da Doutrina Monroe, mas com um novo nome: o “corolário Trump”. A ideia não é apenas impedir que a China ou a Europa intervenham na América Latina: trata-se de consolidar um domínio estratégico direto sobre a região. A geopolítica volta com toda sua crueldade.
A China deixa de ser “o inimigo”? Não exatamente. O texto reconhece algo que não é comum ouvir em Washington: a política tarifária fracassou. A China se adaptou, acelerou sua independência tecnológica e fortaleceu suas cadeias de abastecimento. Resultados: os Estados Unidos não falam mais de derrotar Pequim, mas de competir no “futuro econômico”.
A China passa de uma ameaça militar para um competidor econômico necessário. Mas com uma nuance preocupante: para freiar seu avanço, os EUA buscam construir uma coalizão econômica contra a China. Isso inclui pressionar aqueles que realizam comércio com ela. E assim, a América Latina – rica em lítio, cobre e alimentos – volta a ser uma peça decisiva.
A Europa é aliada, mas sempre e quando obedece. Talvez o mais surpreendente do documento é sua franqueza sobre a Europa. Washington se incumbe da missão de “mudar a trajetória” da União Europeia, cultivar a resistência interna nos Estados-membros e apoiar os chamados “partidos patriotas” que hoje encabeçam a nova ultradireita europeia.
Acabou a retórica da “aliança de valores”. O objetivo já não é expandir a OTAN, mas evitar que a Europa se torne estrategicamente independente. Os aliados são valorizados apenas enquanto não questionam a liderança estadunidense.
A América Latina está sob um foco mais intenso. Quando os Estados Unidos priorizam o controle do hemisfério, nossa autonomia diminui. Os temas que aumentarão a pressão são claros: imigração e segurança, alinhamentos diplomáticos, inversões estratégicas, infraestrutura crítica, mineração de lítio e cobre, telecomunicações e dados.
O Chile aparece particularmente exposto. Nossa relação estreita com as potências asiáticas e nosso papel no setor de minerais críticos nos colocam no centro da rivalidade econômica global.
O que fazer no Chile? Não temos a opção de nos retirar do mundo, mas temos a obrigação de pensar geopoliticamente. Isso implica em não depender de um único sócio estratégico. Proteger setores críticos com regulações inteligentes. Realizar uma coordenação regional na América do Sul. Construir autonomia gradual, não declarativa.
Quando os gigantes se reorganizam, os países médios devem ampliar sua margem de manobra, não reduzi-la.
Um mundo que mudou. A nova doutrina estadunidense deixa uma conclusão evidente: a ordem internacional universalista acabou. Começa um tempo de bloqueios, transações difíceis e regiões sob controle direto.
Se a América Latina não desenvolver políticas próprias – e se o Chile não projetar uma visão estratégica de longo prazo – outros tomarão as decisões por nós. A velha lógica do hemisfério exclusivo está de volta. E, desta vez, é anunciada abertamente.
Traduzido de https://www.lemondediplomatique.cl/la-nueva-doctrina-monroe-renace-america-latina-en-la-encrucijada-del-siglo-xxi.html, por Paulo Duque, da equipe do Esquerda Online
Top 5 da semana
mundo
O renascimento da Doutrina Monroe: a América Latina na encruzilhada do Século XXI
mundo
Liberdade para Maduro e Cilia, sequestrados e presos políticos do imperialismo
colunistas
Guerra contra a Venezuela
colunistas
“Guerra às drogas” + “guerra ao terror” e o imperialismo de Trump na América Latina
mundo










Imperialismo e pirataria: Trump aumenta ações militares contra soberania da Venezuela