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Relato 23: “18 de Maio, dia Nacional da Luta Antimanicomial: Do rio ao mar, somos os povos que navegam em confluência contra genocídios para a justiça triunfar.”

Que Loucura!

Coluna antimanicomial, antiproibicionista, abolicionista penal e anticapitalista. Esse espaço se propõe a receber relatos de pessoas que têm ou já tiveram alguma experiência com a loucura: 1) pessoas da classe trabalhadora (dos segmentos de pessoas usuárias, familiares, trabalhadoras, gestoras, estudantes, residentes, defensoras públicas, pesquisadoras) que já viveram a experiência da loucura, do sofrimento psicossocial, já foram atendidas ou deixaram de ser atendidas e/ou trabalham ou trabalharam em algum dispositivo de saúde e/ou assistência do SUS, de entidades privadas ou do terceiro setor; 2) pessoas egressas do sistema prisional; 3) pessoas sobreviventes de manicômios, como comunidades terapêuticas e hospitais psiquiátricos, e outras instituições asilares; 4) pessoas do controle social; 5) pessoas da sociedade civil organizada, movimentos sociais Antimanicomiais, Antiproibicionistas, Abolicionistas Penais, Antirracistas, AntiLGBTFóbicos, Anticapitalistas e Feministas. Temos como princípio o fim de tudo que aprisiona e tutela e lutamos por uma sociedade sem manicômios, sem comunidades terapêuticas e sem prisões!

COLUNISTAS

Monica Vasconcellos Cruvinel – Mulher, latinoamericana, feminista, escrivinhadora, mãe, usuária da RAPS, militante da Resistência-Campinas, da Luta Antimanicomial pela Coletiva Livre Nacional de Mulheres e Saúde Mental Antimanicomial (CLNMSMA) e Conselheira Municipal de Saúde;

Laura Fusaro Camey – Militante da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (RENILA);

Andréa Santos Miron – Mulher, feminista, apaixonada pelo Sistema Único de Saúde, por fazer trilhas e astronôma amadora; Assistente Social de formação pela Universidade Federal de São Paulo, pós-graduada em Saúde Pública, Saúde Mental e Psiquiatria; Militante pela Resistência / Psol – Mauá/SP, pela Coletiva Livre Nacional de Mulheres e Saúde Mental Antimanicomial, pelo Fórum Paulista da Luta da Luta Antimanicomial e Movimento Nacional da Luta Antimanicomial.

Se você quer compartilhar o seu relato conosco, escreva para [email protected]. O relato pode ser anônimo.

Eliana é trabalhadora da Rede de Atenção Psicossocial de Belo Horizonte e Ribeirão das Neves militante da luta antimanicomial pelo Fórum Mineiro de Saúde Mental, núcleo da RENILA (Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial)

O 18 de Maio para nós é uma data muito importante, uma data em que nós celebramos e levamos para as ruas nosso desejo de uma sociedade sem manicômios! O manicômio não é só aquilo que é estruturante, o hospital psiquiátrico, as comunidades terapêuticas (os novos manicômios), mas também os manicômios internos. Podemos nos dizer antimanicomiais, mas ter atitudes manicomiais. Todo o lugar que exclui e que segrega, também é para nós um manicômio. Defendemos uma sociedade que acolha a diferença, afinal, qual inclusão é possível numa sociedade racista, machista, homofóbica, feminicida? 

O Brasil comemora o 18 de maio de várias formas, em Minas nós fazemos um desfile nas avenidas no centro de Belo Horizonte. É um desfile político-cultural. Político porque traz um tema como reflexão, para uma discussão e cultural porque traz música, poesia, cores, cultura, beleza. Reflete a nossa luta com delicadeza. Então, a gente leva para avenida denúncias e discussões graves, complexas e importantes, mas com leveza.

Nesse ano discutimos como está o mundo, pois sonhamos alto! Discutimos como estamos matando nossos povos indígenas, nossas mulheres, nossos jovens e crianças nos aglomerados e fizemos essa ligação com os genocídios que acontecem ao redor do globo, principalmente o genocídio contra o povo palestino. Também discutimos a hipermedicalização e outras formas de apagamento ou extermínio de subjetividades e a destruição do meio ambiente que está acabando com nossas possibilidades de futuro. Esse ano, completamos também 30 anos de Fórum Mineiro de Saúde Mental e da ASUSSAM- MG (Associação dos Usuários da Rede de Saúde Mental de Minas Gerais) e o centenário de Franco Basaglia, o pioneiro na desinstitucionalização da loucura que corajosamente anuncia que não é possível tratar trancando e nos ensina a colocar o saber entre parênteses para fazer o sujeito surgir. 

Todo ano em janeiro, iniciamos reuniões ampliadas com usuários, trabalhadores e familiares para conversar de todos esses assuntos e mais. A partir desse diálogo que construímos um tema. Este ano foi: “Do rio ao mar, somos os povos que navegam em confluência contra genocídios para a justiça triunfar.” Cada palavra dentro desse título foi extensamente debatida. Do conjunto da discussão escrevemos uma ementa que dá o tom político de todo o evento. Nossos desfiles também são divididos em alas como de uma escola de samba, sem necessidade de copiar o formato das grandes escolas, mas utilizando sua estrutura. Unimos sob a Escola de Samba Liberdade ainda que Tan Tan. Essas alas são também fruto da construção coletiva, esse ano tivemos 5.

A primeira ala é “A liberdade é terapêutica sim já dizia Basaglia!”, em que contamos a história da nossa luta. A segunda é “Nem tudo que está junto se mistura, soprar paz, delirar confluências, marear águas vivas”, foi a ala da loucura, trazendo a necessidade de se delirar na vida. O delírio é uma forma de se arranjar, de estar e não algo para ser temido e corrigido, mas de estar junto dos ditos “normais”. A terceira ala foi “Um menino nasceu, um mundo tornou a começar” onde trazemos pautas ligadas à infância e a adolescência, de como matamos nosso futuro no presente em suas mortes, mas também de como cada criança, cada adolescente, traz novas possibilidades, novos caminhos, são novas fontes de água que precisam ser cuidadas e nos trazem esperança. A quarta foi “Da liberdade ao direito, a democracia é antimanicomial, antiproibicionista, antiprisional e antirracista” onde falamos do proibicionismo, denunciamos que o proibido não é a droga, mas a vida das pessoas pretas e periféricas sob o pretexto de uma guerra às drogas. A última ala foi “Somos como as águas que correm entre as pedras, liberdade e luta caçam jeito para desembocar no rio e no mar”, onde anunciamos que é somente pelo movimento social que hoje nós nos fazemos presentes. 

Nosso samba é escolhido num concurso. Abrimos para pessoas e serviços da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) inscreverem seus sambas e apresentá-lo durante evento tradicionalmente realizado em um parque, neste ano, como em outros vários, ocorreu no Parque Municipal Lagoa do Nado. Os sambas são julgados pela sua musicalidade e capacidade de trazer as discussões em sua letra. Esse ano os ganhadores foram a RAPS de Guanhães, município do Vale do Rio Doce, nomeado “A pururuca vai estourar, a pororoca vai chegar”. Como diz a letra “Nossa luta, nosso ofício! Nem hospícios, nem genocídios!”

Nossa luta é forte e vence barreiras, encara desafios sem perder a radicalidade, nem a delicadeza. É tecida com amor pela diversidade, liberdade e pelos sujeitos atravessados pela loucura e pelo uso de drogas. Nosso 18 diz da nossa história e do que estamos vivendo, mas também é construção de desejo do que queremos, pelo qual não desistiremos jamais.