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De norte a sul do Brasil: as universidades vão transicionar
Publicado em: 3 de abril de 2025
Foto: Antonio Scarpinetti
O dia 1º de abril de 2025 foi histórico para a Universidade Estadual de Campinas: o Conselho Universitário da Unicamp (Consu) aprovou a reserva de vagas para o ingresso de pessoas trans no âmbito da graduação.
A política afirmativa foi parte das reivindicações da greve estudantil de 2023, junto a cotas para pessoas com deficiência e a abertura do restaurante universitário aos finais de semana, todas essas conquistas efetivadas ao longo de 2024.
A conquista das cotas trans faz avançar o ciclo de reivindicações para democratização do acesso e melhores condições de permanência estudantil, mudando para sempre a cara de uma das melhores universidades da América Latina.
Nossos passos vêm de longe
A conquista das cotas étnico-raciais, em 2017, transformou radicalmente o perfil social da Unicamp, abrindo um novo ciclo de lutas estudantis e colocando no centro do debate o projeto de universidade. A Unicamp enfrentou uma crise de identidade no conflito entre seu projeto elitista e as demandas impostas por um corpo discente cada vez mais diverso.
A luta do movimento negro venceu e, com ela, floresceu um movimento estudantil cada vez mais consciente de sua vocação de conquistar uma universidade pública gratuita, de qualidade e, acima de tudo, cada vez mais socialmente referenciada: com a cara do povo a quem ela deve servir.
Essas mudanças permitiram o surgimento de coletivos negros em diversos cursos, o fortalecimento das lutas por permanência estudantil e o processo de organização do movimento trans que culminou na conquista das cotas trans.
Há 11 anos o Ateliê Transmoras, comandado por Vicenta Perrotta, resistia na moradia estudantil como ocupação e espaço de formação artística e de acolhimento para pessoas trans da Unicamp. A partir da articulação do ateliê com o movimento estudantil, o movimento trans criou o Núcleo de Consciência Trans(NCT), entidade representativa des estudantes trans, em 2022. A experiência da organização coletiva foi bastante forte: a partir de assembleias de base auto-organizadas, o NCT elegeu delegades para o comando de greve de 2023, para organizar a pauta das cotas na greve. Atuou como força dirigente no processo, não só das pessoas trans, mas do conjunto do ativismo engajado na greve.
O método das “transsembleias” seguiu sendo utilizado para organizar es estudantes trans e sua luta e coletividade mesmo depois da greve.
Com a luta do NCT, a universidade que se recusou até o final e foi uma das últimas do Brasil a aprovar as cotas étnico-raciais, aprova as cotas trans por unanimidade e mostra o quanto a entrada da juventude negra e periférica por suas portas gera um efeito em cascata de transformação epistemológica e cultural da sua comunidade acadêmica.
Sem espaço para o fascismo
Essa linda vitória da comunidade da Unicamp ocorreu sob sistemáticos ataques da extrema direita: o vereador Vinicius Oliveira, associado ao MBL, que invadiu o campus em cinco ocasiões, incluindo o próprio dia da votação da política afirmativa. O vereador e seus capangas depredou murais, intimidou e agrediu estudantes, principalmente no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, vanguarda da luta pelas cotas trans.
Não é segredo para ninguém que as pessoas trans vêm sendo alvo prioritário da extrema direita, bem como as universidades públicas também. A Unicamp deu a melhor resposta possível e reafirmou seu compromisso com a democracia: não se intimidou e aprovou a nova política de cotas.
Mais do que isso, em uma conjuntura de pautas defensivas e de resistência, arrancar uma vitória ofensiva, um novo direito para nosso povo, representa a imposição de uma derrota para nossos inimigos. Na arte da guerra, as vitórias e derrotas contam.
As Universidades vão transicionar: Quais as tarefas do movimento estudantil?
Segundo relatório da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), apenas 0,3% das pessoas trans no Brasil conseguem acessar o ensino superior. Nesse cenário de profunda exclusão a UFSB (Universidade Federal do Sul da Bahia), foi a primeira universidade a instituir o ingresso por cotas para pessoas trans, em 2018. De lá pra cá, outras 21 universidades aprovaram a reserva de vagas.
Cabe lembrar, que a conquista das Cotas etnico-raciais não aconteceu sem luta, articulação e unidade do movimento negro e estudantil. Assim como a aprovação das cotas para pessoas trans também não foi diferente em cada uma dessas universidades. Houve muita articulação e mobilização dos movimentos trans e estudantis junto aos trabalhadores técnico-administrativos e docentes das universidades. Também houve disputa política em cada espaço institucional. A batalha pelas cotas trans nunca foi tão necessária como tarefa de todo o movimento estudantil. Nós precisamos transformar radicalmente a realidade das nossas universidades. Queremos as nossas vivas, dentro das universidades, produzindo conhecimento.
Para isso, precisamos preparar a disputa que vai transicionar as universidades de todo o país! Esse é um chamado do Afronte a todes es estudantes que queiram se somar nessa luta.
É preciso que o movimento estudantil de todo o Brasil dê um passo à frente e se alie, em cada universidade, aos movimentos e coletivos trans para dar voz e corpo a essa luta. Só a unidade dos movimentos trans, com os movimentos sociais e estudantis pode arrancar essa vitória.
Que o exemplo da luta conduzida pelo NCT na Unicamp possa inspirar todas as lutas do movimento estudantil pelo Brasil!
Malena Rojas é Coordenadora do Núcleo de consciência Trans da Unicamp (NCT) e da Coordenação Nacional do Afronte
Lucas Marques é transmasculino, cientista social formado pela Unicamp e assessor da Bancada Feminista
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