Pular para o conteúdo
MUNDO

Avança a repressão à causa palestina na Alemanha

Igor Constantino, de Portugal
epaimages.com

Este fim-de-semana o Estado Alemão impediu pela força a realização do Congresso Pela Palestina 2024 em Berlim. Este evento, que juntava várias organizações de defesa da Palestina, iniciou-se no dia 12, mas um forte dispositivo policial de cerca de 2500 polícias (!) cercou o local com barricadas, obrigou à identificação dos participantes, instou a que todos e quaisquer órgãos de comunicação social pudessem estar presentes para garantir “que não eram cometidos crimes” e, finalmente, invadiu o palco do evento pouco depois do começo, cortou a eletricidade e internet, impediu os presentes de filmar e fazer transmissões com os telemóveis, e deteve várias pessoas, entre elas membros de organizações judaicas pró-palestina, como o activista Udi Raz, da Jewish Voice For Peace. Isto depois de ter já impedido a entrada no país do cirurgião britanico-palestino Ghassan Abu Sitta dos Médicos Sem Fronteiras – detendo-o e interrogando-no Aeroporto, e retendo o seu passaporte até ser extraditado de volta – que pretendia participar no congresso para dar o seu testemunho enquanto médico que esteve na Palestina a lidar com o horrífico cenário em que um dos mais modernos exércitos do mundo massacra um povo indiscriminadamente naquele que é um castigo colectivo assumido. Era previsto que figuras internacionais como Yannis Varoufakis, ex-ministro das finanças Grego, discursassem também por videoconferência no Congresso. A polícia agiu alegando que, neste Congresso, haveria um alto risco de serem proferidas “afirmações anti-semitas” e de “apologia ao terrorismo”.

A Alemanha é de longe o país europeu onde o movimento pró-palestina é mais reprimido, e onde a questão mais divide a própria esquerda e setores progressistas. Desde a IIª Guerra que a Alemanha possui legislação rigorosa que criminaliza a apologia do nazismo e o anti-semitismo, sendo inclusive considerado um crime a realização da saudação nazi em público. O problema é que esta legislação tem servido recentemente para criminalizar e censurar as críticas ao Estado de Israel e à sua política de anexação de territórios, crimes de guerra e desrespeito dos direitos humanos mais fundamentais, sendo toda e qualquer crítica ao Estado Sionista encarada por grande parte da população alemã como uma crítica directa ao próprio judaísmo, e susceptível de ser considerada como tal legalmente. Desde Outubro que são vários os casos de censura, perseguição e coerção a associações, artistas e académicos, estando hoje a liberdade de expressão na República Alemã fortemente condicionada, com várias manifestações proibidas, seja devido ao uso da bandeira de Israel e da Palestina, ou pelos próprios discursos proferidos, considerados abusivamente como antisemitas e apologistas do Hamas e do terrorismo, tendo recentemente o banco estatal congelado as contas de uma das organizações judaicas pró-palestina que organizou o congresso.

Ao ler inclusive a imprensa de esquerda alemã, é possível perceber que a própria existência do Estado de Israel, nos moldes em que este foi criado, e a política de apoio a este pela parte das potências ocidentais, é considerada como equivalente à defesa dos direitos do próprio judaico. Se em Portugal, por exemplo, é indispensável e ver imensos lenços e bandeiras palestinas nas manifestações da esquerda, na festa do PCP, Avante!, ou numa República Estudantil na Universidade de Coimbra, estes não existem nos espaços equivalentes alemães. Não existe, para muita gente, uma diferença entre criticar o Estado de Israel, e criticar os judeus como um todo. A forma particular como a sociedade alemã encara a questão palestina é decorrente, claro, da sua história, do holocausto nazi-fascista, e do genocídio do povo judaico, que é hoje usado como arma de arremesso contra um outro povo oprimido e que Israel tenta apagar da história. A culpa do holocausto impele muitos a justificar ou ignorar o sacrifício dos palestinos.

A singular agressividade do governo Alemão perante as críticas decorre da sua história mas também da sua política actual. O governo Alemão enfrenta um processo num tribunal nacional devido ao seu fornecimento de armas a Israel, sendo o principal fornecedor depois dos EUA, e está a ser acusada pela Nicarágua, na Corte Internacional de Justiça de cúmplice no genocídio israelita. Este cenário de censura e repressão ativa aos sectores solidários com o povo palestino e que lutam por um urgente cessar fogo, é exacerbado pelo facto de que estas manifestações, protestos e movimentos, são fortemente participados e muitas vezes encabeçados por pessoas muçulmanas e árabes, de origem Turca, Marroquina, Síria e Palestiniana. Os ataques, as calúnias e distorção das reinvidicações do movimento pró-palestina encontram terreno fértil nos países europeus onde a islamofobia e o racismo são cada vez mais fortes, não apenas na Alemanha, mas também nos Países Baixos, em França, no Reino Unido, e em todos os países onde uma grande parte da classe trabalhadora emigrante é de países de maioria muçulmana. A par com os ataques à população judaica, também os ataques islamofóbicos aumentaram na Alemanha, tendo porém os segundos a conivência e o silêncio cínico de grande parte do espectro político alemão.

A prova da hipocrisia do governo Alemão é que as suas duras leis contra o extremismo e a discrminação racial são descaradamente utilizada.