“Guerra às drogas” + “guerra ao terror” e o imperialismo de Trump na América Latina


Publicado em: 6 de janeiro de 2026

Coluna Saúde Pública Resiste

Uma coluna coletiva, produzida por profissionais da saúde, pesquisadores e estudantes de várias partes do País, voltada ao acompanhamento e debate sobre os ataques contra o SUS e a saúde pública, bem como às lutas de resistência pelo direito à saúde. Inaugurada em 07 de abril de 2022, Dia Mundial de Luta pela Saúde.<br /> <br /> Ana Beatriz Valença: Enfermeira pela UFPE, doutoranda em Saúde Pública pela USP e militante do Afronte!;<br /> <br /> Jorge Henrique: Enfermeiro pela UFPI atuante no DF, especialista em saúde coletiva e mestre em Políticas Públicas pela Fiocruz, integrante da Coletiva SUS DF e presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Distrito Federal;<br /> <br /> Karine Afonseca: Enfermeira no DF e mestre em Saúde Coletiva pela UnB, integrante da Coletiva SUS DF e da Associação Brasileira de Enfermagem, seção DF;<br /> <br /> Lígia Maria: Enfermeira pela ESCS DF e mestre em Saúde Coletiva pela UnB. Também compõe a equipe do Programa de Interrupção Gestacional Prevista em Lei do DF;<br /> <br /> Marcos Filipe: Estudante de Medicina, membro da coordenação da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (DENEM), militante do Afronte! e integrante da Coletiva SUS DF;<br /> <br /> Rachel Euflauzino: Estudante de Terapia Ocupacional pela UFRJ e militante do Afronte!;<br /> <br /> Paulo Ribeiro: Técnico em Saúde Pública, mestre em Políticas Públicas e Formação Humana e doutorando em Serviço Social na UFRJ;<br /> <br /> Pedro Costa: Psicólogo e professor de Psicologia na Universidade de Brasília;

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Pedro Henrique Antunes da Costa

Que os reais motivos para a agressão imperialista e Trump à Venezuela não são “democráticos”, o próprio presidente estadunidense fez questão de esclarecer na coletiva de imprensa após os ataques. Cabe, então, compreenderemos melhor como se arquiteta ideologicamente uma ação que fere a soberania de um país e seu povo, chegando ao cúmulo e sequestra um presidente e sua esposa e desrespeita as mais elementares premissas e formalidades do direito internacional.

Na retórica, Trump utiliza uma vez mais a chamada “guerra às drogas” ou ao narcotráfico como subterfúgio, reatualizando a Doutrina Monroe por meio da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA – divulgada em dezembro de 2025. Concretamente, o que se tem é uma ofensiva militar, que busca amplificar os braços do império estadunidense na América Latina, almejando a derrubada do governo Maduro, bem como o acesso irrestrito e espoliativo às reservas mundiais de petróleo e gás venezuelanos.

Ao mesmo tempo, a agressão também soa como alerta ao restante da América Latina, em especial a Colômbia e ao Brasil, cujos governos resistem à extrema direita que avança na região – vide o cinturão da extrema direita consolidado e fortalecido pelos governos de Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele, em El Salvador, e, recentemente, a eleição de José Antonio Kast no Chile. Tanto o Brasil quanto a Colômbia, para além dos recursos naturais volumosos, terão eleições presidenciais em 2026 e a agressão estadunidense à Venezuela incide no tabuleiro político e eleitoral de ambos os países.

Além disso, historicamente, tais países – e, acrescentamos, o México – têm tido suas imagens construídas pelo império como vilões e bandidos produtores das drogas que invadem o território estadunidense, degradando um povo indefeso. Trata-se de um exercício permanente de construção do inimigo externo na forma do traficante, o “narco”, a ser combatido. E se o “mal” está fora, cabe então a invasão, o domínio, onde ele se produz; onde ele se faz mal.
Temos, assim, uma das justificativas para o controle territorial e geopolítico estadunidense da América Latina. É nesse sentido que se “escolhe” o combate ao narcotráfico como uma questão de segurança nacional nos EUA, permitindo a militarização dessa política. Um dos marcos desta política é a formalização, em 1971, pelo presidente Richard Nixon, da chamada “guerra às drogas”, ao tomar tais substâncias como “o inimigo número” dos EUA.

No território estadunidense, isso significou o recrudescimento do combate a determinados grupos e povos, produzidos ideologicamente como inimigos internos e com suas imagens associadas às drogas. O alvo prioritário foi a população negra e periférica, especialmente o movimento negro estadunidense, com alto nível de organização e, de maneira ainda mais intensa, as organizações mais radicais, sendo o exemplo mais pronunciado o Partido dos Panteras Negras. Em paralelo, também se avançou contra o movimento de contracultura e crítico da guerra contra o Vietnã.

A partir do 11 de setembro de 2001, há uma modulação importante na política de segurança externa estadunidense, com a para o que ficou conhecido como “guerra ao terror”. O alvo prioritário, sem deixar de lado a “guerra às drogas” e o domínio do território latino-americano, passa a ser o Oriente Médio. A figura do “traficante” fica em segundo plano, ultrapassada pela do “terrorista”. Não que uma tenha plenamente substituída a outra, como fica evidenciado na própria América Latina, pelo exemplo do Plano Colômbia, concebido em 1999 e implantado em 2000, mas que a partir de 2001 sofre uma mudança, na qual o combate ao narcotráfico se sofistica enquanto combate ao “narcoterrorismo”.

O que temos visto no presente é justamente a sofisticação de um novo estágio do imperialismo estadunidenses na América Latina, no qual se plasmam “guerra às drogas” e “guerra ao terror”. Isso se dá como resposta a um contexto de intensificação da crise do capital, com múltiplas facetas (ambiental e ecológica; econômica e social; humanitária; intraburguesa; subjetiva, dentre outras) que desaguam no avanço da extrema direita e do neofascismo. Em meio a isso, vivenciamos o recrudescimento das guerras e do complexo industrial-militar, a reconfiguração do imperialismo contemporâneo e a sofisticação e renovação de políticas e práticas coloniais, que seguem estruturando hierarquias globais, controle territorial e espoliação de povos inteiros.

Para além da óbvia preocupação que este cenário deve nos causar, nossa dinâmica interna própria acrescenta ainda mais camadas de alerta. Com a proximidade das eleições para o executivo e legislativo em 2026, podemos esperar da extrema direita o recrudescimento de sua atuação bélica e de sua violência, mobilizando centralmente a pauta da segurança pública. Uma amostra disso foi a chacina nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, como uma espécie de balão de ensaio, operada pelas forças de segurança e pelo braço repressivo do estado do Rio de Janeiro, e capitaneada pelo governador Cláudio Castro (PL), correligionário de Bolsonaro.

Uma das diferenças centrais para os EUA, expressa nossa própria condição dependente, de um capitalismo forjado na/pela invasão, colonização e escravismo, que resulta numa inserção tardia e subordinada na divisão internacional do trabalho. Diferentemente dos EUA, o foco da política de segurança tem sido a criação de um inimigo interno, a ser perseguido, criminalizado, manicomializado e morto. Como engrenagem central desta maquinaria histórico, um moinho de gastar gente, como caracterizou Darcy Ribeiro, temos a política sobre drogas – ou, hegemonicamente, antidrogas. Nos marcos do proibicionismo e pautada pela chamada “guerra às drogas”, tem-se (re)produzido um verdadeiro genocídio da população negra e pobre, resultado esse que rasga a sua aparência e denuncia qual o seu real objetivo, que tem sido bastante exitoso. A naturalização dessa violência, apoiada majoritariamente por setores conservadores, mas também por indivíduos, grupos e organizações que se proclamam “progressistas” ou de “esquerda”, revela o caráter estrutural do racismo em nossa sociedade, no qual se alicerça a figura do negro e pobre justamente como inimigo interno a ser criminalizado, manicomializado, preso e morto.

Não é ingênuo avaliar que até o período eleitoral em 2026, governantes e políticos da extrema direita instrumentalizarão ainda mais a pauta, com outras iniciativas na mesma lógica da do Rio de Janeiro para se capitalizar e incidir no tabuleiro eleitoral brasileiro. Considerando novamente a agressão imperialista estadunidense na Venezuela e no restante da América Latina, que é justificada retoricamente pela amálgama “guerra às drogas” + “guerra ao terror”, com o narcotráfico transmutado em narcoterrorismo, deve ser de grande preocupação as iniciativas de extrema direita brasileira de associar, internamente, o tráfico de drogas ao terrorismo, dando subsídios para invasões e agressões imperialistas dos EUA. Logo, quem adota e reproduz o discurso da “guerra às drogas” + “guerra ao terror” está aceitando e reproduzindo também o argumento e discurso do avanço imperialista, abrindo ainda mais as portas para ele em nosso país.

As comemorações de figuras da extrema direita do ataque de Trump à Venezuela, para além de demonstrarem que de “nacionalistas” eles/as não têm nada (e nunca tiveram) e de irem contra preceitos constitucionais e legais, indicam que este terreno continuará pantanoso e sendo chafurdado neste ano e nos próximos. De qualquer forma, a aposta na violência institucionalizada, ainda mais recrudescida, é mais um elemento para nos alertar quanto ao avanço e à força da extrema direita, nacional e internacional, inclusive, num horizonte mais imediato, como é o das eleições de 2026.
Eis mais alguns motivos para repudiar a agressão de Trump à Venezuela, para além daquilo que deveria ser óbvio, mas que carece ser repetido, que é a soberania de um povo e o seu direito à autodeterminação. Da mesma forma que não existe “guerra” a mercadorias tão valiosas como as drogas (tornadas ilícitas), se houvesse uma guerra contra o terror, ela deveria se voltar fundamentalmente aos Estados Unidos, que aterroriza boa parte do mundo.

Trump: tire as mãos da Venezuela!
Libertação imediata de Nicolás Maduro e Cilia Flores!
Fora Trump da América Latina!


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