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1917: o mundo vai mudar de face num país inesperado

Não sou historiador profissional nem amador esclarecido, mas militante de esquerda que, como é o caso para muitos, amadurece suas opiniões com leituras, discussões, reflexões pessoais ou coletivas. O desenvolvimento político dos últimos anos, nacional e internacional, tomou caminhos desastrosos. Após mais de meio século de domínio burocrático do  movimento comunista e do país que deveria representá-lo, ocorreu o retorno, junto aos países que influenciava, a um capitalismo alucinado e desregrado, na mais pura tradição liberal, em alguns traços lembrando o banditismo dos anos 1920 em Chicago! Dois livros clássicos podem ilustrar este passo no vazio: O “Discurso sobre a Servidão Voluntária“, de Etienne de la Boétie e o inacreditável ‘Que faire des Pauvres“, do eminente liberal John Locke. A servidão voluntária, material e psicológica, a segunda facilitando e promovendo a primeira, surge com o bizarro encanto de parte das massas pobres com as extravagâncias e posicionamentos anti-democráticos e anti-intelectuais – irracionais –  como no caso do bolsonarismo. O segundo, que indaga  “O que fazer com os pobres”, constitui uma ilustração limitada e já horrenda no que se passa na cabeça de um clássico liberal britânico e no terreno da Palestina, sinistro presságio do que parecem desejar as classes dominantes num plano internacional. Eis o capitalismo progressista. As revoluções passadas, de que trato neste texto, mostram que, dadas condições hoje ausentes e que cumpre obter, um outro futuro é possível.

A Revolução dita de 25 de Outubro, no calendário juliano em vigor na Rússia pré-revolucionária, ocorreu em 7 de Novembro de 1917, segundo o calendário atual, dito gregoriano. Foi muito mais do que um levante, como ocorreram inúmeras vezes na história, levando à troca dos governantes e a alterações sócio-econômicas eventualmente importantes, mas que não alteravam o regime de propriedade e de bloco de classes no poder. Em 25 de Outubro de 1917 o mundo mudou de face. Surgia algo novo, a promessa da futura sociedade socialista, em que a propriedade privada dos meios de produção seria substituída pela propriedade coletiva, com o desaparecimento das classes sociais – a estrutura social vigente por mais de cinco mil anos, sob formas de escravidão, feudalismo, capitalismo e suas combinações e variantes, mas sempre caracterizadas pela subordinação social ligada à distribuição desigual da propriedade, base material da sociedade de classes.

A morte de Lenin em 1924 e a expulsão de Trotski do Partido bolchevique em 1927, marcam o começo de um processo tenebroso de contra-revolução, que levou a inúmeras derrotas do movimento revolucionário, até a formalização do retorno da então União Soviética ao capitalismo, em 1989, formalizado por um curto discurso do Primeiro Ministro de então, Gorbatchev. Há bons livros de história a respeito e não pretendo repeti-los ou completá-los. Escolhi abordar um espaço temporal ou um evento determinado e explorar as hipóteses e opiniões a respeito, procurando destacar acontecimentos que evocam de alguma forma, a situação brasileira atual ou próxima. Também utilizarei, se oportuno, a clássica comparação entre as duas grandes revoluções, a francesa de 1789 e a russa, de 1917. A tomada do poder e as primeiras medidas dos novos governantes não serão tratadas aqui, mas me concentrarei nos desenvolvimentos políticos preparatórios e que se deram entre Março e Outubro de 1917. Pretendo estudar separadamente os eventos posteriores, notadamente o papel da guerra e da capitulação germânica em 1919 e colocar assim a Revolução de Outubro no contexto internacional que se seguiu.

Não se trata também de seguir um caminho de estrito determinismo, em que o que ocorreu no passado deva obrigatoriamente se repetir. Destaco as eventuais semelhanças entre os eventos políticos ocorridos e/ou a relação de forças entre as classes em disputa, com futuros desenvolvimentos iguais até um certo ponto e diversos a médio e longo prazo. Começo com as “Teses de Abril” de Lenin, escritas algumas semanas após a Revolução de Fevereiro, que levou uma representação burguesa a substituir, com vacilações, a autocracia feudal tsarista. Outros pontos nevrálgicos seguirão.

1917: o mundo vai mudar de face num país inesperado – parte 4

por Bernardo Boris Vargaftig, de São Paulo (SP)

A repressão comandada por Kornilov se dissolve. Frente Ampla?

Os saques das casas dos ricos por camponeses e desertores e as deserções se multiplicavam.  Como diz Miéville, “Abril terminou com um governo sem leme, sem um ministro da Guerra e com socialistas em um Soviet empenhado em fazer a revolução burguesa dar certo. Foi com a guerra como argumento que as preocupações dos revolucionários defensivos e dos imperialistas se fundiram nas previsões de Kerenski sobre o colapso iminente da Rússia“.

Em 29 de abril, o governo provisório introduziu o cartão de abastecimento. Os camponeses que possuiam excedentes de trigo recusavam vendê-lo ao preço fixado, exigindo seu aumento. “Os Soviets devem recensear os bens existentes e assegurar um controle de sua repartição, para organizar a troca de trigo por instrumentos, sapatos e roupas, única maneira de evitar que dezenas de milhares de pessoas fiquem desprovidas“, escreveu Lenin em 16 de maio no Pravda. A degradação geral do abastecimento levou o governo provisório a tomar medidas enérgicas, mas na prática sem energia, por um aparelho de estado herdado do czarismo que lhes resiste. Frente à ameaça de uma recolta fracassada pela carência de mão de obra mobilizada nas frentes e na retaguarda e pela fome, o governo decidiu utilizar os soldados na colheita e na semeia. Agravava assim as convulsões que sacudiam a Rússia, ao se negar a dar a terra aos camponeses, transferindo a decisão a uma Assembleia constituinte de data indeterminada e prosseguindo a guerra, aumentando o abismo entre a realidade quotidiana e o que a população esperava de uma governo com ministros socialistas. 

Em 1 de Maio, o Comitê Executivo do Soviet decidiu-se pela coalizão com o governo provisório, mas o Soviet determinou condições: o fim da guerra, sem anexações, a democratização do Exército, um controle sobre as indústrias, a proteção ao trabalhador, o imposto sobre a riqueza, a redistribuição de terras, e a eterna convocação da Constituinte. Trotski condenou a entrada no governo, dizendo que o poder dual deveria ser substituído pelo poder único dos trabalhadores e soldados, através dos Soviets. Este posicionamento levou Lenin a oferecer à organização de Trotski um assento no Pravda, que Trotski não aceitou, sugerindo uma fusão entre os bolcheviques e sua pequena organização distrital. Lenin recusou, a disparidade era manifesta. Não havia pressa…

No primeiro congresso dos Soviets camponeses em 3 de junho, os bolcheviques constataram o quanto sua influência no campo era reduzida: Lenin teve 20 votos na eleição para o Comitê Executivo, Tchernov, o principal dirigente dos S-R teve 810 e Kerenski, 804. O Congresso foi favorável ao governo provisório; dentre 822 delegados (777 presentes), representando mais de 20 milhões de soldados, camponeses e operários, havia 105 bolcheviques, face a uma maioria dominante de S-R e mencheviques. Apesar disso, no dia 4, o menchevique e ministro do governo provisório Tseretelli, afirmava: «No momento atual, não há um só partido que diga: «De-nos o poder, partam, ocuparemos seu lugar». Na sala silenciosa, ergue-se a voz de Lenin: «Esse partido existe!». O seu, que está pronto, diz ele «a qualquer momento a tomar o poder em sua mãos». Após um momento de espanto, parte dos presentes cede ao riso, a que responde: «Riam o quanto quiserem». Na tribuna, Lenin denuncia a continuação da guerra; as reformas sempre prometidas não podem ser efetuadas, pois a guerra «tudo esmaga e precede». Ele repete «Nosso Partido está pronto a assumir a plenitude do poder, papel de qualquer partido“. Lenin define a alternativa: é preciso responder à sabotagem dos capitalistas, prendendo cinquenta a cem milionários. A passagem do poder exclusivo aos Soviets é necessária e possível, pois nenhuma força poderá a eles se opor. A título de exceção, a revolução pacífica é possível hoje na Rússia e se ela propuser a paz a todos os povos em guerra, esses povos esgotados responderão sim.

Kerenski caçoa de sua proposta, pois o capitalismo é internacional e a prisão de alguns capitalistas num determinado país não altera suas leis. Sem uma revolução internacional, que Kerenski não quer, é preciso prosseguir numa guerra que obedece a esta lei rigorosa que Lenin, nem ele, se propõe quebrar. Kerenski ri, mas em suas memórias nota: «O segredo  do sucesso da propaganda bolchevique entre os operários e soldados provinha do que os bolcheviques a eles se endereçaram numa linguagem simples, que lhes era compreensível e se apoiavam em seu instinto de autoconservação»

Lenin repetirá sempre três ideias: a nacionalização dos grandes aglomerados e dos bancos, fundidos num banco de Estado, a expropriação das grandes propriedades fundiárias e a nacionalização da terra, o controle operário nas empresas. No plano político, um só ponto: “Todo poder aos Soviets! Os ministros socialistas devem romper sua colaboração com os ministros burgueses!

No dia 8, os bolcheviques apelam para uma manifestação no dia 10, com as palavras de ordem «Abaixo a Duma tsarista! Abaixo os dez ministros capitalistas!  Todo poder ao Soviet pan-russo dos operários, soldados e camponeses! E o fim da guerra, pois pedem ao Soviet que formule as condições de uma paz justa. A maioria do congresso vê nesse apelo um atentado à sua soberania, proíbe a manifestação de 10 de junho e apela a se manifestar no dia 18. Lenin anula imediatamente o apelo para o dia 10 e decide concentrar as forças na manifestação do dia 18.

Kerenski escreverá no New York Times de 22 de maio de 1927: «Logo nas primeiras semanas da revolução de Março (portanto antes da chegada de Lenin, acusado de tê-la desmoralizado a mando do estado-maior alemão!) o exército russo havia deixado de existir como força de combate, mas ele o envia ao massacre e em 16 de junho ordena para o dia 18 a ofensiva geral em todas frentes. A ofensiva obtém inicialmente algum sucesso, mas os reforços alemães a transformam em desastre, com mais de 70.000 mortos. 

No dia 18, a maioria dos manifestantes em Petrogrado desfila com bandeiras que proclamam «Todo poder aos Soviets!», «Abaixo os conciliadores!», «Paz às choupanas, guerra aos palácios!», «Abaixo a guerra!» , «Abaixo os ministros capitalistas!», «Toda terra aos camponeses!», «Nacionalização do capital!», « Viva a revolução proletária universal!». Essa manifestação anuncia a explosão que a Organização militar bolchevique encoraja, mas que Lenin considera prematura, mesmo se afirma: «O momento das manifestações pacíficas terminou em 20 de junho! «Devemos permanecer particularmente atentos e prudentes para não cedermos à provocação (…). A tática atentista é hoje a melhor. O tempo trabalha para nós». Conscientes de que a província e Moscou seguem Petrogrado de longe, os bolcheviques procuram então frear um protesto que, caso se repita, pode conduzir ao cansaço e ao impasse, quando a impaciência de uma porção crescente dos operários e soldados reforçar as fileiras dos anarquistas. 

Quantos serão nesse momento os membros do partido bolchevique? Os números são incertos: até o final de 1917, funcionam na província comitês de base comuns bolcheviques-mencheviques, cujos membros são contabilizados pelos dois partidos. O Comitê Central dirige o partido em Petrogrado e Moscou, mas controla mal o resto do país. Tem um secretário de fato, Jacob Sverdlov, apoiado por uma assistente. mas nem secretariado nem aparelho. O partido bolchevique passou de 5.000 membros no final de fevereiro a mais de 20.000 em meados de abril, e mais de 200.000 em outubro. Os S-R têm quase um milhão de aderentes em junho-julho e, os mencheviques uns 200.000. O partido bolchevique é provido de um enquadramento reduzido de algumas centenas de quadros concentrados nas duas capitais e nas grandes cidades. É um partido pouco disciplinado. Assim, embora o Pravda seja impresso em Petrogrado, o comitê bolchevique da capital decide publicar seu próprio jornal. Em nome do Comitê Central, Lenin lhes explica que tal decisão só pode provocar uma divisão política. Sua moção é derrotada por 16 vozes contra 12. Estamos longe da imagem fabricada sob Stalin, de um Lenin adulado e todo poderoso. 

Em fins de junho, Lenin parte se repousar na Finlândia. Durante sua breve ausência, os acontecimentos se precipitam. A cólera cresce em Petrogrado, amplificada pela agitação bolchevique e o equilíbrio instável das últimas semanas explode. Na noite de 2 a 3 de julho os quatro ministros cadetes demissionam. Os dirigentes S-R e mencheviques reafirmam que a coalizão deve continuar. Na manhã de 3 de julho, o primeiro regimento de metralhadoras convoca uma manifestação contra o governo provisório. Dois delegados do regimento se precipitam à conferência bolchevique de Petrogrado, pedindo-lhe que organize a manifestação. Tomar o poder em Petrogrado não seria difícil, mas Petrogrado ficaria isolada. Os bolcheviques estão obcecados pela exemplo da Comuna de Paris, esmagada porque isolada da província. Agitadores bolcheviques descem às usinas pedindo aos operários e soldados que não se mobilizem. São muitas vezes vaiados, e em alguns lugares os militantes rasgam seus crachás do partido, aderindo aos anarquistas.

Às 17 horas, o primeiro regimento de metralhadoras desce às ruas, com metralhadoras armadas nos caminhões; colunas de operários descem de Vyborg, bairro do norte de Petrogrado. Os bolcheviques decidem se colocar à frente da manifestação, que se dirige ao Palácio de Tauride onde está instalado o Comitê Executivo do Soviet. Uma delegação exige “Todo poder aos Soviets”, exigência que os bolcheviques e Trotski, muito aplaudidos, sustentam. Os dirigentes bolcheviques deliberam durante toda a noite. Na manhã seguinte, um imenso espaço branco substitui o editorial do Pravda: o apelo inicialmente previsto para uma nova manifestação foi retirado mas não substituído. Os bolcheviques assumem a responsabilidade da onda de protestos anunciada, mas não querem chamar publicamente a uma ação prematura.

No dia 4 de julho milhares de marinheiros de Cronstadt desembarcam em Petrogrado, armas nas mãos, param diante do Palácio Ksechinskaia onde Lenin explica que seu estado de saúde o impede de discursar e afirma que o slogan “Todo poder aos Soviets!» acabará por se impor, o que exige dos manifestantes uma enorme firmeza, controle e vigilância. Ele havia confiado pela manhã a Trotski e a Zinoviev: «É impossível tomar o poder agora, porque todos soldados da frente não foram ainda ganhos por nós e o soldado da frente, enganado pelo Lieber-Dan (dois dirigentes mencheviques) virá a Petrogrado matar os trabalhadores da cidade».

Os marinheiros sobem em direção ao Palácio Tauride. O S-R Tchernov vem ao seu encontro. Um marinheiro o desafia: «Toma o poder, seu filho de uma cadela, quando ele te é dado!». Alguns marinheiros muito excitados querem levá-lo e Trotski os acalma. Os marinheiros se afastam, indecisos e grupos de operários chegam de todo parte para exigirem incansavelmente dos dirigentes do Comitê Executivo o poder aos Soviets. Uns 30.000 operários de Putilov cercam o Palácio de Tauride. Os dirigentes hesitam. Sob chuva, os manifestantes aguardam e, não sabem o que fazer. A confusão está em seu máximo. No dia seguinte, a ordem estará restabelecida.

Teriam os bolcheviques estimulado os soldados a se levantarem para tomar o poder e logo procurado fugir de uma tentativa frustrada? Em 9 de janeiro de 1919 Karl Radek lembrará aos dirigentes do jovem partido comunista alemão: «Em julho 1917 (…) com todas nossas forças, nós tentamos reter as massas e, como não o conseguimos, nós as conduzimos, com esforços incríveis, em direção à retirada, longe de uma batalha desesperada». 

Na madrugada de 5 de julho, um destacamento de alunos oficiais (os chamados junkers) saqueia o Palais Ksechinskaia, expulsa os bolcheviques e em seguida saqueia a sede do Pravda, que Lenin havia deixado meia hora antes, o que lhe salva a vida. Um outro destacamento revista seu apartamento. Desapontados por não encontrá-lo, os junkers embarcam Krupskaia, Elizarov (marido de Anna) que é vagamente parecido com Lenin e a empregada doméstica, que não sabe dar o nome de seu patrão. Os três são rapidamente liberados. O governo proibe o Pravda e emite ordem de prisão contra Zinoviev e Lenin, acusados pelo antigo bolchevique Alexinski de serem «agentes alemães». Lenin declara a Trotski: «Agora nos fuzilarão. É o bom momento para eles.»   

No dia 6, Lenin se refugia com Zinoviev na casa de um velho militante. Deverão eles se entregar à justiça? Lenin exige garantias, que os dirigentes do Soviet afirmam serem incapazes de fornecer. O comitê executivo dos Soviets de operários e camponeses designa uma comissão de inquérito sobre as acusações aos dirigentes bolcheviques. Ao meio dia, Stalin pede por carta a dois dirigentes S-R que fixem uma hora para o interrogatório de Lenin, Zinoviev e Kamenev, esse último sendo acusado de ser um agente da Okhrana, a polícia política czarista. Na manhã do dia 7, a Duma municipal informa Kamenev do local fixado, mas a comissão não comparece! Lenin tira a lição deste estranho episódio. Num curto texto sobre a razão de sua recusa em se apresentar ao tribunal, afirma que a Rússia, se encontrando num regime de ditadura militar, sua convocação constitui um ato de guerra civil e não um episódio judicial. A ditadura militar não se estabelecerá, mas a prudência de Lenin era justificada: o oficial encarregado de interpelá-lo indaga do general comandante da circunscrição de Petrogrado em que estado ele deseja receber o prisioneiro. Este responde: os prisioneiros procuram com frequência se evadir…

O governo provisório utiliza este intervalo para tomar algumas medidas: assim, no dia 30 de maio, envia brigadas de estudantes ao interior. No dia 21 de julho, o quartel general destaca 135.000 soldados para participarem dos trabalhos do campo; do final de agosto ao final de outubro a semeadura ocupará 700.000 soldados! Um decreto de 7 de julho ameaça confiscar os moinhos cujos proprietários recusam moer o trigo ao preço fixado pelo Estado; em 20 de julho o governo estende a requisição da carne de 35 a 47 províncias e em 26 de julho autoriza a requisição provisória do material agrícola inutilizado. No mesmo mês, toda produção de têxteis não requisitada para o exército é disponibilizada para o ministério, para ser repartida nas províncias, sob forma de cotas. As medidas que mais tarde basearão  a política de abastecimento imposta por Lenin são assim definidas pelo governo provisório, mas este nada faz para vencer a sabotagem passiva do aparelho de estado e a resistência dos empresários e dos camponeses ricos. Os bolcheviques e Lenin em primeiro, saberão impor essas medidas.

Em 9 de julho, Lenin e Zinoviev raspam suas barbas e cabelos e, com Serge Alliluiev e Stalin, tomam o trem para o lago de Razliv, no golfo de Finlândia. Instalam-se no sótão da casa do bolchevique Emelianov, cujos filhos trazem os jornais a Lenin, que redige rapidamente teses sobre a situação política, que são discutidas no Comitê Central ampliado de 13 e 14 de julho. Lenin encarrega Stalin de apresentar sua posição na conferência de Petrogrado, que retoma em 16 de julho seus trabalhos e em seguida no VI Congresso do Partido, reunido de 26 a 31 de julho, que aprova a orientação para a insurreição numa distante perspectiva. No sótão o calor logo se torna insuportável; alguns dias mais tarde, Emelianov instala os dois homens disfarçados em camponeses numa das cabanas de ramos onde permanecem até 8 de agosto. Num simulacro,  de vez em quando, ceifam mesmo. 

A contra-revolução se desencadeia por um momento. Em 19 de julho, algumas dezenas de membros da moribunda Duma se reúnem para determinar e publicar uma lista de nomes originais – em sua maioria judeus – de uns trinta dirigentes mencheviques, S-R e bolcheviques do Soviet de Petrogrado, que nomeiam por escárnio «Soviet dos camarões e dos cães» (são em russo as mesmas iniciais que Soviet dos deputados e soldados). Mas a roda gira depressa. O monarquista Gautier nota em seu diário em 8 de julho: «Os bolcheviques são o verdadeiro símbolo do povo». E acrescenta «Termina a Rússia. Os exércitos cessaram de ser exércitos.»  Na realidade, as jornadas de julho somente ofereceram uma prorrogação a um regime moribundo.

A crise econômica e social se amplifica e se acelera. O desemprego galopa. Em julho e agosto, 336 empresas cerram suas portas, 90.000 operários são despedidos em Petrogrado, 200 poços de mina são fechados no Donbass, a metade das empresas do Ural está em dificuldades. Os camponeses começam a tomar as terras dos proprietários, os matando às vezes e frequentemente queimando as casas e suas dependências e quebrando o material.

Primeiro tumulto da guerra civil que se aproxima, uma imensa revolta surge como uma avalanche. O general monarquista Denikin explica, desabusado: « Os longos demais anos de opressão e de miséria que haviam pesado sobre os camponeses e sobretudo a terrível escuridão moral na qual o poder e as classes dirigentes haviam mantido a população rural, nada fazendo para instruí-la, tudo isso deveria fatalmente levar ao castigo histórico ». E o campo não quer a guerra, que « tira-lhe e estropia seus trabalhadores », insiste Denikin, que apresenta a tomada das terras pelos camponeses como o desencadeamento de uma força elementar. Bem informado e claro, o general!

O gênio político de Lenin é de se ter apoiado nesta força elementar para derrubar a antiga ordem mantida pelo governo provisório e terminado a guerra, que o campesinato não mais queria. Esta guerra custou ao país 4 bilhões em 1914, 11 bilhões em 1915, 18 bilhões em 1916, a dívida é de 60 bilhões de rublos, dos quais 16 bilhões correspondem à dívida externa. O peso dessa dívida exorbitante desequilibra uma economia destroçada. O exército tem 9.5 milhões de soldados, desmoralizados em sua maioria, mas só dispõe de reservas para 7 milhões, no melhor dos casos. Em agosto, o governo não coleta senão 28%, em setembro 26 % e um pouco mais de 40% do abastecimento necessário à população. A Rússia conta então com dois milhões de desertores que deambulam.

Em 3 de agosto, o dirigente patronal Riabuchinski anuncia a próxima chegada do momento em que «a mão da morte e da miséria popular pegará pela garganta «os amigos do povo, os membros dos diversos comitês e Soviets» e acrescenta «nosso poder somente será um verdadeiro poder quando pensar e agir burguesmente ». 

O refluxo de julho pareceu trazer um certo equilíbrio entre as classes antagônicas; sobre esse equilíbrio precário e aparente se eleva Kerenski. Entretanto, o fracasso da Galícia e os massacres camponeses polarizam as forças em seus dois extremos. Em 24 de julho, Kerenski forma o segundo governo provisório de coalizão, que concentra enormes poderes formais. A massa de elogios que lhe são endereçados provindos da direita e da esquerda fornece uma base puramente verbal a seu ascenso vertiginoso e precário. Ele tenta substituir uma base social que foge de seus pés por uma coligação de forças políticas cada vez mais fantasmagóricas. Em 12 de agosto, Kerenski convoca uma conferência de Estado em Moscou, constituída de representantes designados em organismos diversos, supostamente representativos da unidade nacional, dos Soviets representados por cem membros à defunta Duma que tem direito a trezentos membros. 

A greve decretada pelos sindicatos de Moscou, de maioria bolchevique, paralisa a cidade no dia de sua abertura. Lenin propõe então organizar a insurreição e tomar o poder em Moscou no dia seguinte à conferência. O Comitê Central resiste. Lenin reconhecerá mais tarde: «Em agosto de 1917 propús ao Comitê Central de nosso partido uma resolução excessivamente «à esquerda» que, felizmente, foi simplesmente rejeitada». A estação da colheita terminava e Lenin não mais poderia utilizar seu disfarce de colhedor. Além disso, a temporada das chuvas tornaria impossível a vida na cabana. Decide-se enviar Lenin à Finlândia. Emelianov rouba documentos oficiais na usina onde trabalha e os faz preencher com o nome Constantin Ivanov, nome que Lenin utiliza até 24 de outubro. Na noite de 8 a 9, Lenin parte com Emelianov, Rahkia e Chotman à fronteira finlandesa. Perdem-se nos pântanos e acabam chegando a Udelnaia. Na tarde de 9 de agosto, fantasiado de motorista, com peruca e boné, Lenin sobe na locomotiva do trem para a Finlândia. 

Antes de encher de carvão a caldeira com a pá, Lenin confia a um de seus companheiros um pequeno caderno azul, dizendo-lhe: «Se eles me sangrarem, edite este caderninho sobre o marxismo e o Estado». Trata-se do Caderno azul, primeiro projeto do “Estado e a Revolução“. Ler ou reler este livro é repensar a “finalidade” da história, o sentido do Estado e o porquê da revolução, ou seja, todas questões que agitam mais uma vez o mundo contemporâneo.»

Lenin se instala inicialmente no vilarejo de Ialkala, em casa de um operário finlandês cuja filha mantém o contacto com Petrogrado. Três dias mais tarde, dois bolcheviques finlandeses levam-no à cidadezinha Liakhti a uns cem quilômetros de Helsinki e em seguida à capital finlandesa na casa do chefe social-democrata da polícia local, onde chega em 17 de agosto.

A Rússia se quebra. Em 19 de agosto, Nekrassov, ministro das finanças, anuncia à imprensa que no outono os trens cessarão de circular: «Petrogrado está condenada à fome e a outras catástrofes. Não se pode descarregar os vagãos». O menchevique Deutsch se indigna com essa declaração: «Que governo provisório é esse que tranquilamente informa a respeito de todas estas coisas e não toma imediatamente as medidas mais extremas ! Diante de nós somente há horrores

Em 20 de agosto, diante do Comitê Central do partido Kadet, Kartachev, ministro dos cultos, declara: «A situação irá à guerra armada». Kaufman, referindo-se à fome que ameaça, evoca a possibilidade de enviar destacamentos de soldados para apanhar o pão dos camponeses. Miliukov prevê levantes de fome e profetiza: «A vida levará a sociedade e a população a considerar a inevitabilidade de uma operação cirúrgica.» Ele prefere «que as inevitáveis repressões ocorram pela iniciativa e sob a direção do próprio governo socialista.», assim desacreditado. Em uma carta confidencial ao Comitê Central, ele afirma: «A salvação da Rússia consiste no retorno à monarquia (…) O povo não tem a capacidade de receber a liberdade.» Ao mesmo tempo, paralisados, esses governos não ousam governar. O S-R Tchernov escreverá mais tarde: «Nossa revolução russa se abastarda num combate para se desembaraçar do poder e jogá-lo em um ombro qualquer» e evoca as discussões sobre «o poder que está nas ruas, um poder que nada custa para ser tomado, basta se inclinar.»  Miliukov pode então concluir: “O país só pode escolher entre o general Kornilov e Lenin”.

A burguesia pensa encontrar seu salvador na pessoa do general cossaco Kornilov, limitado mas decidido. Kerenski, assustado pela crise galopante e pela sua própria impotência, negocia com ele uma frágil colaboração. Cada um desconfia do outro. Em 21 de agosto, Kornilov deixa os alemães ocuparem Riga, capital da Letônia, e vocifera contra os agitadores revolucionários, que declara serem os culpados por esse abandono. Na tarde do dia 25, acamado por uma crise de malária, ele lança contra Petrogrado a divisão selvagem caucasiana do general Krymov. Em sua proclamação, ele acusa o governo provisório de «agir sob a pressão da maioria bolchevique dos Soviets, em total acordo com os planos do Estado maior alemão».  Afirma que a única solução é instaurar uma ditadura e colocar o conjunto do país em estado de guerra e promete enforcar todos dirigentes do Soviet. Kerenski se amedronta. Todos partidos socialistas se levantam contra Kornilov, os bolcheviques mobilizam os operários contra a insurreição. Os ferroviários em greve bloqueiam as linhas, deslocam o comboio da divisão selvagem que os agitadores cercam. A conspiração se dissolve sem combate. A derrota de Kornilov desloca fortemente para a esquerda o pêndulo suspenso por um momento. 

Para Lenin, a rebelião de Kornilov marca uma virada vertiginosa dos acontecimentos, que demanda uma mudança de tática. É preciso combater Kornilov sem apoiar Kerenski, cuja «fraqueza e cujas hesitações devem ser desmascaradas», exigindo-se dele diversas decisões: prender Miliukov, armar os operários de Petrogrado, dissolver a Duma de Estado, legalizar a transmissão das terras dos grandes proprietários aos camponeses, estabelecer o controle operário sobre o trigo e as usinas (1). 

Kerenski, ao contrário, dobra em 27 de agosto o preço fixado do trigo, sem consultar o Comitê Executivo do Soviet. Este denúncia nos Izvestia do dia seguinte «esta medida funesta», mas continua a sustentar o governo. O ministro do abastecimento Pechekhonov demissiona, revoltado pela medida tomada à sua revelia. Em 28 de agosto, uma circular do Ministério do Trabalho proibi as reuniões nas empresas durante as horas de trabalho. O quartel general desloca quase 700.000 soldados para a recolta e será assim o inspirador dos exércitos do trabalho instaurados por Lenin e Trotski durante alguns meses, ao final da guerra civil. 

A aliança entre bolcheviques, S-R e mencheviques derrotou a conspiração de Kornilov «com uma facilidade sem precedente em qualquer outra revolução. Lenin propõe perpetuar esta aliança que, com a transmissão imediata de todo poder aos Soviets, «tornaria a guerra civil impossível na Rússia». A derrota do golpe abre aos olhos de Lenin uma «possibilidade histórica extremamente rara e extremamente preciosa» a apanhar imediatamente: a Rússia vive um momento histórico excepcional onde «o desenvolvimento pacifico da revolução é possível e concebível, se todo o poder for transmitido aos Soviets, em cujo seio a luta dos partidos pelo poder pode se desenvolver pacificamente se a democracia dos Soviets for total». Ele propõe assim «a formação de um governo de S-R e mencheviques responsável diante dos Soviets.» Estes dariam sem ônus toda a terra aos camponeses, proporiam uma paz justa a todos os povos, identificariam aliados no mundo e acelerariam a revolução que amadurece por toda parte. Entregar todo o poder aos Soviets é a única maneira de assegurar uma evolução gradual e pacífica dos acontecimentos. Lenin, em nada sedento de guerra civil ou de poder, procura a solução mais econômica e indolor. Nesse caso, os bolcheviques aceitariam um «compromisso», e renunciariam a exigir a passagem imediata do poder ao proletariado e aos camponeses pobres e a empregar os métodos revolucionários para fazer triunfar essa reivindicação ». Por outro lado, exigiriam «a inteira liberdade de agitação», mantendo assim sua independência.

Os S-R e os mencheviques preferem a aliança impotente com fantasmas da burguesia a um acordo com os bolcheviques. A tinta do artigo de Lenin nem havia secado e já decidem apoiar o Diretório, um organismo burocrático de tipo bonapartista, que Kerenski formara. O compromisso e a possibilidade entrevista por Lenin se esgota. A tentativa de golpe de estado de Kornilov e seu fracasso estimulam ao extremo a tensão social e política que o general monarquista Denikin define em poucas linhas: «Uma lassidão generalizada com a guerra e as desordens e a insatisfação com a situação presente (…) O exército não mais queria reconhecer nenhum «objetivo de guerra» e desejava a paz imediata a qualquer preço.» Porém o governo provisório de união democrática onde os kadets notórios são substituídos por simpatizantes notórios permanece sob a vontade dos aliados. Ele persiste em prosseguir a guerra que desagrega a economia e responde à crise de abastecimento generalizando os cartões de racionamento e os comitês de prédios, cujos responsáveis fazem fila em nome dos locatários diante de lojas vazias. Pensa consolar as massas proclamando tardiamente a República. Kerenski constitui um Diretório de cinco membros, ilusão de um governo forte para concentrar em suas mãos todas rédeas de um poder cada vez mais virtual. 

Embora não tenha ainda convencido a maioria do Comitê Central a preparar a insurreição, Lenin responde, em sua brochura “Os bolcheviques manterão o poder ?”  terminada em 1 de setembro, às objeções mais frequentes daqueles que creem ser possível tomar o poder, mas não mantê-lo. A progressão rápida dos bolcheviques nas eleições aos Soviets mostra a oposição massiva da população e das nações oprimidas ao governo dos kadets. O primeiro governo russo que despoderasse os proprietários de terras em favor dos camponeses e que liberasse as nações oprimidas  lutando por uma paz rápida e justa, obteria, diz ele, o apoio da grande maioria da população. 

Diante de um apoio maciço a essas medidas obtido por um governo soviético, os «jacobinos» do século XX não se poriam a guilhotinar os capitalistas: imitar um bom exemplo não consiste em copiá-lo. Prenderiam 50 ou 100, divulgariam suas manobras, colocariam sob controle bancos e negociantes e liberariam os presos. Diz-se que a classe operária não poderá assimilar as técnicas do aparelho de Estado? Pouco importa, diz Lenine, pois será necessário «quebrar e substituir» esta máquina pela dos Soviets, que terá que promover o recenseamento e a repartição de toda produção e fusionar os bancos num só banco de Estado, com agências em cada cantão e usina. Esta contabilidade e este controle da produção e da divisão dos produtos constituem o esqueleto da sociedade socialista.

Reduzido em seu esconderijo a ler jornais e a escrever,  Lenin prossegue na redação de sua obra inacabada O Estado e a Revolução, cuja tese central afirma: «Enquanto existir o Estado, não haverá liberdade. Quando houver liberdade, não haverá Estado». O objetivo da revolução é portanto o de destruir o Estado. Ele denuncia a democracia parlamentar como sendo um embuste, pois os «verdadeiros negócios do Estado são efetuados nos bastidores pelos gabinetes, pelas chancelarias e estados-maior» (2). Hoje ele escreveria: pelos banqueiros e financistas que ditam as leis do mercado.

Entretanto, a supressão do Estado não pode ser imediata. Será preciso instalar um novo tipo de Estado, parecido àquele da Comuna de Paris. Suas tarefas seriam bem simples, pois «recenseamento e controle, eis o essencial  para a organização e funcionamento regulares da sociedade comunista em sua primeira fase.» Ora, o capitalismo simplificou ao máximo estas duas atividades reduzidas por ele às mais mais simples operações de vigilância, registro e fornecimento dos respectivos recibos – operações ao alcance de qualquer um que saiba ler e escrever e conheça as quatro operações.»

Lenin não menciona nenhuma alteração nas relações de propriedade e de produção. Porém o recenseamento, o controle e a repartição exercidos após outubro de 1917 pelos Soviets ou pelos comitês de usina poriam em causa as próprias prerrogativas dos proprietários, ou seja a livre disposição das mercadorias que produzem. O capitalista pode admitir de seu Estado a restrição de suas prerrogativas em tempo de guerra (em contrapartida das compensações provindas das encomendas do Estado, da domesticação da mão de obra etc), mas não de um Estado hostil, cuja atividade ele sabotará para restabelecer as prerrogativas perdidas.

Lenin repete insistentemente: “Após terem conquistado o poder político, os operários liquidarão o velho aparelho burocrático, o quebrarão até suas bases, não deixarão pedra sobre pedra e o substituirão por um novo aparelho» formado por les mesmos. Para impedir aue se tornem burocratas, ele propõe três medidas: «1. eleições e revogabilidade;  2. Salário não superior ao de um operário; 3. Adoção imediata de medidas para que todos desempenhem funções de controle e vigilância e que todos se tornem «burocratas» e portanto ninguém possa tornar-se «burocrata». 

O futuro modificará muitas destas afirmações. Após a tomada do poder, os comitês de usina e os Soviets locais recensearão, controlarão e distribuirão a produção para si próprios, em detrimento dos interesses gerais, abstratos, da população trabalhadora. Já em abril 1918, Lenin constatará, desapontado: «Não possuímos a ciência da organização em escala de milhões de homens, nem a ciência da organização e da distribuição dos produtos etc». É portanto necessário se inspirar na burguesia. Em março de 1920, ele repetirá: «é preciso se pôr na escola da burguesia para aprender a administrar (…) Pensam que se pode administrar sem competência, sem profundos conhecimentos, sem ciência administrativa? (…) Para ser um excelente administrador, é preciso dominar seu assunto. » Ele conclui: «Cada operário saberá administrar o Estado? As pessoas práticas sabem que é uma fábula» e insistirá: «O burocratismo hipertrofiado existe em todo lugar (…) Quem propõe acabar com o burocratismo é um demagogo.» Estamos longe da bravata lançada no passado, quando Lenin adiantava que o socialismo estaria estabelecido quando uma cozinheira poderia dirigir o Estado…, 

A previsão de Lenin não se realizará. Devemos então qualificar seus textos como utopia ou sonho anarquista? O Estado e a revolução somente têm sentido para Lenin se a revolução vencer na Europa. Em seu prefácio, ele insiste em que a revolução russa «somente pode ser compreendida se considerada como uma das alças da corrente de revoluções proletárias socialistas provocadas pela guerra imperialista.» Além disso, Lenin não imaginava que a guerra civil que acometeria a Rússia, destruiria sua economia, multiplicaria a penúria, reduziria milhões de homens à exclusiva luta pela sobrevida, mantendo e consolidando sob um verniz soviético o aparelho burocrático. A guerra e a democracia são antinômicas. Pode-se dizer com pequeno risco de erro, que sem guerra mundial não teria havido revolução, qualquer que sejam a competência e a dedicação dos revolucionários; em algum lugar, disse Engels que a “guerra é a mãe das revoluções” e não parece ter errado muito…

Notas 

1 Eis uma situação onde a situação na Russia pré-revolucionária e no Brasil de hoje, poderia ser comparada. Durante a tentativa golpista iniciada em 8 de janeiro, formou-se na prática uma Frente Ampla, anteriormente vista pela esquerda como perigosa, senão danosa, pois inevitavelmente reforçaria a mesma burguesia que havia até o dia anterior apoiado o bolsonarismo. Uma grande diferença entre as duas situações, justificando o recurso não verbalizado à Frente dita Ampla, consistiu na fraqueza do braço esquerdo comparado ao direito e no caráter não realista de um posicionamento pseudo dominante da esquerda. Esta fraqueza resulta na realidade do histórico do que pode ser chamado a “direita da esquerda”, o aparato do PT pronto a engolir qualquer sapo, contanto que bem temperado – os Wagner, Rui Costa etc da vida…
2 Por exemplo, como noticiado em 16/03/2024, o ex-advogado-geral da União, Bruno Bianco, escalado por Bolsonaro e pelo general Heleno para participar na tentativa de golpe de estado em 2022, voltou aos corredores do Executivo Federal durante o governo Lula – desta vez como lobista do BTG Pactual. Desde julho de 2023, após cumprir quarentena, Bianco ocupa o cargo de gerente de relações institucionais no banco de investimentos .No dia 4 de fevereiro de 2024, liderou uma reunião nas dependências da AGU entre o BTG e os dois principais assessores do ministro da Advocacia-Geral da União, o ministro-substituto Flávio José Roman e  oadvogado-geral adjunto Paulo Ceo. Porque será?