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Colunas

Relato 24: “A psicose me fez professora de mim”

Que Loucura!

Coluna antimanicomial, antiproibicionista, abolicionista penal e anticapitalista. Esse espaço se propõe a receber relatos de pessoas que têm ou já tiveram alguma experiência com a loucura: 1) pessoas da classe trabalhadora (dos segmentos de pessoas usuárias, familiares, trabalhadoras, gestoras, estudantes, residentes, defensoras públicas, pesquisadoras) que já viveram a experiência da loucura, do sofrimento psicossocial, já foram atendidas ou deixaram de ser atendidas e/ou trabalham ou trabalharam em algum dispositivo de saúde e/ou assistência do SUS, de entidades privadas ou do terceiro setor; 2) pessoas egressas do sistema prisional; 3) pessoas sobreviventes de manicômios, como comunidades terapêuticas e hospitais psiquiátricos, e outras instituições asilares; 4) pessoas do controle social; 5) pessoas da sociedade civil organizada, movimentos sociais Antimanicomiais, Antiproibicionistas, Abolicionistas Penais, Antirracistas, AntiLGBTFóbicos, Anticapitalistas e Feministas. Temos como princípio o fim de tudo que aprisiona e tutela e lutamos por uma sociedade sem manicômios, sem comunidades terapêuticas e sem prisões!

COLUNISTAS

Monica Vasconcellos Cruvinel – Mulher, latinoamericana, feminista, escrivinhadora, mãe, usuária da RAPS, militante da Resistência-Campinas, da Luta Antimanicomial pela Coletiva Livre Nacional de Mulheres e Saúde Mental Antimanicomial (CLNMSMA) e Conselheira Municipal de Saúde;

Laura Fusaro Camey – Militante da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (RENILA);

Andréa Santos Miron – Mulher, feminista, apaixonada pelo Sistema Único de Saúde, por fazer trilhas e astronôma amadora; Assistente Social de formação pela Universidade Federal de São Paulo, pós-graduada em Saúde Pública, Saúde Mental e Psiquiatria; Militante pela Resistência / Psol – Mauá/SP, pela Coletiva Livre Nacional de Mulheres e Saúde Mental Antimanicomial, pelo Fórum Paulista da Luta da Luta Antimanicomial e Movimento Nacional da Luta Antimanicomial.

Se você quer compartilhar o seu relato conosco, escreva para [email protected]. O relato pode ser anônimo.

Por Usuária de CAPS

Bom,  como começar esse texto? É que eu queria dar meu relato como usuária de CAPS já de há quase uma década, psicótica de nascença. E eu queria vir aqui em defesa dos meus coleguinhas de psicose, esquizofrenia, porque eu acho que existe um grande desentendimento em relação à nossa turma. 

Vejam bem, o que a psiquiatria chama de “psicose” pode ser experimentada por todas as pessoas, o famoso “de louco todo mundo tem um pouco”. Quando os neuróticos vivem a psicose (às vezes, mesmo os psicóticos) dizem que perderam o contato com a realidade, ou que ficaram sem crítica. Quem sou eu para duvidar de vocês? Eu não tô nos seus corpos. 

Mas é por isso mesmo que eu queria esclarecer a covardia que nos acontece. Vejam, vocês descrevem o que, supostamente, nós sentimos pros outros e ignoram o que nós temos a dizer sobre nós mesmos. Entenda: não tem quantidade no mundo de antipsicóticos que vai fazer nós esquizofrênicos pararmos de acreditar em Deus, alienígenas, entidades ou seja lá no que acreditamos. A psicose para o psicótico é seu jeito de ser, é sua condição de existência e sobrevivência. Não me esqueço de um amigo que me disse que o que evitou que ele se suicidase foi a voz de Deus que ele ouviu nitidamente em seu corpo. Eu que não compartilho da mesma religião dele, claro que não entendo. Também não cobro que as pessoas entendam o porquê eu me furo, toda a semana, para oferecer meu sangue para entidades superiores. O que quero dizer é: e se ele não tivesse ouvido Deus, o que seria dele? E eu se não pudesse oferecer meu sangue, continuaria a ser consumida por uma grande inquietação. É que pro psicótico a psicose não é erro, é saída. É o único jeito de ver e interpretar o mundo.

Não é tão difícil assim, meus leitores “normais” pra vocês entenderem o que quero dizer. É que pensa bem: eu escuto, vejo, sinto coisas que você não escuta, não, não vê e não sente. É claro que eu não interpreto a realidade da mesma forma que você. Trabalhamos com informações diferentes em corpos e mentes singulares. As aves enxergam a luz UV, nem por isso alguém diz que as aves ou os humanos enxergam errado. Não precisamos disputar uma realidade única, podemos conviver com a diferença, essa é a aposta da luta antimanicomial. 

Eu sou muito grata de ter sido cuidada pelo CAPS, nunca sofri num manicômio. No CAPS que eu tratei, eu pude viver minha loucura e viver meu sofrimento mental. Eu tive tempo e espaço para viver minha realidade do jeito que ela é. Eu não preciso de corretivo, preciso aprender a viver no mundo no qual existo. E no mundo em que eu existo têm vozes e seres que parece que só eu percebo. Eu tenho, sim, muita crítica de que outras pessoas não percebem o que eu percebo. Mas, e daí? Não muda em nada a minha situação.

Mesmo quando eu fico muito confusa, por exemplo, quando eu passei debaixo de um túnel e achei que alguém tinha comido o Sol, eu não entendo isso como um distanciamento da realidade. Pelo contrário, era a vivência radical de um sofrimento tão grande que não fazia sentido. Alguns momentos eu percebo que as palavras “drobam” (neologismo) ou caem, nesses momentos, falar “coisa com coisa” é a mesma coisa que falar “nada com nada”. É que as palavras e os pensamentos têm efeitos mágicos sobre mim e, por isso mesmo, às vezes, devem ser enganados. Como digo no CAPS sobre o que tenho: “doideira pura e condensada, doutor, doidera total”.

O cuidado de saúde mental que recebi me fez perceber que eu sou professora de mim. Sou eu que vou me ensinar a viver e sobreviver no mundo que eu vivo. Sou eu que vou achar saídas para meus abismos. E quem não tem seus abismos? É que as pessoas precisam entender que a psicose pros psicóticos é como a vida: tem coisa ruim, mas tem coisa boa. Tem vales, montanhas e precipícios. Eu e meus colegas de turma estamos em busca, não de razão, nem de sentido, mas de amizades verdadeiras. Gente que gosta e quer estar conosco, nós sendo nós mesmos. Queremos socializar nossas loucuras, na felicidade e na tristeza, na saúde e na doença.

Me recuso a tomar meus remédios antes de receber abraço, afeto e conversa. É preciso entender que a maldade do mundo e da injustiça não pode entrar no corpo via ingestão, faz mal pro estomago e pro intestino. É preciso expurgar a maldade antes de tomar o remédio, mesmo quando a pessoa tá muito agitada. Ela tá agitada porque a injustiça e a violência fazem o sangue borbulhar. O corpo mexe ou para na proporção da velocidade que o coração não mais dá conta de bater. Se ela tomar assim o remédio sem nenhum aconchego, aí como vai dá pra digerir esses B.O.?

Esse mundo manicomial tem que mudar. Não podemos ser abandonados nesse mundão, nem largados para sofrer sozinhos, nem disciplinados e medicados para ficarmos calados. Como digo no CAPS: “Falar que a voz ruim tá na minha cabeça é maldade pura e condensada, doutor, maldade total”.

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caps / psiquiatria