Pular para o conteúdo
Colunas

Relato 10: “Tristes, loucas ou más?”

Que Loucura!

Coluna antimanicomial, antiproibicionista, abolicionista penal e anticapitalista. Esse espaço se propõe a receber relatos de pessoas que têm ou já tiveram alguma experiência com a loucura: 1) pessoas da classe trabalhadora (dos segmentos de pessoas usuárias, familiares, trabalhadoras, gestoras, estudantes, residentes, defensoras públicas, pesquisadoras) que já viveram a experiência da loucura, do sofrimento psicossocial, já foram atendidas ou deixaram de ser atendidas e/ou trabalham ou trabalharam em algum dispositivo de saúde e/ou assistência do SUS, de entidades privadas ou do terceiro setor; 2) pessoas egressas do sistema prisional; 3) pessoas sobreviventes de manicômios, como comunidades terapêuticas e hospitais psiquiátricos, e outras instituições asilares; 4) pessoas do controle social; 5) pessoas da sociedade civil organizada, movimentos sociais Antimanicomiais, Antiproibicionistas, Abolicionistas Penais, Antirracistas, AntiLGBTFóbicos, Anticapitalistas e Feministas. Temos como princípio o fim de tudo que aprisiona e tutela e lutamos por uma sociedade sem manicômios, sem comunidades terapêuticas e sem prisões!

COLUNISTAS

Monica Vasconcellos Cruvinel – Mulher, feminista, militante da Resistência/Campinas e da Coletiva Nacional de Mulheres Antimanicomiais – CONAMAM;

Laura Fusaro Camey – Militante da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (RENILA);

Se você quer compartilhar o seu relato conosco, escreva para [email protected]. O relato pode ser anônimo.

Por Camila “Cavivi” Lui

Tristes, loucas ou más, conforme descrito pela música de Francisco el Hombre, são termos frequentemente utilizados para se referir às mulheres que divergem dos padrões tradicionalmente estabelecidos para comportamento feminino.

Entre os anos de 2019 e 2021, conduzi uma pesquisa de dissertação cujo foco era a história de vida das mulheres que realizavam acompanhamento no Centro de Atenção Psicossocial adulto (CAPS II). A questão central da pesquisa era a seguinte: quais elementos de seu processo de adoecimento mental estavam relacionados ao gênero? O que se pôde observar é que diversos fatores ligados ao gênero desempenham um papel significativo no desencadeamento desse tipo de adoecimento. Através da análise das trajetórias de vida, ficou evidente que aspectos relacionados ao trabalho, ao corpo e à violência em suas várias manifestações exercem influência nesse processo.

Ao utilizar a história de vida como um fundamento teórico de destaque, tive a oportunidade de dar voz a indivíduos frequentemente negligenciados; ao trazer à tona, por meio das trajetórias de vida, as experiências das mulheres que estavam envolvidas em serviços de saúde mental, as quais costumavam ser tratadas como objetos de estudo, passaram a ser reconhecidas como sujeitos. Nesse processo, muitas vezes o diálogo não se dava apenas entre mim e as participantes, mas entre elas mesmas, enquanto relembravam e atribuíam novos significados às suas experiências.

Distancio-me das perspectivas que explicam e justificam o que denominam como doenças mentais como inerentes à natureza feminina, associadas a variações hormonais e fragilidades biológicas. Nesse mesmo viés, é fundamental ressaltar que o próprio processo de diagnóstico está inserido em estereótipos de gênero. Com frequência, as experiências enfrentadas e vivenciadas pelas mulheres, tais como pressões estéticas, condições precárias de trabalho, sobrecarga nas tarefas domésticas e a violência, são reduzidas a sintomas, e essas mulheres são simplesmente medicadas, sem receber o devido cuidado que suas complexidades requerem, nem sendo compreendidas em sua inserção em uma sociedade patriarcal e capitalista. Portanto, profissionais de saúde mental devem desenvolver um processo terapêutico que envolva uma escuta ativa para essas demandas e considere os contextos nos quais as condições de saúde se manifestam, em vez de analisá-las de forma isolada.

Ao reconhecermos que o gênero é uma construção social e que em uma sociedade patriarcal existem diferenciações de papéis entre homens e mulheres, sendo os papéis atribuídos às mulheres socialmente desvalorizados, podemos compreender que essas relações sociais contribuem para os processos de adoecimento. Além disso, considerando que o sistema capitalista e a sociedade patriarcal estão intrinsecamente interligados, o primeiro se aproveita dessas diferenciações para acentuar os processos de exploração econômica, como a ausência de reconhecimento do trabalho doméstico como uma atividade remunerada.

Nesse contexto, o trabalho reprodutivo ou voltado à produção de vida é comumente atribuído às mulheres em nossa sociedade, justificado com base em habilidades consideradas inatas para o cuidado, embora seja uma dimensão que é simultaneamente essencial para o capitalismo e desvalorizada por ele. Essa configura a divisão sexual do trabalho, na qual os homens são destinados à esfera produtiva, a qual é mais valorizada e melhor remunerada.

Durante minha pesquisa de dissertação, observei que a maioria das mulheres que participaram da mesma tinha experienciado o trabalho doméstico em condições extremamente precárias, algumas chegando a trocar seu trabalho por comida e abrigo. Além disso, nos contextos atuais, às mulheres é atribuída a responsabilidade de conciliar o cuidado doméstico com uma carreira profissional, o que resulta nas chamadas ‘duplas’ e ‘triplas’ jornadas de trabalho. Algumas dessas mulheres também lutaram para obter educação formal, um processo que está diretamente relacionado com desgastes físicos e mentais.

A maternidade e o cuidado foram analisados como aspectos específicos do trabalho feminino. Ainda persiste em nossa sociedade uma perspectiva que relaciona o status social das mulheres com sua capacidade de cuidar e ser mães, como se fosse um destino natural. Qualquer desvio desse padrão gera conflitos. Além disso, observei que os processos de adoecimento ligados à perda de filhos, sentimentos de culpa por não conseguir cuidar dos filhos e a necessidade de serem cuidadas quando estavam doentes, bem como a culpa por não terem tido filhos. Na maioria dos casos, as mulheres estavam sobrecarregadas e exaustas devido à obrigação de ‘dar conta’ das tarefas domésticas e profissionais.

Por fim, outro elemento relevante evidenciado nas histórias de vida das mulheres é a experiência da violência. A violência de gênero no contexto do capitalismo não representa uma ruptura, mas está intrinsecamente presente na ordem estabelecida, sendo um dos elementos mais persistentes nas trajetórias de vida dessas mulheres em suas diversas manifestações. Isso inclui a violência moral no ambiente de trabalho e a violência doméstica, que pode ou não envolver violência física, mas que gera tensões cotidianas quase que diárias para muitas mulheres. A violência emergiu como um componente central em suas narrativas e análises. Além da violência sexual que foi considerada por muitas das participantes como um marco em suas histórias pessoais e como o início de seus processos de adoecimento.

É crucial ressaltar que a política de saúde mental no Brasil é orientada pela Lei 10.216/2001, que se baseia nos princípios dos direitos humanos, mas tem enfrentado contínuos desafios. Ela se fundamenta em cuidados em serviços comunitários e de referência territorial, porém, enfrenta uma batalha para preservar esses princípios contra o ressurgimento de abordagens mais antigas de atenção à saúde mental, que enfatizavam o isolamento das pessoas com transtornos mentais. Desde 2017, durante o governo de Michel Temer, houve um aumento nos recursos destinados aos hospitais psiquiátricos e praticamente um congelamento dos recursos para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Esse processo de enfraquecimento culminou em dezembro de 2020, sob o governo de Jair Bolsonaro, quando foi apresentada a proposta de revogar diversas portarias que regulamentam as políticas de saúde mental, como o Programa de Volta para Casa de 2003, direcionado a pessoas que haviam passado por longas internações, o qual passaria a fornecer uma bolsa-auxílio. Além disso, a proposta visava enfraquecer os próprios CAPS e vários programas voltados para a população em situação de rua, como o Consultório de Rua. Esse conjunto de medidas ficou conhecido como ‘Revogaço’ e que visava fortalecer os hospitais psiquiátricos e as comunidades terapêuticas, muitas das quais são, não por acaso, gerenciadas por entidades privadas.

Apesar do recuo dessa proposta e da derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022, a ameaça das comunidades terapêuticas continua pairando sobre a Reforma Psiquiátrica Brasileira, com suas práticas excludentes e recorrentes violações dos direitos, indo de encontro aos princípios históricos do Movimento Antimanicomial Brasileiro.

Portanto, além da luta diária em prol da reforma psiquiátrica, com suas reivindicações históricas, é essencial incorporar as diversas dimensões existentes no movimento, como a questão da sexualidade, raça e, igualmente importante, uma perspectiva que leve em consideração o gênero em sua dimensão específica para proporcionar um cuidado mais abrangente na área da saúde mental. Ignorar essa dimensão pode contribuir para a perpetuação das opressões de gênero.

REFERÊNCIA: Sousa, C. V. L. Tristes, loucas ou más: histórias de vida de mulheres em sofrimento mental. Foz do Iguaçu, 2021. Universidade Federal da Integração Latino-Americana, Instituto Latino-Americano de Arte, Cultura e História (ILAACH), Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos Latino-Americanos (PPG-IELA). Orientadora: Profª Dra. Maria Inês Amarante. Coorientadora: Profª Drª Laura Janaína Dias Amato.