Quem é Delcy Rodrigues, a nova presidenta da Venezuela?
Uma mulher assume a liderança da revolução bolivariana sob a tensão de um mundo sem regras
Publicado em: 5 de janeiro de 2026
Estamos vivendo em um mundo baseado em regras diplomáticas em decomposição, trata-se de uma fase da história da humanidade muito perigosa, e ainda mais crítica para as nações sem poder militar de dissuasão, que é o caso da América Latina, e especialmente do Brasil. A agressão militar promovida pelos EUA sob o comando de Trump contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nícolas Maduro e Cilia Flores é a expressão máxima de que já estamos vivendo num mundo do vale tudo! Essa covarde ação militar passou por cima da constituição americana, atropelou a carta da ONU e ignorou o conselho de segurança das nações unidas. Isso significa que o grande “hegemon do norte” não respeita mais um mundo baseado em regras definidas no pós-segunda guerra mundial e simplesmente nada acontece. Os desdobramentos são imprevisíveis e sombrios para a humanidade, principalmente num momento da história no qual nunca tivemos tantos estoques de armas hipersônicas e nucleares.
É nesse momento de altíssima tensão que Delcy Rodriguez assume a presidência da Venezuela com o aval da suprema corte e da cúpula das forças armadas. Mas antes de saber quem é a mulher mais poderosa da Venezuela nesse momento e o seu papel no processo de defesa da revolução bolivariana, vamos voltar um pouco na história para entender com mais nitidez a gravidade do momento geopolítico do planeta…
A primeira grande tentativa de estabelecer uma ordem mundial baseada em regras foi na construção da Liga das Nações após a primeira guerra mundial em 1920. Com sede em Genebra na Suíça, formalmente se estabeleceu um secretariado, assembleias permanentes e princípios que tinha como objetivo equalizar conflitos, equilibrar a gangorra de poder global e evitar invasões territoriais e guerras entre as nações. Mas já na década de 1930 a experiência da liga das nações entrou em crise com a invasão militar japonesa na Manchúria em 1931, promovendo todo tipo de violência e atrocidades contra o povo chinês. A crise se aprofundou com a invasão italiana sob o comando de Mussolini na Etiópia (1935), e em setembro de 1939 os nazistas invadem a Polônia, levando França e Inglaterra a declarar guerra à Alemanha, dando início à segunda guerra mundial. Esses acontecimentos jogaram uma pá de cal no papel da Liga das Nações que fracassou no seu objetivo de promover a paz mundial ao não conseguir estabelecer regras diplomáticas internacionais que fossem minimamente aceitas pelas grandes potências mundiais.
Na segunda guerra mundial, três grandes blocos entraram em confronto – O bloco liberal-burguês liderado pela Inglaterra e depois EUA – o bloco nazifascista liderado pela Alemanha em aliança com Itália e Japão, e ainda, a URSS que por si só representava o terceiro bloco. A aliança entre o bloco soviético e o bloco liberal-burguês destruiu o nazifascismo e com o final da guerra em 1945, se iniciou as negociações sobre uma nova ordem mundial, especialmente com a fundação da ONU sob os escombros da Liga das Nações. Os desdobramentos desse processo colocou a humanidade diante de um mundo bipolar e da guerra fria, a institucionalização das nações unidas e suas agências foi uma tentativa de aprimorar os mecanismos e regras internacionais estabelecidas pelos vencedores da segunda guerra mundial – os aliados. O mundo seguiu sob as tensões e contradições da guerra fria até 1991 com a desagregação da URSS e a restauração do capitalismo no leste europeu. O que significou que o mundo baseado em regras, não estava mais no contexto das negociações entre EUA e URSS, entramos num mundo unipolar, onde os derrotados da guerra fria em certa medida passaram a assimilar a ideologia e as regras da hegemonia americana.
Essa situação se desenvolveu sob forte ofensiva norte-americana sobre os povos do mundo que passou a levantar a espada do neoliberalismo sob a cabeça das nações sem praticamente nenhum obstáculo significativo até a virada do século. A ascensão econômica da China e a articulação do sul global em blocos geopolíticos e geoeconômicos – O BRICS e a OCX são as maiores expressões – passou a exigir reformas nos organismos internacionais, dando início a construção de uma arquitetura de mundo multipolar.
Nos parece que a resposta do império ocidental à ascensão chinesa e as articulações defensivas das nações do sul global foi a “ virada de mesa”, especialmente com a rearticulação da extrema direita no mundo liderada por Trump. A destruição de organismos internacionais criados no pós segunda guerra, atropelando as possibilidades de regras diplomáticas, numa tentativa agressiva de defender sua hegemonia unipolar, seus interesses econômicos, especialmente enquadrando toda a América Latina numa espécie de doutrina monroe 2.0 é a concretização da lei é o vale tudo. O objetivo estratégico dos EUA é retomar o domínio da região e ter acesso fácil a recursos naturais necessários para impedir que sua atual crise econômica se aprofunde. Isso explica todos os acontecimentos da madrugada de 03 de janeiro de 2026 na Venezuela, nunca na história da América do Sul os EUA promoveram uma agressão militar direta com esse grau de violência. Estamos falando de um continente que não tem nenhuma potencia militar e que o último conflito de maior magnitude ocorreu no século XIX -A guerra do Paraguai.
É nessa situação de altíssima gravidade da ordem mundial que Delcy Eloína Rodrigues Gomes assume a liderança do governo da Venezuela e do processo em curso da revolução bolivariana. Ela nasceu em maio de 1969 em Caracas, é filha de Jorge Antonio Rodriguez, fundador e líder da Liga Socialista, uma organização revolucionária que participou da luta armada da década de 1970. Em 1976, Jorge Rodriguez foi preso pelas forças de segurança do governo de Carlos Andrés Peres sob a acusação de ser o mentor intelectual do sequestro de um executivo de uma empresa subsidiária americana que tinha negócios na Venezuela. Nessa ocasião, após violentas sessões de tortura, o pai de Delcy Rodrigues é assassinado sob custódia do estado, quando ela tinha apenas sete anos de idade. Tal fato não só marcou um trauma na família Rodriguez, mas entrou para a história política da Venezuela, sendo parte da memória do povo venezuelano até os dias de hoje, frequentemente lembrado por Delcy e seu irmão que é o atual presidente da assembleia nacional da Venezuela. Delcy Rodriguez, trilhou a trajetória de seu pai, foi líder estudantil, ingressou na Universidade Central da Venezuela – UCV, um epicentro do ativismo de esquerda, se formando em 1993. Ainda na década de 90, Delcy foi estudar na Europa, viveu em Paris e Londres, onde se especializou e obteve o título de mestrado em política social pela Birbeck University. Esse exílio acadêmico forjou Delcy como um quadro político de alto nível, fluente em inglês e francês e solidificou suas convicções na luta de classes e no pensamento anti-imperialista.
Com a vitória eleitoral de Hugo Chávez em 1998, quadros da esquerda como Delcy, foram convocados a ocupar cargos públicos para formar um corpo técnico e administrativo de alta capacidade e comprometidos com o projeto que se iniciava. Mas a sua experiência no alto escalão ocorreu somente em 2006, quando Chávez a nomeou ministra do despacho da presidência. Ela era encarregada do acesso ao presidente e de toda a agenda diária do palácio Miraflores. Essa fase durou pouco tempo e logo Delcy foi designada a trabalhar como assessora de ministérios em cargos mais discretos e foi nesse momento que ela se aproximou de Nícolas Maduro, que foi ministro das relações exteriores de Chaves entre 2006-2013. Com a doença e morte de Chávez, e posterior ascensão de Maduro à presidência da Venezuela, Delcy Rodríguez foi nomeada Ministra da Comunicação em 2013-2014, e depois foi ministra das relações exteriores entre 2014-2017. A frente do ministério das comunicações enfrentou um período de intensa turbulência com o surgimento das “guarimbas” organizadas pela oposição com apoio externo, eram protestos violentos de rua que desafiavam as forças de segurança. Nesse momento Delcy combateu com mão de ferro a mídia privada ligada a oposição e ao imperialismo, aplicando multas e estabelecendo limites, através da “lei de responsabilidade social” a cada episódio crítico de desinformação contra o governo. O seu ministério ajudou a consolidar o ecossistema de mídia estatal do país, especialmente a Telesur, o seu comando à frente do ministério das comunicações foi crucial para a sobrevivência dos primeiros anos do governo Maduro.
A sua lealdade e capacidade de alto nível a frente dessa tarefa no setor de comunicações num momento de crise, fez Maduro nomeá-la para ministra das relações exteriores em 2014, foi a primeira mulher a ocupar esse cargo no país. Sua missão era organizar uma “diplomacia de combate” para defender o governo num momento em que a América Latina girava a direita com o refluxo da primeira “onda rosa” que se iniciou nos anos 2000, a Venezuela já estava diante dos perigos do isolamento. Na sua gestão, Delcy Rodrigues travou grandes embates no interior da OEA, no Mercosul e na ONU, quando uma avalanche de desinformação e de forte propaganda contra a Venezuela se espalhava por todo mundo. Em 2016 os governos de direita do Brasil, Paraguai e Argentina tomam a decisão de suspender a Venezuela do Mercosul e impedir que a presidência rotativa seja exercida pelo governo Maduro. Mesmo diante da suspensão, Delcy Rodrigues pega um avião e vai à cúpula do Mercosul em Buenos Aires em dezembro de 2016, é impedida de entrar, sendo agredida por seguranças na porta do evento, ela organiza um protesto na porta e diz: “ se não me deixam entrar pela porta, vou entrar pela janela”, essa imagem circulou por todo mundo.
É nesse momento de tentativa de isolamento total da Venezuela no continente que Delcy Rodriguez opera o aprofundamento das relações com a China e a Rússia e inicia a negociação de uma arquitetura financeira para permitir que a Venezuela possa sobreviver economicamente às sanções e estabelecer acesso aos sistemas de pagamentos alternativos construídos por Moscou e Pequim. Mas o pior ainda estava por vir, na virada de ano entre 2016 e 2017, um movimento golpista se organizou na assembleia nacional da Venezuela, que desde 2015 estava controlada pela oposição. Em janeiro de 2017, o parlamento com 106 votos a favor declarou formalmente o “abandono de cargo” e responsabilizou Maduro por toda a crise econômica e social da Venezuela. Essa tentativa explícita de golpe foi anulada pelo Tribunal Superior de Justiça – TSJ, que declarou a assembleia nacional em desobediência civil e anulou todas as suas decisões. Em maio de 2017, Nicolás Maduro convoca a assembleia nacional constituinte como uma forma de responder a ofensiva golpista da assembleia nacional controlada pela oposição, Delcy Rodriguez deixa o ministério das relações exteriores e é eleita presidenta da Assembleia Nacional Constituinte – ANC, que acabou suplantando a assembleia nacional controlada pelos golpistas, demitiu a procuradora geral da república e aprovou a “ lei contra o ódio”, que criminaliza toda a oposição golpista.
A essa altura, Delcy Rodriguez já tinha dado todas as provas da sua lealdade e capacidade em defender a revolução bolivariana, então em 2018, ela é indicada para o cargo de vice-presidente executiva da república, a constituição venezuelana confere ao presidente da república a indicação do cargo de vice-presidente. Em 2020, ela acumula o cargo de Ministra da Economia, se tornando a segunda pessoa mais poderosa da hierarquia chavista, enfrentando um período de colapso econômico e as sanções de “pressão máxima” de Trump em seu primeiro mandato – A Venezuela estava excluída do sistema Swift, o Reino Unido confiscou cerca de 31 toneladas de ouro do país e Juan Guaidó estava sendo reconhecido como presidente interino legítimo da Venezuela e não Nicolás Maduro, pelo imperialismo ocidental. Segundo dados do Banco Central da Venezuela e do CEPAL, em 2020 o PIB da Venezuela estava em -30%, a inflação bateu um absurdo índice de quase 3000% por conta de uma grave crise cambial e a produção de barris de petróleo dia ( bpd) estava em torno de 400 mil, um número muito baixo que estava arrastando a economia da Venezuela para uma profunda recessão.
A frente o ministério da economia, Delcy Rodriguez ajudou a elaborar e defendeu uma peça central da sua estratégia que foi a “Lei Constitucional Antibloqueio para o Desenvolvimento Nacional e a Garantia dos Direitos Humanos”, essa legislação conferiu ao executivo poderes para tomar medidas emergenciais para salvar a economia do país através da flexibilização de temas como o câmbio e a legalização controlada do dólar, a importação de certos produtos, a assinatura de contratos confidenciais com investidores privados para fugir das sanções americanas, a venda de ativos estatais e formação de joint ventures para atrair investimento externo, entre várias outras medidas. Essa nova política econômica enfrentou críticos mais radicais dentro e fora do governo, pois se tratava de recuos táticos para tentar superar uma crise que estava colocando em risco a soberania alimentar do país e a própria sustentação da revolução política chavista que não estava conseguindo suportar o peso implacável das sanções imperialistas e da precariedade da produção local de alimentos. Delcy Rodríguez atuou para convencer a ala mais radical do governo e conseguiu formar uma ampla maioria para legitimar esse plano econômico.
Além da lei anti bloqueio, outras iniciativas importantes para garantir a soberania alimentar da Venezuela foram sendo tomadas como o recente “Plano Prosperidade, Amor e Alimentos”, que teve o objetivo de aumentar a produção nacional através de fazendas coletivas, pequenas propriedades, hortas urbanas, parceria agroecologica com o MST brasileiro, expandindo a distribuição de alimentos a preços justos para driblar as sanções e substituir importações, mitigando a escassez e a inflação.
Todas essas iniciativas tiveram sucesso até agora, os números embora apresentem alguma disparidade entre o Banco Central da Venezuela (BCV), os dados do CEPAL e do FMI, mas todos conferem o reconhecimento que o PIB cresceu, a hiperinflação foi derrubada e a produção de petróleo barril por dia praticamente dobrou no período de 2020 a 2025.
Segundo dados do BCV a evolução dos números foram os seguintes:
*Inflação anual (%) 2020: 2959,8% / 2021: 686% / 2022: 234% / 2023: 190% / 2024: 48%
*Crescimento PIB ( %) 2020: -30% / 2021: +1,2% / 2022: +14,8% / 2023: +9% / 2024: +8,54%
Segundo dados de relatórios da OPEP – Prod.média diária de barris por dia:
2020: ~550 mil bpd ( mínima histórica)
2021: ~600 mil bpd
2022: ~750 mil bpd
2023:~800 mil bpd
2024: ~890 mil bpd
2025: ~1milhão bpd
Esses números da economia venezuelana apresentaram no período de 2020 à 2025 uma evolução muito positiva, confirmando que a condução da política econômica sob o comando de Delcy Rodrigues foi acertada para derrubar a hiperinflação e recuperar o apoio popular ao governo Maduro e ao processo de revolução bolivariana. Mas é importante destacar que essa recuperação ainda não é suficiente para a consolidação de uma recuperação plena, sendo portanto um desafio conseguir dar uma evolução permanente de longo prazo que dê as condições para um salto de qualidade para uma economia soberana. Seja como for, ainda que a condição de pobreza seja uma constante nas amplas massas venezuelanas, nos parece que esse pequeno avanço nos últimos cinco anos foi suficiente para que o povo reconheça a recente melhoria das suas condições de vida. A maior prova disso é que na atual agressão imperialista contra a Venezuela, o que nós estamos vendo nas ruas não é uma massa apoiando o sequestro de Maduro, mas sim, um amplo repúdio anti-imperialista com mobilizações massivas nas ruas de várias cidades, incluindo a capital Caracas. Outra prova de apoio ao regime chavista é o fato de milhares de cidadãos terem se alistado recentemente no exército popular convocado pelo governo venezuelano, confirmando que o chavismo ainda tem forte apoio de massas no país.
Delcy Rodrigues assumiu a presidência da Venezuela numa situação muito delicada, e provavelmente é o momento histórico mais difícil da trajetória do chavismo, suas declarações até agora como líder máxima do processo de revolução bolivariana bate de frente com as declarações de Trump que em coletiva de imprensa após o sequestro de Maduro disse com todas as letras que os EUA “ irão governar a Venezuela até uma transição”. Segundo declarações da nova presidenta da Venezuela em rede nacional a principal frase que circulou por todas as redes e televisões do mundo é “ A Venezuela jamais será colônia de qualquer império ou nação”, além disso ela exigiu a liberdade imediata de Maduro e Cilia Flores e convocou a população e as autoridades a defenderem a nação e seus recursos naturais.
O momento ainda é de máxima tensão, na medida que o governo americano está prometendo novos ataques contra a Venezuela, e há notícias da imprensa ocidental registrando declarações de Trump dizendo que se Delcy não tomar as “decisões corretas”, o seu fim poderá ser pior do que aconteceu com Maduro. Está nítido que a soberania da Venezuela está em risco e que a derrota histórica da revolução bolivariana pode se concretizar caso não haja um grande movimento de massas dentro e fora da Venezuela contra a agressão imperialista. Até agora o PSUV governa e o regime chavista está de pé, mesmo com toda pressão econômica e militar, e mesmo com o bombardeio em território venezuelano que culminou com o sequestro de Maduro e Cilia Flores, deixando dezenas de mortes de soldados e civis. Tudo isso ainda não foi suficiente para derrubar o governo e implementar uma administração fantoche a serviço de Trump. Pelo contrário, as mobilizações de rua contra a agressão imperialista surgiram em vários países do mundo, inclusive dentro dos EUA, o que pode afetar a própria popularidade do atual governo americano.
A chave para proteger a soberania da América Latina e da Venezuela é a continuidade e ampliação das mobilizações contra o imperialismo, os movimentos sociais no Brasil, as forças progressistas e o próprio governo brasileiro não podem vacilar nesse momento decisivo da história. Hoje é a Venezuela, amanhã poderá ser o Brasil.
Todo apoio a Delcy Rodriguez, presidenta da República Bolivariana da Venezuela!
Liberdade para Maduro e Cilia Flores!
Fora Trump da América Latina!
Gibran Jordão é historiador, analista de geopolítica e TAE-UFRJ. Escreve na editoria Mundo do Eol.
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