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Adolescência: de incels a Trump, passando por Marçal


Publicado em: 5 de abril de 2025

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Mayk Alves, de São Paulo (SP)

Esquerda Online

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Gostaria de trazer algumas reflexões sobre o novo sucesso de audiência da Netflix: a mini-série Adolescência . Antes de tudo, já avisamos ao leitor distraído que ainda não assistiu a série que este texto não conterá spoilers!

O primeiro contato

Sou formado em Física. Entrei na Universidade há 10 anos. Diferente de muitos dos meus companheiros de Movimento Estudantil, estive em contato próximo com os setores mais reacionários que poderiam existir em uma universidade. No prédio em que me formei, havia literalmente o início de um núcleo de militantes de direita que planejavam construir em Belo Horizonte um espelho do que era o MBL em São Paulo.

Não surpreende, uma vez que a política de cotas havia acabado de ser implementada e o perfil dos cursos de exatas, tanto entre os discentes, quanto entre os docentes, era hegemonizado pelo homem branco de classe média, amante de Black Metal e videogames, que iam aos atos de verde-amarelo aos domingos defender o impeachment da Presidenta Dilma.

Não erra um milímetro sequer quem imagine ter sido um processo bastante tumultuado: perseguições, confrontos, difamações etc. Tudo isso em um microcosmo bastante específico e peculiar onde o único assunto comum e universal era o interesse por animes.

Apesar de muito mais tranquilo do que o mundo real, foi um grande desafio enfrentar esse pequeno núcleo proto-fascista universitário. Nesse cenário, o primeiro passo que tive de tomar foi entender quem eram meus inimigos. Não somente conhecê-los pessoalmente, mas buscar suas referências políticas. Muito antes de conhecer Marx, tive de me debruçar sobre os teóricos do neoliberalismo.

O avanço do conservadorismo neoliberal sobre a juventude

O objetivo deste texto é compartilhar um pouco da visão que possuo sobre o fenômeno do conservadorismo neoliberal sobre a juventude brasileira. Tomo como ponto de partida a série inglesa que referencio no título deste texto. Este debate está profundamente conectado à realidade brasileira, haja vista o fenômeno Marçal e seu grande sucesso entre os eleitores adolescentes e jovens.

Em quatro capítulos, a peça audiovisual narra a trajetória de Jamie Miller, um jovem de 13 anos que é levado à delegacia de polícia sob acusações de assassinato a facadas de sua colega de escola, Katie. Ainda no primeiro episódio, levanta-se a hipótese de que a motivação para o crime teria sido a garota ter ofendido Jamie ao chamá-lo de incel nas redes sociais, algo que teria se tornado de conhecimento de toda a sua escola.

(Desculpem-me se adiantei um pouco a história, havia prometido não dar spoilers, mas não seria possível continuarmos nossa análise sem essa informação.)

Para aqueles que não conhecem o termo, incel é uma abreviação de involuntary celibate, ou seja, celibatário involuntário. Sendo mais específico, são chamados de celibatários involuntários aqueles homens que sentem o desejo sexual por mulheres, mas nunca praticam a atividade sexual por alegações de “serem rejeitados”.

Isso pode assustar, mas existem de fato grupos organizados em fóruns da internet, especialmente na deep web — a internet criada para não deixar rastros e alimentada por servidores independentes por onde circulam desde de filmes piratas a negociações de tráfico humano — que se autointitulam incels . Esses grupos não são nada inofensivos. Seu caráter intrinsecamente misógino transborda no compartilhamento de textos, imagens e vídeos contendo as maiores atrocidades imagináveis contra mulheres.

A teoria da razão 80-20, como elencado na minissérie, é a peça chave do pensamento incel . Segundo ela, 80% das mulheres só se interessaram por 20% dos homens: os mais atraentes ou bem-sucedidos, o que levaria a grande parte deles — os desairosos ou fracassados — a ter que disputar as 20% restantes ou se tornar incels.

Isso se daria porque os valores do mundo estariam sendo deturpados por uma agenda política capitaneada principalmente pelo movimento feminista, mas na qual também estaria inserido, nessa visão conspiratória da realidade, todo e qualquer movimento social progressista.

Somente com o que trouxemos agora, já é possível fazer uma conexão entre o neoliberalismo e o movimento incel. Como dizem Pierre e Dardot, o neoliberalismo vai muito além de uma mera teoria econômica. De fato, não existe teoria econômica que se sustente na realidade sem que haja uma ideologia por trás. Toda ideologia, ademais, precisa de uma mediação simbólica que reforce seus pressupostos. E uma dessas mediações é a figura do self made man.

Steve Jobs, Mark Zuckerberg, Elon Musk, Bill Gates etc. Ao mesmo tempo que Reagan implementava suas primeiras medidas de destruição do pacto de Bem Estar Social, surgiam também nos EUA a figura do grande empresário de sucesso que, segundo a lenda, havia construído sua fortuna a partir do nada, apenas sendo um empreendedor de garagem. Essa é a figura do self made man, o homem que fez a si mesmo.

Qualquer um que acompanhe o cenário das novidades em tecnologia irá se lembrar do modo de se vestir de Zuckerberg, Musk e Gates: calça jeans e um suéter. É um símbolo proposital para reforçar a ideia neoliberal de que todos partem de um mesmo lugar na disputa de mercado e que, se você fracassou, a culpa é sua. Elon Musk já representa uma ruptura com essa geração de magnatas estadunidenses, uma vez que está sempre ostentando e se gabando de sua fortuna.

Há também uma série, ambientada na Nova York de 1960, cujo tema é justamente a rotina de um grande empreendedor do ramo de publicidade. Nessa série, é possível acompanhar na trama as mudanças culturais e morais da sociedade americana, sua transição de mentalidade do New Deal para o Neoliberalismo, de FDR para Reagan. De fato, tudo começou em NY.

Na verdade, todos sabemos que esses grandes bilionários não construíram sua fortuna do nada. Todos eles, até aqueles que de fato não receberam grandes quantias de herança, ou frequentaram algumas das maiores universidades do mundo ou estavam no lugar certo, com os contatos certos.

E os incels? Bem, se conhecemos um pouco da dialética e de suas peripécias, fica nítido que a figura do incel é nada mais, nada menos, do que a antítese da figura do self made man! De fato, o ódio às mulheres é apenas uma válvula de escape, também uma mediação, desses homens para com o fato de que fracassaram na vida! E a culpa, para eles, obviamente é das feministas com cabelo debaixo do braço.

Esse debate se conecta profundamente com a realidade da juventude brasileira (e de outros países também): em termos geracionais, os jovens de hoje já não compartilham do anseio da geração anterior de mudar de vida conquistando um emprego estável no qual seguirá até aposentar. As condições de vida melhoraram relativamente, mas as perspectivas de futuro pioraram.

Sendo assim, fracassam no mercado de trabalho e, com isso, ou aceitam que fracassaram por conta de suas escolhas individuais, ou encontram algum bode expiatório. Afinal, o Zuckerberg veio do nada e construiu o Facebook. Na classe média, perfil de jovem da extrema-direita com que tive o desprazer de conviver, o culpado é o Estado.

Para esse jovem, fracassar é não conseguir se tornar um Steve Jobs investindo a herança da ordem 2 milhões que vai herdar quando os pais morrerem — isso, claro, se eles não estiverem afundados em dívidas porque o negócio que possuem entrou em falência. O problema, segundo esse jovem, seria que o Brasil teria imposto demais, regra trabalhista demais, pobre demais, preto demais, favelado demais, criminosos demais, corruptos demais.

A lógica é sempre a mesma, muda apenas o bode expiatório da vez. No caso das igrejas neopentecostais, a explicação é que você fracassou porque não é digno de ser escolhido para entrar no reino dos céus e isso acontece porque sua família está envolvida com o pecado. Qual é o pecado? Ser LGBT, feminista ou macumbeiro! O Brasil está afundando por causa do carnaval, do aborto, da libertinagem, da destruição da família tradicional etc.

Já para o jovem de periferia, fracassar é acabar preso aos empregos informais ou CLT, sendo brutalmente explorado e nem assim alcançando condições de viver com a mínima dignidade e de tirar a família da miséria. Para o homem branco, heterossexual, pobre mas com trabalho estável, a não muito tempo de se aposentar, fracassar é ver sua mulher ganhando independência, mandando na casa, exigindo o compartilhamento das tarefas domésticas ou, por vezes, até ganhando mais que ele!

Como se não bastasse, esse homem passa a ver o filho com outro homem, a filha dizendo que não quer lhe dar netos, namorando um “preto” maloqueiro que conheceu na faculdade ou transicionando de gênero. É o fim do mundo! É como se as piores profecias apocalípticas bíblicas estivessem se cumprindo.

Nesse cenário, é óbvio que figuras como Bolsonaro e Pablo Marçal nadam de braçada. Aliás, a figura do coach é também mais um efeito colateral da figura do self made man. É aquele homem que não possui a capacidade técnica ou intelectual dos grandes bilionários da tecnologia e que, por isso, apela para o charlatanismo.

Esse charlatanismo não é nenhuma novidade entre quem é da Física. Não há nada no mundo que um físico odeie mais do que alguém dizendo por aí que vai usar a “teoria quântica das vibrações” para o que quer que seja. Pablo Marçal disse exatamente que não ganhou a eleição de São Paulo porque não alcançou a frequência vibracional correta! É impossível escrever esta última frase sem cair em gargalhadas. Um misto de tragédia e comédia.

Uma relação mais profunda

Como disse, o caso fictício da série Adolescência surgiu como um gatilho para que escrevesse este texto. De fato, a primeira vez que ouvi o termo incel foi quando meus “colegas” reacionários comentavam sobre seus ídolos políticos. Um deles, pouco comentado nos círculos de esquerda, é o youtuber Paulo Kogos.

Kogos é egresso do Curso de Formação de Oficiais da Reserva do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de São Paulo. Além disso, é filho da “Rainha do Botox”, uma das dermatologistas mais famosas do Brasil e que conta com Marcela Temer e Amaury Jr. como seus clientes. Foi um dos pioneiros, senão o primeiro, propagandista brasileiro da famigerada teoria político econômica do “anarcocapitalismo” e por isso era admirado por meus “colegas”. Segundo o Wikipédia,

Numa entrevista ao Estadão, declarou-se “anarcocapitalista com tendências monárquicas”, afirmando-se contra a democracia, na qual vê “a perda de freios morais e limites éticos”. Defende um ideal de sociedade cristã, livre mercado, da ordem e da hierarquia, baseado no princípio da desigualdade social, em que umas pessoas estão mais aptas que outras a servir. O poder seria, assim, exercido por “pequenas governanças feitas por uma elite natural”.

No entanto, apesar de admirado por suas posições político-econômicas, não era citado uma única vez sequer sem que, ao mesmo tempo, alguém o acusasse de ser incel. Kogos se candidatou a deputado estadual por São Paulo em 2022 e obteve 33.109 votos. Foi o mais votado do PTB, não se elegendo porque sua legenda não alcançou o coeficiente eleitoral. Em 2024, se candidatou a vereador pelo UNIÃO na cidade de São Paulo e obteve 11.263 votos.

Ainda segundo o Wikipédia:

Em 2018, o canal do YouTube de Paulo Kogos foi identificado num trabalho acadêmico da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa como uma das vozes dominantes no ecossistema de movimentos populistas da direita brasileira naquela plataforma. O uso do algoritmo Force Atlas 2 e das métricas Modularidade e Grau Médio Ponderado permitiram detetar toda uma comunidade centrada no canal de Kogos, inserindo-se tanto na rede dominada pelo Movimento Brasil Livre (MBL), como na dominada pelo canal “Ideias Radicais”, esta com uma densidade de utilizadores cinco vezes superior à da rede dominada pelo Movimento Brasil Livre, atuando como ponte entre as comunidades de ambas as redes. O canal surge com grau ponderado alto na rede dominada pelo “Ideias Radicais”, caracterizada pelas relações de grande coerência no quadro do liberalismo e do anarcocapitalismo.

Kogos, por seu caráter anedótico, não representa grande perigo político no campo eleitoral mais amplo, mas este mesmo caráter o torna um feroz propagandista entre os setores mais jovens.

Esse episódio na minha trajetória foi um dos mais marcantes para que começasse a associar neoliberalismo, extrema direita e fascismo. Afinal, muito se fala sobre Reagan e Thatcher enquanto grandes lideranças conservadoras e neoliberais, mas pouco se costuma falar de seus principais mentores teóricos: os economistas da Escola de Chicago e os da Escola Austríaca, ambos enquadrados no paradigma neoclássico, ou seja, neoliberal.

Paulo Guedes, por exemplo, se formou como economista exatamente pela Universidade de Chicago. Essa escola de economia foi fundada por Milton Friedman, ganhador do Nobel de Economia de 1976 e pai da teoria econômica denominada Monetarismo. Em linhas gerais, foi Friedman o primeiro a formular a ideia do tripé macroeconômico: câmbio flutuante, meta de inflação e meta fiscal, amplamente disseminada pelo FMI desde o Consenso de Washington.

Tendo uma abordagem mais técnica, o foco de quem segue essa linha econômica é pura e simplesmente a estabilização da moeda. Segundo eles, o Estado deveria ser apenas isso: um agente de estabilização da moeda. Dessa forma, caso a moeda esteja estabilizada, as leis estatísticas do mercado supostamente tendem a funcionar perfeitamente e garantir o pleno funcionamento da produção.

Já a Escola Austríaca, fundada por Ludwig von Mises ainda no período da Grande Recessão, tem uma abordagem muito mais política. Mises elaborou uma crítica da economia-política sofrível, mas que mesmo assim se tornou muito influente. O centro de sua crítica se dá na contraposição entre a “liberdade individual” e a existência do Estado.

Indo na contramão da escola Keynesiana, que deu origem ao New Deal estadunidense, Mises argumenta em uma série de ensaios falaciosos que existência das crises no capitalismo se dá não por causa de sua natureza intrínseca, como para os marxistas, ou por causa da ausência de controle estatal, como para os keynesianos. Para Mises, é justamente a existência do Estado que provoca falhas no funcionamento pleno do capitalismo.

Segundo ele, o Estado teria surgido para frear a livre concorrência. Nessa teoria, o principal mecanismo de controle estatal seria tanto a existência dos impostos, quanto a justificativa para sua existência: os serviços públicos. Sendo assim, Mises é tão reacionário que chega a questionar a própria existência de uma República!

A corrente política que se fundou a partir dos pensamentos de Mises recebe o nome de Libertarianismo. É nessa corrente que surge o famoso mote libertário “Imposto é roubo!”. Um dos ícones desse movimento é a bandeira de Gadsden, uma bandeira amarela com uma cobra preta em posição de bote com a consigna “Don’t tread on me” (Não pise em mim). Esse foi um dos símbolos da Revolução de Independência Americana, cujo lema central era “Liberdade ou Morte”, em referência à insatisfação dos colonos americanos com relação à cobrança de impostos pela coroa britânica.

A título de conhecimento, os criminosos que invadiram o Capitólio após a derrota de Trump nas eleições de 2020 empunhavam a bandeira de Gadsden juntamente com a bandeira dos Confederados do Sul. Esta última é um típico símbolo dos movimentos supremacista raciais dos EUA, uma vez que os estados do sul foram aqueles que perderam a Guerra Civil e que defendiam a permanência da escravidão. Um de meus professores tinha essa bandeira em seu carro. Teve que retirar com medo de sofrer alguma retaliação dos “comunistas que estavam tomando conta do departamento”.

Entretanto, Mises não foi o que chegou mais longe. O mais radical pensador neoclássico foi um de seus discípulos: Friedrich Hayek, o fundador do anarcocapitalismo. Hayek levou a crítica de Mises até as últimas consequências. Enquanto para o primeiro bastava acabar com os impostos, para o segundo era preciso acabar com o Estado como um todo.

Uma de suas obras mais famosas, “Caminho da servidão”, se passa uma distopia autoritária com grandes referências ao que foram as ditaduras fascistas. Entretanto, a principal imagem que Hayek descreve te leva a concluir que, na verdade, sua distopia era o socialismo soviético! Para ele, o Estado Moderno caminharia inevitavelmente para uma ditadura de tipo soviético.

Quem me dera, não é mesmo? Novamente, as peripécias da dialética. De fato, podemos ver a crítica de Hayek simplesmente como um espelho invertido da crítica marxista-leninista! Seu objetivo final era defender o fim do Estado, mas de uma perspectiva capitalista. Novamente, risível, porém, trágico.

Hayek foi combatente da Primeira Guerra e, segundo o próprio autor, a principal motivação para os seus escritos político-filosóficos foi o desejo de evitar que aquilo acontecesse novamente. O ditado popular “de boas intenções o inferno está cheio” nunca foi tão preciso.

Todos os seus ensaios procuram demonstrar como a ideia de coletividade necessariamente desembocará na servidão do indivíduo à maioria. O Estado existiria para impor a vontade do coletivo sobre a vontade individual. Sendo assim, Hayek não nega somente a ideia de uma República, mas nega a própria possibilidade de haver democracia!

A sociedade, portanto, deveria ser pautada completamente na noção de indivíduo e na concorrência entre eles. A famosa citação “Não existe sociedade, apenas indivíduos”, de Margaret Thatcher, tem inspiração direta nos escritos de Hayek. O mesmo chegou a ser condecorado por ela como Membro da Ordem dos Companheiros de Honra. Ele também ganhou o Prêmio Nobel de Economia, em uma clara evidência do quanto esse prêmio é supervalorizado e de como a filosofia moderna, supostamente neutra, está permeada até o talo dos interesses materiais das classes dominantes.

Por fim, é nítido como toda a filosofia político-econômica da Escola Austríaca é falaciosa. O Estado não é o mediador entre o coletivo e o individual, ou entre a livre iniciativa e a servidão. O Estado é o mediador entre o trabalho e o capital. Sem o Estado moderno, fruto das próprias Revoluções Liberais, a manutenção do capitalismo resultaria simplesmente em um retorno à forma de funcionamento da Monarquia Absolutista.

De fato, se o Estado moderno não tivesse assumido a forma de uma República Democrática, mesmo que no seu regime liberal de funcionamento, tudo seria propriedade privada. Os reis seriam não somente os donos dos meios de produção na forma como conhecemos hoje, mas até mesmo das ruas, das águas, dos exércitos etc. Cada bilionário teria seu próprio feudo. As coisas meio que já são assim, mas na distopia anarcocapitalista tudo seria mil vezes pior.

Sendo assim, pode parecer contraditória e anedótica uma figura como Kogos, que ao mesmo tempo se reivindica “anarquista” e defende uma Monarquia Católica. Mas, não! O retorno a uma nova espécie de Absolutismo Cristão é uma consequência natural da distopia, disfarçada de utopia, criada por Hayek. Todas as peças se encaixam perfeitamente nos miolos escassos de um anarcocapitalista realmente radical.

Algumas nuances

Tudo o emaranhado bizarrices que descrevemos acima forma o quebra-cabeça da extrema direita brasileira hoje. Seu mais notório e completo veículo de propaganda seria, talvez, a editora Brasil Paralelo. Desesperadoramente, é crescente o número de escolas que começam a utilizar material produzido por essa editora. Os think-thanks de Mises hoje formam os quadros políticos do partido Novo.

Mas há nuances, há várias nuances. Não podemos dizer que todos são iguais, embora todos bebam das mesmas fontes. Kim Kataguiri, Guto Zacarias e Lucas Pavanato, por exemplo, são mais próximos das vertentes libertárias. Esses realmente acreditam na utopia de Mises.

Em verdade, apesar de atacarem as feministas e as LGBTs o tempo todo, os mesmos o fazem por puro oportunismo político. Eles são tão liberais que pouco se importam se o aborto for aprovado ou não, se pessoas trans existem ou não, se a maconha for legalizada ou não. No seu âmago, eles acreditam que o Estado não deve se intrometer nesses assuntos pois são de cunho individual. Só investem nessas pautas porque sabem que geram engajamento em sua base, que é majoritariamente conservadora.

O objetivo político desses que citei acima é justamente a destruição de qualquer interferência Estatal na “livre iniciativa individual”, o que, na prática, para eles, só significa diminuir impostos. No resto das questões, pouco importa estar do lado A ou do lado B. Eles, inclusive, são a favor do fim dos subsídios para grandes setores burgueses, pois, para Mises, os subsídios geram uma forma desleal de concorrência.

Vão defender a pequena burguesia com unhas e dentes, pois consideram excessiva a carga tributária sobre pequenos negócios. Tanto Kataguiri quanto Zacarias, embora tenham origem proletária, acreditam plenamente que a solução para os problemas da juventude da qual um dia fizeram parte são o empreendedorismo e a livre iniciativa individual.

Sua maior contradição reside, entretanto, na defesa da intervenção Estatal em momentos de crise. Não é uma contradição muito forte, uma vez que a garantia da liquidez dos bancos é um pressuposto coerente com o monetarismo de Friedman. Caso não se lembrem, Guedes era a favor da renda básica universal e da tributação progressiva, desde que a carga total de impostos não aumentasse. O problema, obviamente, é que a conta não fechava se os serviços públicos não fossem completamente destruídos.

Eles seriam a favor, por exemplo, da privatização de todos os serviços públicos e da distribuição de vouchers entre a população mais precarizada: voucher para a educação, voucher para a saúde etc. Segundo eles, essa seria uma forma de incentivar a concorrência entre os serviços privados. Estariam corretos, caso a tendência natural do capitalismo não fosse a acumulação infinita e a queda tendencial das taxas de lucro.

Algo, inclusive, que nenhum economista liberal conseguiu contestar satisfatoriamente até hoje. O máximo que dizem é que o estímulo à “livre iniciativa” e ao “empreendedorismo” garantiriam que qualquer um pudesse se tornar um “competidor” e assim a “livre concorrência” na oferta garantiria um equilíbrio na acumulação. Aqui, apelam novamente para cases de sucesso como Steve Jobs e Mark Zuckerberg. Quase 300 anos de história comprovam que burguês se une com burguês para ficarem ainda mais burgueses e minarem qualquer concorrência.

Já figuras como Nikolas Ferreira e qualquer político de origem fundamentalista não é apenas libertário, embora ainda defendam políticas liberais, como quando Nikolas espalhou a fakenews sobre o pix. Ali, ele estava seguindo a cartilha neoliberal à risca ao dizer que o governo poderia confiscar o dinheiro do pequeno empresário ou do trabalhador informal. Para ele, não foi um jogo de marketing. Ele acreditava no que estava dizendo.

No entanto, Nikolas é fielmente conservador. Seu objetivo é realmente a salvação do Brasil livrando-o dos pecados dos progressistas marxista-gramscianos cujo objetivo final é a destruição da família. Um pobre coitado. Perigosíssimo, mas um coitado que deve viver em uma profunda insegurança com relação à sua própria masculinidade. Seria a salvação que ele quer para sociedade brasileira algo que também busca para si, tal como Catty Lares a encontrou quando destransicionou? Talvez os boatos de que Nikolas é homossexual não sejam tão errados assim. Nesses momentos, só o gaydar não é suficiente. Faz muita falta a capacidade de ler mentes.

Também segue um certo tipo de ideologia com resquícios de libertarianismo quando afirma algo parecido com o seguinte: “ser LGBT não é problema, o problema é querer usar o Estado para impor a agenda LGBT para as crianças”. É algo também similar ao que diz a principal figura pública da AfD, partido neonazista Alemão, que além de ser lésbica é casada com uma imigrante do Sri Lanka.

A admiradora de Thatcher, afirma não ser seguidora de Hitler porque o mesmo não era um libertário, mas sim de esquerda e adepto a ideais comunistas e socialistas. Segundo ela, o Estado precisa parar de se intrometer na vida das pessoas por meio de políticas de diversidade, pois haveria problemas maiores com que se preocupar na política, tais como a imigração. Defende abertamente a remigração, ou seja, a expulsão de qualquer pessoa que não seja de etnia alemã, mesmo aqueles que sejam cidadãos já reconhecidos pelo país.

Voltando ao Brasil, Tarcísio e Zema são, por sua vez, liberais e conservadores. Seu conservadorismo, entretanto, não é tão doentio quanto o de Nikolas. Se vendem como técnicos. Evitam discursar sobre as pautas moralistas, embora o farão sem pensar duas vezes caso se sintam pressionados.

Por fim, Bolsonaro. Este passa longe de ser libertário, mas é profundamente conservador. Em termos de conservadorismo, é tão ruim ou até pior que Nikolas. Em uma situação de fechamento de regime, talvez Nikolas tivesse um mínimo de misericórdia. Bolsonaro mataria todos, sem piedade. Sua referência política são os generais da ditadura de 64. Procura ser uma versão populista de seus grandes líderes políticos, tais como o Ustra. Tanto é que por várias vezes foi às rusgas com Paulo Guedes quando este quis propor medidas que fossem muito impopulares.

Seu único objetivo político, declarado desde o início de sua atividade, é fechar o regime para impedir o avanço do socialismo. Um verdadeiro quadro contrarrevolucionário. Por muito tempo subestimado, se mostrou o mais inteligente de todos, ao menos com relação a seus objetivos estratégicos, os quais nunca escondeu ou abandonou. Alguma coisa de útil deve ter aprendido na Academia das Agulhas Negras.

Se o interesse da burguesia que o apoia hoje fosse implementar um projeto nacional-desenvolvimentista de estilo keynesiano, Bolsonaro o faria. Essa foi a característica dos regimes fascistas do século passado, uma vez que o neoliberalismo estava longe de ser hegemônico naquela época. A classe estava na ofensiva e era preciso aplicar medidas compensatórias para frear a onda socialista.

A burguesia brasileira hoje está profundamente dividida. Um setor, que por um momento foi majoritário, articulou o golpe parlamentar contra a presidenta Dilma para tomar os rumos do governo das mãos da burguesia que o próprio PT havia fortalecido: a JBS, as empreiteiras etc. Esse foi o objetivo da Lava-Jato e o grande calcanhar de aquiles do Programa Democrático Popular, de sua estratégia.

O objetivo dessa fração majoritária era implementar medidas de cunho neoliberal, mas não dentro da distopia caótica de Paulo Guedes ou a ponto de fechar um regime. Eles perderiam o frágil controle político que haviam alcançado com Temer e se veriam subordinados aos militares. Em suma, sairiam na pior. Tanto politicamente, quanto em seus cofres. São o equivalente ao que Trotsky chamaria de bonapartistas, salvo algumas adaptações.

Uma conclusão

Pois bem, ao leitor chegou até este ponto do texto, saudações! Se estiver avaliando que a história sobre os incels e a mini-série da Netflix se perderam no meio do caminho, fazendo com que a dissertação se tornasse uma grande digressão acerca de assuntos políticos e econômicos, peço mil perdões.

O fluxo do nosso pensamento acaba nos levando aos lugares que mais nos causam inquietação. Caracterizar as nuances da extrema-direita é um exercício que pode nos ajudar tanto nas disputas contra eles, quanto nas projeções sobre quais caminhos eles seguirão. Sendo assim, não poderia deixar de terminar este texto sem fazer algumas projeções para o futuro.

O primeiro ponto a se considerar é que a estratégia de Donald Trump hoje é dúbia o suficiente para impedir uma caracterização precisa do que acontecerá a partir de seu governo. Trump é um jogador de poker. Foi assim que conquistou seu espaço nas negociações empresariais, é assim que faz o jogo da política: blefando. Mas sabemos muito bem que, de blefe em blefe, alguma jogada trunfo cairá em suas mãos.

Nesse cenário, não está muito preocupado com diplomacia. O importante é conquistar novamente a inquestionabilidade da hegemonia norte-americana na divisão imperialista internacional. Conseguindo isso, não há diplomacia que faça falta.

Sendo assim, que as burguesias nacionais dos países colônia, semicolônia e subimperialistas façam suas apostas! Quem ganhará: o império em decadência ou a nova ordem multipolar? Não são apenas os representantes da classe trabalhadora que estão apreensivos. As burguesias também estão. Trump está desestabilizando toda a ordem econômica mundial.

As premissas do Consenso de Washington estão sendo colocadas em cheque. As teses da livre concorrência entre os países caem por terra com as guerras tarifárias entre EUA e China. A extrema direita europeia está justamente questionando um dos maiores pilares da ordem neoliberal, a própria existência da União Europeia.

O boom do pós-guerra já não existe mais. Os países estão estagnando seu crescimento e mesmo assim não conseguem controlar a inflação como conseguiam antes. Uma nova moeda de liquidação internacional está surgindo para fazer frente ao dólar. O Brasil tem papel central nessa articulação.

Ao mesmo tempo, a burguesia brasileira não está interessada em abdicar do tripé macro-econômico. Ajuste fiscal é seu mote, sua fé. O Novo Arcabouço Fiscal do governo Lula está com os tempos contados. A conta em breve não fechará e a burguesia se unirá em peso pelo fim dos pisos nacionais da educação e da saúde e por uma Reforma Administrativa que estrangule ainda mais os serviços públicos.

Quando isso acontecer, o PT será empurrado para a oposição. Até lá, precisamos ganhar tempo. Mas mais que isso, precisamos construir um novo consenso na sociedade brasileira, quiçá um novo consenso mundial.

Em uma situação crítica, é possível que toda a burguesia se una em torno do projeto de fechamento do regime. Qualquer mudança de paradigma não será feita sem que ela esgote todas as suas ferramentas no sentido de fazer com que o novo chegue, mas chegue satisfazendo suas próprias necessidades. É o que Florestan Fernandes e Caio Prado Jr. chamaram de Modernização Conservadora. O fascismo, por enquanto, salvo para alguns setores específicos, é sua última opção.

Desse modo, precisamos urgentemente chegar a um programa de mudanças estruturais profundas. O fim da escala 6×1, a taxação dos super-ricos e o combate à crise climática são promissores. Mas será que serão suficientes?

É necessário um programa anti-imperialista e ousado, capaz de desfazer a cama de gato ideológica armada pela extrema-direita neoliberal e, acima de tudo, de dar nova perspectiva de futuro para nossa juventude!

Por fim, como prometido, indo dos incels a Trump, e passando por Marçal, é essa a conclusão a que gostaria de chegar!

 

 


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