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Por que está difícil controlar o preço dos alimentos no Brasil e no mundo?
Publicado em: 2 de abril de 2025
Foto: Fábio Rodrigues/Agência Brasil
Quando as flores brancas nascem no cafezal, é sinal que logo vem o fruto, uma cereja vermelha que guarda no seu ventre a semente negra do café, que por sua vez, é a especial matéria-prima para coar uma das bebidas mais prazerosas e populares do Brasil e do mundo. Diferentemente da civilização ocidental humana, as cores são parte da harmonia do desenvolvimento da natureza da planta do café, que se reproduz muito bem num clima tropical ou subtropical, com chuvas bem distribuídas principalmente na época da floração e com temperaturas medias entre 18ºC e 23ºC. Acontece que nas ultimas décadas, a temperatura média da terra tem sofrido pressões do aquecimento global, ocasionado pela exagerada emissão de gases do efeito estufa.
O ano de 2024 foi o mais quente da história, superando a marca de 1,5 ºC a mais que os níveis pré industriais, desequilibrando a distribuição de chuvas, aumentando o período de secas e ondas de calor. Inevitavelmente levou a quebras significativas de safras de vários produtos agrícolas. Entre as produções mais atingidas foram as plantações de café de Minas Gerais e São Paulo, pois faltou água para o sistema de resfriamento das plantas, impedindo a realização da fotossíntese em sua plenitude, prejudicando que as flores nos cafezais pudessem produzir os botões da fruta do café. A oferta diminuiu drasticamente no mercado interno e nas exportações, lembrando que o Brasil é o maior produtor e exportador de café do mundo, e por essas razões, o preço do café no mercado cotado em dólar disparou. Somente no Brasil, no acumulado de 12 meses até janeiro de 2025, o café moído teve uma alta de 50,4%, de acordo com o IBGE.
O impacto do clima se deu sobre vários produtos agrícolas para além do café em 2024. Dos 168 subitens ligados a alimentação, monitorados pelo IBGE, 119 sofreram elevação de preços ao longo do ano. Vejamos alguns exemplos de produtos mais encarecidos, em variação percentual acumulada nos últimos 12 meses, em janeiro de 2025: Café moído (50,4%), Óleo de soja (24,6%), Carnes (21,2%), Azeite de Oliva (17,2%), Leite longa vida (16,2%), Chocolate (14,3%), Aves e ovos (7,8%), Frutas (7,1%).
O IPCA-15 de 2024, mostrou que a inflação do grupo alimentos e bebidas subiu 8,0% no acumulado de 12 meses, acima do índice geral, que apresentou alta de 4,71%. Nos últimos cinco anos, o preço da alimentação no domicílio subiu 55%, bem acima da inflação geral do período, que ficou em 33%, segundo o IPCA, do IBGE. Durante o período 2020/2021 o preço dos alimentos foi pressionado pela ruptura das cadeias produtivas por conta das consequências da pandemia da Covid-19, em 2022 a produção de grãos, fertilizantes e outros insumos ficaram prejudicados por conta da guerra entre ucranianos e russos, esses dois países são lideres em exportação desses produtos.
Já em 2024, crises climáticas, especialmente provocadas pelos efeitos dos fenômenos La Niña e El Niño, prejudicaram lavouras, plantações, hortas e pastos em todo mundo por conta do desequilíbrio na distribuição de chuvas, com secas prolongadas, crises hídricas, queimadas, geadas e enchentes em vários países, sendo o Brasil um dos mais atingidos.
Vale destacar também a crise na produção de ovos e aves que atinge os EUA desde 2023, o desequilíbrio de ecossistemas colocou criações domésticas em contato com aves selvagens. Uma nova cepa mais virulenta e mortal da gripe aviaria passou a circular nas granjas, obrigou produtores a abater milhões de aves, diminuindo a oferta de ovos no mercado interno americano, elevando os preços a níveis absurdos. Os EUA estão sendo obrigados a importar ovos e carne de frango de outros países, o Brasil deve aumentar suas exportações para o mercado norte-americano em 2025, e consequentemente o preço do ovo deve ficar mais caro também na mesa dos brasileiros.
O descolamento do preço dos alimentos da inflação geral é o novo normal?
Segundo pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Faculdade Getúlio Vargas (IBRE FGV), o inicio do descolamento global da inflação de alimentos em relação a inflação mais geral tem o seu início em meados dos anos 2000.
Analisando os dados do USAD (Departamento de Agricultura dos EUA), é possível constatar que a produtividade media agrícola mundial sofreu uma desaceleração, se compararmos a produtividade total de fatores do período 1990-2000 e a década 2000-2010, diminuindo de 2% a.a. para 1,1% a.a, quase a metade. Ao cruzar os dados com publicações de modelos climáticos oficiais que acompanham e fazem o monitoramento das mudanças climáticas, há uma coincidência com o surgimento dos efeitos mais negativos do clima, especialmente nas lavouras, que emergem a partir de meados dos anos 2000. Os efeitos são ainda mais negativos em partes mais quentes do globo, especialmente em regiões tropicais e subtropicais, como América do Sul, África e México.
Utilizando dados disponíveis do IPEA, os pesquisadores do FGV IBRE, destacam o Brasil, como um dos mais importantes produtores de alimentos em escala global, e que sofreu uma forte desaceleração da sua produção total de fatores na produção agrícola. De meados da década de 1970 até 2011, a produção agropecuária nacional cresceu em torno de 4% ao ano, já de 2012 a 2021, o crescimento médio anual recuou para 1,5% a.a. Na comparação com a evolução da inflação dos alimentos em relação ao IPCA geral no período de 2012 a 2024, a alta dos preços do item alimentação no domicílio teve inflação de 162% enquanto inflação geral elevou-se 109%. As maiores elevações ocorreram em produtos como frutas(que subiram 299%); hortaliças e verduras (246%); cereais, legumes e oleoginosas (217%); tubérculos, raízes e legumes(188%), bebidas e infusões (147%), enlatados e conservas (139%) e panificados (136%).
Ainda segundo esse estudo, os elementos mais importantes que incidem no preço dos alimentos no caso brasileiro na última década, tem relação com a ascensão de mudanças climáticas, especialmente períodos de estiagem cronica que começam a aparecer em várias partes do vasto território nacional em 2012. Como também, o modelo agro exportador, que elevou a área plantada no Brasil, aumentando de 65,4 milhões de hectares em 2010 para 96,3 milhões em 2023. Mas acontece que essa expansão se deveu basicamente à soja, que passou de 23 milhões de hectares para 44 milhões no período e ao milho, que subiu de 13 milhões para 22,6 milhões de hectares. Quando se excluem soja e milho, a área plantada no Brasil ficou virtualmente estável, registrando 29,1 milhões de hectares em 2010 e 29,3 milhões em 2023. A consolidação da pauta exportadora brasileira em produtos primários, especialmente grãos de soja e milho, como uma atividade altamente lucrativa que acaba sendo muito beneficiada com a desvalorização do real em relação ao dólar, tem ocupado a maioria das iniciativas e projetos de expansão dos grandes empreendimentos agrícolas. O crescimento da população na última década tensiona a demanda, ao mesmo tempo em que a oferta de uma variabilidade maior de alimentos para o mercado interno não acompanha, o resultado nitidamente é o aumento da pressão inflacionaria dos alimentos.
Outro estudo publicado em março de 2024 na revista Nature, sugere essa mesma relação entre mudanças climáticas e inflação dos alimentos.
Segundo esse artigo, o aumento da temperatura do planeta pode causar aumentos não lineares e persistentes na inflação dos alimentos. As quebras de safras, devido ondas de calor, secas prolongadas e desequilíbrios na distribuição das chuvas podem diminuir o potencial produtivo na agropecuária, especialmente dos países do sul global. Esse artigo sugere que a inflação dos alimentos pode sofrer um acréscimo de 1 a 3% por ano, especificamente por conta de extremos climáticos até o ano de 2035. Lembrando que essa pressão inflacionaria pode ser maior, por conta de outras variáveis que incide no preço dos alimentos.
Inflação dos alimentos, taxas de juros e crises políticas
O aquecimento global parece ser o elemento mais consistente e permanente que vem colaborando para diminuição da oferta de alimentos e consequentemente para e elevação dos preços. Mas há outros fatores nocivos que se somam eventualmente às pressões inflacionarias, cada vez mais em espaços curtos de tempo. Os desarranjos na harmonia de ecossistemas que podem provocar pandemias, a eclosão de conflitos e guerras prolongadas entre estados e países com economias vulneráveis e focadas em exportação de produtos primários são processos que tem potencial em provocar situações de insegurança alimentar que atinge na maioria das vezes populações de baixa renda.
A lógica de funcionamento do sistema capitalista que sofre de ansiedade por lucros rápidos, impede na maioria das vezes que muitos países, ricos ou pobres, se preparem para mitigar possíveis crises de abastecimento. Quando um surto inflacionário surge provocado por uma queda brusca da oferta de alimentos, na maioria das vezes os bancos centrais do mundo são chamados a entrar em ação aumentando as taxas de juros para conter os ímpetos inflacionários da economia. Muitas crises políticas surgem nesse momento, pois uma crise inflacionaria causada pela oferta de alimentos, não necessariamente será resolvida com o aumento da taxa de juros, podendo inclusive induzir um desaquecimento da economia, sem aliviar os preços dos alimentos. Altas taxas de juros diminuem as possibilidades de crescimento econômico, aumenta o valor das dívidas, pode gerar desemprego, e se não for capaz de diminuir a inflação dos alimentos, provavelmente será uma boa receita para crises políticas…
Já temos alguns bons exemplos dos efeitos políticos das altas taxas de juros convivendo com pressões inflacionarias, especialmente na produção de alimentos em vários países no mundo. Os democratas acabam de perder uma eleição para os republicanos nos EUA, o tema da inflação dos alimentos esteve no debate eleitoral. Os efeitos da mudança climática que levou a quebra de safras, mas especialmente a crise da gripe aviaria que começou no governo Biden, elevou a cartela de ovos a preços absurdos e retirou do prato dos americanos um alimento tradicional da sua dieta. Agora com a administração Trump, essa situação persiste, apesar da paciência da população em aguardar os efeitos da nova política econômica baseada em tarifas de produtos importados, nada garante que na próxima eleição legislativa, os democratas não possam retomar a maioria de uma das casas.
Igual situação vive muitos países da Europa, a inflação provocada por extremos climáticos está amplificada com os efeitos da guerra na Ucrânia no valor do preço da energia. Esse cenário levou a queda do governo de Olaf Scholz com antecipação da eleição e crescimento da extrema direita, com a AfD sendo o segundo partido mais votado atrás somente dos conservadores da CDU.
O governo de Erdogan na Turquia está enfrentando multidões nas ruas, a prisão do prefeito de Istambul foi a gota dagua para a eclosão de protestos, mas o mal-estar provocado pela alta de preços dos alimentos e a maior taxa de juros do planeta já se acumulava por algum tempo. A economia turca foi bastante atingida pelos efeitos climáticos, principalmente na produção de azeite, como também na alta de preços de produtos agrícolas, fertilizantes e da energia importada tanto da Ucrânia como da Rússia.
Na América Latina, a Argentina, desde o governo de Alberto Fernandez, além dos efeitos da pandemia, o país tem sido atingido por secas persistentes que prejudica sua produção agrícola, ao mesmo tempo, a população convive com uma inflação absurda dos alimentos e altas taxas de juros. Essa situação deu vitória a extrema direita liderada por Milei, que agora vê sua popularidade em queda, com multidões nas ruas se enfrentando contra seu projeto econômico ultraneoliberal que vem atacando direitos sociais e levando a população a altos índices de pobreza.
Brasil: a insatisfação popular com a inflação dos alimentos pode gerar uma crise política?
O Brasil caminha para uma situação que requer máxima atenção, os estrategistas do governo Lula tiveram muito sucesso em produzir crescimento econômico, reduzir o desemprego, aumentando o consumo das famílias e reduzindo a extrema pobreza. Mas tudo indica que a preparação do país para absorver a alta demanda de alimentos, tanto para o mercado interno, como para atender as exportações, carece de reparos rápidos, como também de medidas estruturais de longo prazo. O país tem a sexta maior população do mundo que ainda está em expansão, ao mesmo tempo é líder em exportação de produtos agrícolas, o que sugere que qualquer efeito mais intenso de crises climáticas podem causar um desarranjo na produção agropecuária e inflação de alimentos.
Como já demonstramos a inflação dos alimentos ficou acima da inflação geral em 2024, especialmente por conta de extremos climáticos, mas a situação ficou ainda pior com a desvalorização do real frente ao dólar no final de 2024 e início de 2025. A alta do dólar aumenta o preço de todo maquinário e insumos importados, como também da energia (petróleo refinado), encarecendo a produção e o escoamento logístico.
O banco central independente reagiu iniciando um ciclo de alta dos juros em setembro de 2024, e após o quinto aumento consecutivo da taxa Selic, a última reunião do Copom elevou os juros para 14,25%. O Brasil está no top 5 das maiores taxas de juros do mundo, e a inflação dos alimentos segue descolada do índice geral.
As pesquisas de opinião dos últimos dois meses estão mostrando uma sensível queda de popularidade e da avaliação do governo Lula. A pesquisa Ipsos de março de 2025, indica que o índice de brasileiros que tem a inflação como maior preocupação é de 35%, um aumento de 7 pontos desde o último levantamento divulgado em janeiro, e na comparação anual esse dado aumentou 12 pontos. Comparado com outros temas que também tem grande preocupação por parte dos brasileiros como crime e violência (38% – igual à pesquisa anterior), pobreza e desigualdade social (38% – aumento de 1%), a inflação foi sensivelmente o tema que mais sofreu variação negativa.
Haverá tempo de mitigar as tensões inflacionarias no setor de alimentos para recuperar a popularidade de Lula e uma melhor avaliação de seu governo antes do segundo semestre de 2026? Ou ainda, existe a possibilidade da inflação dos alimentos atingir índices ainda mais insustentáveis ao ponto de deteriorar ainda mais a avaliação do governo, com a extrema direita se tornando favorita para ganhar a próxima eleição?
Os dados mostram claramente que os preços dos alimentos têm aumentado a uma taxa mais rápida do que a inflação geral, especialmente quando se considera o período de 12 meses. Isso estabelece uma tendência recente de aumento dos custos dos alimentos que provavelmente continuará no período de previsão. Nessa perspectiva vamos analisar a possível evolução inflacionaria para 2025/2026 de acordo com os fatores que vem determinando o preço dos alimentos.
Vamos utilizar o exemplo do café, da carne Bovina, dos ovos e da carne de frango, para termos uma dimensão do tamanho do problema que o país está enfrentando em relação a pressão inflacionária, mas outros alimentos também estão sofrendo tensões inflacionarias através da crise climática, desvalorização do real, aumento das exportações e da demanda interna.
Café – a bebida mais popular do país: A safra de café do Brasil em 2024 encerrou com uma produção total de 54,2 milhões de sacas de 60 kg, representando uma diminuição de 1,6% em relação ao volume produzido em 2023. Essa redução é atribuída às condições climáticas adversas que afetaram as principais regiões produtoras nos últimos quatro anos, incluindo ocorrências de geadas, restrição hídrica (seca) e temperaturas elevadas. Em particular, Minas Gerais, o maior estado produtor de café do Brasil, registrou uma queda ainda mais acentuada na colheita de 2024, com uma diminuição de 3,1% em comparação com o ano anterior.
A seca e as altas temperaturas foram os principais fatores que impactaram negativamente a produtividade das lavouras de café em Minas Gerais. Além disso, as expectativas para a produção de café no ano corrente permanecem baixas, e há relatos de que o clima adverso já está afetando a safra de 2025-26, sugerindo que os desafios relacionados ao clima para a produção de café no Brasil podem persistir no futuro próximo, o que significa que a bebida mais popular do país, vai seguir com preços que pesam muito no orçamento doméstico da maioria da população de baixa renda do Brasil.
Carne bovina – Os brasileiros de baixa renda vão voltar a comer picanha como Lula anunciou várias vezes na sua propaganda eleitoral?
O preço da carne bovina disparou 20,84% em 2024, segundo dados do IBGE. Com isso a carne se tornou o item com maior peso na inflação de alimentos de 2024, que avançou para 7,69%. O preço da carne bovina não deverá baixar em 2025, e a alta pode se estender até 2026, por causa dos seguintes fatores:
- Ciclo do abate – Nos últimos dois anos houve um aumento do abate de bovinos, incluindo as matrizes. No final de 2024, o rebanho brasileiro começou a diminuir, sendo necessário a retenção de matrizes para o abate, para a recomposição de rebanho, consequentemente teremos em 2025 e provavelmente em 2026 uma menor oferta de carne bovina no mercado. Os bezerros vão nascer em 2025, vão desmamar em 2026 e vão se tornar boi gordo em 2027, quando provavelmente teremos um aumento da oferta de carne bovina no mercado.
- Exportações – Em 2024, o país bateu recorde anual de volume de exportação. No total o Brasil vendeu 2,8 milhões de toneladas de carne para outros países, uma alta de 25% em relação a 2023, segundo dados do ministério da agricultura. As exportações de carne bovina vão continuar em alta demanda, podendo ainda se ampliar com a consolidação de novos mercados internacionais para o produto brasileiro. Com as exportações em alta e uma menor produção de bovinos por conta da retenção de matrizes, a carne no mercado interno vai sofrer forte pressão inflacionaria em 2025 e 2026. A desvalorização do real frente ao dólar também tem potencializado as exportações, por conta do alto rendimento que a alta do dólar fornece para os produtores de carne no Brasil.
- Crise climática – A longa seca em 2024 e as queimadas também incidiram sobre a alta dos preços da carne. De abril a setembro de 2024 choveu menos, numa seca considerava uma das maiores da história, prejudicando a produção de pasto, diminuindo o volume de boi gordo disponível para o abate. O ano de 2025 começou com fortes ondas de calor, demora da chegada de chuvas e com temperaturas recordes no país. É preciso observar como se dará o período de seca que vai de maio a setembro, caso seguir a dinâmica de secas prolongadas, a produção de pasto será afetada mais uma vez, elevando os custos, por conta de maior necessidade de irrigação, e aumento do confinamento do gado e dos custos com ração.
Ovos e carne de frango – Essas proteínas são os principais substitutas da carne bovina na dieta do brasileiro.
Segundo dados do ministério da agricultura, a produção de ovos cresceu 10% e carne de frango 2,37%% em 2024, comparado com 2023. As expectativas para 2025 seguem de alta, com a produção de ovos podendo ter um aumento de 3,4% em relação a 2024. Os produtores de carne de frango também estão otimistas em relação aos números para 2025.
Acontece que mesmo com a produção em alta, a demanda nacional e internacional apresenta tendência de superaquecimento, pelo fato do preço de outras proteínas no Brasil estarem altos como vimos em relação a carne bovina. Como também a crise da gripe aviaria nos EUA, que obrigou o abate e descarte de milhões de aves, está impondo um amplo aumento das importações de ovos da produção brasileira para o mercado interno dos EUA. A estimativa é que o consumo interno de ovos deve aumentar em torno de 1% e as exportações em 10% em 2025.
Embora exista uma boa expectativa com o aumento da produção de ovos, o início de 2025 começou com fortes ondas de calor que afetaram o stress e a saúde das galinhas poedeiras que apresentaram uma diminuição na produção e no tamanho dos ovos. Caso persistir crises climáticas durante 2025, esse fator poderá frustrar as previsões de crescimento da produção ou exigirá mais medidas para mitigar os efeitos climáticos que acabam tensionando ainda mais o preço desses alimentos.
- Gripe aviaria nos EUA – O vírus H5N1 da gripe aviaria dizimou mais de 100 milhões de aves em 49 estados dos EUA desde quanto começaram os surtos, uma nova cepa ainda mais mortal H7N9 já foi detectada. Tal vírus pode se desenvolver, sofrer mutações, havendo o risco da gripe aviaria se tornar uma zoonose com alto potencial de se tornar uma nova pandemia. O alerta fica para que o governo brasileiro, o ministério da agricultura e as secretariais estaduais de agricultura consigam manter as barreiras sanitárias com a eficácia necessária para impedir que o vírus da gripe aviaria que atinge com grande impacto a produção de aves e ovos nos EUA. Caso contrário a catástrofe na produção desse tipo de proteína terá desdobramentos inimagináveis sobre a população brasileira, especialmente de baixa renda.
Outros alimentos – O café, carne bovina, ovos e carne de galinha citados no documento, apresentam forte tendência inflacionaria para 2025 e 2026. Mas outros alimentos que o Brasil é líder de exportação como soja, milho e suco de laranja, também vão sofrer pressão inflacionaria pelos mesmos motivos ( crise climática, alta demanda para exportação e desvalorização do real frente ao dólar). O caso do milho chama a atenção pelo mesmo compor a base da produção de vários alimentos que compõe a dieta da população brasileira, mas também por ser uma parte constitutiva fundamental para a produção de ração animal. Sem falar que frutas e verduras também poderão ter flutuações de preço por conta dos efeitos de eventos climáticos durante o ano de 2025.
Nessa perspectiva a inflação dos alimentos continuará sofrendo alta pressão, pelo menos durante os próximos dois anos. Mesmo com o Banco Central aumentando os juros na tentativa de desaquecer a economia para mitigar os efeitos da inflação, tal medida não conseguirá controlar satisfatoriamente o preço dos alimentos. Isso acontece porque a aquecimento da demanda no mercado interno brasileiro provocada principalmente pela queda do desemprego não é o único e nem o principal fator que afeta o preço dos alimentos. O Brasil tem hoje uma das maiores taxas de juros do mundo, desaquecer a economia e não resolver os problemas que podem reequilibrar a equação oferta e demanda de alimentos no mercado interno, poderá levar o país a uma situação de estagflação.
Insumos agrícolas e energia – Esses elementos precisam ser levados em consideração na inflação de alimentos. A inflação dos fertilizantes, defensivos e ração animal exerce uma pressão contínua sobre os custos de produção em toda a cadeia alimentar no Brasil. Essa pressão, combinada com outros fatores como o clima, a demanda para exportação e a taxa de câmbio, contribui para a inflação geral dos alimentos. Espera-se que os preços dos fertilizantes permaneçam elevados em 2025. Em fevereiro desse ano, o índice de preços de fertilizantes do Banco Mundial registrou um aumento de 7,4%.
O preço da energia elétrica e dos combustíveis também ajuda a tensionar a inflação dos alimentos, pois são fundamentais para o funcionamento da agroindústria e do escoamento da produção. O aumento do custo da geração de energia no Brasil, devido a estiagem pode ter impactos significativos na inflação, hoje estimada em 4,5% para 2025. Já o preço dos combustíveis tiveram uma alta maior do que a inflação geral do Brasil em fevereiro de 2025, enquanto o IPCA registrou alta de 1,31% no mês, os combustíveis subiram 2,89% em média. O litro da gasolina ficou quase R$ 0,16 mais caro, etanol R$ 0,17 maior e diesel ficou R$ 0,27 mais caro.
O impacto das medidas anunciadas pelo governo para mitigar a inflação dos alimentos
A preocupação com a inflação dos alimentos fez o governo federal anunciar medidas que envolve zerar a tarifa sobre alimentos importados, nos seguintes produtos: Óleo de girassol (alíquota atual 9%), Azeite de Oliva (alíquota atual 9%), Sardinha (alíquota atual32%), Biscoitos (alíquota atual 16%), Café (alíquota atual 9%), Carnes (10,8%), Açúcar (alíquota atual 14%), Milho (alíquota atual 7,2%), Massas e macarrão (alíquota atual 14,4%).
Além disso, o governo anunciou outras medidas: Flexibilização da fiscalização sanitária para facilitar a circulação de produtos de origem animal entre estados, sem passar pela inspeção sanitária nacional. Fortalecimento dos estoque regulares pela CONAB para poder aumentar a oferta no mercado interno, Plano Safra com foco na cesta básica, solicitar aos governadores a redução do ICMS sobre alimentos da cesta básica.
A análise da retirada de tarifas sobre a importação, ainda que com atrasos, sugere o início de um esforço para combater a inflação dos alimentos, mas que o impacto dessas primeiras medidas não serão vistos de forma mais contundente a curto prazo, como também irá influenciar pouco para a população de baixa renda. O Brasil exporta grandes volumes desses produtos, e as alíquotas têm um valor relativamente pequeno, com exceção da sardinha. Em relação as outras medidas a mais importantes é o fortalecimento dos estoques reguladores da CONAB, que foram desmontados por governos anteriores, e que começa a ser reativado com atrasos pelo atual governo. Os impactos dos estoques reguladores terá resultado somente a longo prazo e poderá se dar com alguma lentidão devido possíveis eventos climáticos.
Reforma tributária/imposto zero para alimentos da cesta básica – O presidente Lula sancionou a lei complementar (PLC Nº 68/2024) que regulamenta a reforma tributária. A nova lei zera impostos de itens essenciais como arroz, feijão, carnes, farinha de mandioca, farinha de trigo, açúcar, macarrão, pão comum, leite e diversos tipos de queijo. Além desses, também foram incluídos na lista: café, óleo de babaçu, frutas, legumes, verduras e ovos. Trata-se de uma excelente medida no combate a fome a insegurança alimentar, mas não terá efeitos de curto prazo, pois essa lei entrará em vigor somente em 2027.
Propostas de combate a inflação dos alimentos com medidas emergenciais de curto prazo e estruturais de longo prazo
Além das medidas já anunciadas pelo governo visando mitigar a inflação dos alimentos, as propostas abaixo tem o objetivo de ampliar as iniciativas, devido à gravidade da situação de oferta e poder de compra da população de baixa renda.
- Isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil e imposto progressivo, aplicando a alíquota de 27,5% apenas para quem ganha mais de 15 mil reais, chegando a alíquotas de 35% para quem ganha acima de 40 mil reais.
- Antecipação dos efeitos da reforma tributária para janeiro de 2026, zerando tributos a todos os alimentos que compõe a cesta básica.
- Lançamento de um amplo programa de restaurantes populares, lavanderias públicas e brechós com preços simbólicos em bairros pobres de grandes centros urbanos do país.
- Medida provisória em caráter de urgência que zera as alíquotas de ICMS de todos os produtos da cesta básica imediatamente.
- Cotas de alimentos da produção agrícola do agronegócios voltada para exportação, destinada obrigatoriamente para aumentar a oferta no mercado interno.
- Ampliação de recursos do plano safra para agricultura familiar, reforma agrária e produção de alimentos da cesta básica.
- Construção de um programa de reforma agrária conectado com a produção de alimentos em pequenas propriedades próximas de grandes centros urbanos.
- Taxação dos super-ricos e diminuição da jornada de trabalho (Fim da escala 6×1)
- Prioridade nos investimentos na ampliação da indústria de alta tecnologia brasileira e diversificação da pauta exportadora com produtos de alto valor agregado, gerando melhores empregos e melhores salários.
Gibran Jordão é Historiador e TAE da UFRJ
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