Pular para o conteúdo
MUNDO

As LGBTI+ devem tomar o lado de Israel?

Por Lucas Brito, de Brasília (DF)
Tel Aviv Pride

O mundo se vê diante de mais uma guerra. Desde o último dia 07, assistimos à escalada da violência na região do Oriente Médio. Diante do conflito entre israelenses e palestinos, muitas LGBTI+ se veem pressionadas a assumir o lado de Israel. Isso se deve, em grande parte, pela crença de que o Estado de Israel estaria mais próximo dos direitos LGBTI+, e que esse país seria um exemplo de respeito à diversidade sexual e de gênero na região. Mas não é bem assim.

O Estado de Israel, há 75 anos, submete o povo palestino a situações de verdadeiro terrorismo. Apartheid, colonização e extermínio estão na conta dos crimes cometidos pelo Estado de Israel. Entretanto, aparentemente há uma contradição: nas últimas décadas, Israel tem tido iniciativas táticas para melhorar sua imagem e se promover como um Estado protetor de Direitos Humanos, com destaque para o marketing de ser um país amigável à população LGBTI+. Essa propaganda pesada tem alcançado importantes feitos, impulsionando um grande fluxo de “turismo gay” para Tel Aviv e criado no imaginário de muitas LGBTI+ a visão desse território como um “paraíso” para as dissidências sexuais e de gênero.

Ao mesmo tempo que faz isso, Israel segue promovendo um genocídio, bombardeando e privando a liberdade desse povo, incluindo palestinos LGBTI+. Isso faz com que ativistas do movimento das dissidências sexuais e de gênero, em todo o mundo, há anos, venham denunciando essa tática de Israel como sendo pinkwahsing, ou lavagem rosa, que consiste na utilização de discursos pró-direitos LGBTI+ como propaganda para desviar o foco de outros temas e encobrir violações de direitos. Uma forma desleal de utilizar nossos direitos como meio para legitimar crimes contra os próprios direitos humanos, nesse caso, do povo palestino, incluindo as LGBTI+ dessa sociedade. E sob o discurso pretensamente pró-LGBTI+, Israel busca, de modo colonial e racista, justificar o massacre ao povo palestino acusando-o de ser “atrasado”, pouco civilizado e avesso às LGBTI+.

O pinkwashing tem o efeito de produzir uma imagem falsa de sociedade homogênea. Assim como no Brasil e em Israel, na sociedade palestina, há diferentes religiões e posições políticas e sociais. Com a tática de pinkwashing, Israel esconde que há homofobia e transfobia em sua sociedade e que há disputas e resistências LGBTI+ na sociedade palestina. Nós, aqui no Brasil, sabemos que, apesar de termos as maiores paradas do orgulho LGBTI+ do mundo, famosas baladas gays e bairros amigáveis à homoafetividade, estamos longe de ser uma sociedade modelo do ponto de vista da diversidade sexual e de gênero. Ainda, lembramos que Israel é governado por uma coalizão de direita e extrema-direita, fenômeno mundial que tem representado uma ameaça às conquistas LGBTI+ dos últimos 50 anos.

Na luta pelo orgulho não cabe colonização e genocídio

Um dos legados da Revolta de Stonewall e da luta LGBTI+ brasileira do período da Ditadura Militar – para citar apenas dois exemplos – é o compromisso com o conjunto da sociedade, das classe trabalhadoras e dos povos oprimidos.

Relembro as ideias defendidas pela Frente de Libertação Gay (GLF, da sigla em inglês), na primeira publicação do ComeOut! (saia do armário), jornal da GLF, lançado em novembro de 1969, onde está presente a perspectiva de questionamento e transformação gerais da sociedade: “É melhor você acreditar que vamos fazer isso – que vamos transformar a sociedade em geral por meio da realização aberta de nossa própria consciência”.1 E também da publicação inaugural do jornal ComeOut!: “Não seremos gays burgueses em busca do estéril “sonho americano” da ivy-covered cottage e do bom emprego em corporações, mas também não toleraremos a exclusão de homossexuais de qualquer área da vida americana”.2

Assim, esses exemplos demonstram compromisso do programa original de libertação sexual levantado no final da década de 1960, de associação da luta por libertação sexual às demais reivindicações da nossa classe, para além da arena estritamente sexual, que questionassem o modelo econômico da sociedade capitalista em seu conjunto e não um projeto de construção de “paraísos” gay mantendo-se a mesma estrutura de violências e desigualdades do sistema. Aqui no Brasil, o movimento LGBTI+ surgiu junto da luta da classe trabalhadora e dos estudantes pela democracia, pelo fim da ditadura militar.

Recorro a esses fatos para reivindicar que, tanto pelo nosso programa quanto pela nossa história, a bandeira do orgulho não é um projeto exclusivista, mas coletivo, irmã das lutas de superação de todas as formas de opressão contra os povos. Por isso a bandeira LGBTI+ eu levanto ao lado do povo palestino. E é um dever de todas as LGBTI+ repudiar que nossa luta seja utilizada como pretexto para submeter povos a guetos e prisões a céu aberto, como hoje é Gaza.

Nós, LGBTI+, somos vítimas de violência todos os dias, sabemos na pele o quanto dói. Assim como os judeus, fomos lançadas em campos de concentração sob o nazifascismo e, mesmo após o fim da Segunda Guerra Mundial, fomos transferidas para prisões comuns, até a derrota do parágrafo 175, só conquistada na década de 19903. Não podemos aceitar que nossa história e nosso orgulho sejam utilizados como arma contra o povo palestino ou qualquer outro. A única saída desse mundo de miséria, guerras, violências e repressões é a união dos povos oprimidos e explorados. Esse é o nosso caminho e onde nossa bandeira deve ser levantada.

Pelo imediato cessar-fogo, nós queremos justiça e paz.

Pela interrupção imediata do massacre ao povo palestino.

Pela imediata instalação de negociações.

Palestina livre, venceremos!

O nosso orgulho é resistência!

1 Do original em inglês: “You ́de better belive we are going to do so – that we are going to transform the society at large througth the open realization of our own consciousness”. Disponível em: http://paganpressbooks.com/jpl/CO-COVER.HTM .
2 Mantivemos a expressão original em inglês por não encontrarmos uma que fosse correspondente na língua portuguesa. Ivy-covered cottage remete a um tipo de construção de casas cobertas com vegetação de trepadeiras, tradicionalmente heras. Contudo, no texto, essa expressão representa um tipo particular do sonho americano com casas luxuosas. Acreditamos que uma expressão brasileira que se assemelharia ao espírito da ivy-covered cottage seria a família de comercial de margarina, ou seja: o sonho de uma vida “perfeita”. Do original em inglês: “We will not be gay bourgeoise, searching for the sterile “American dream” of the ivy-covered cottage and the good corporation job, but neither wil we tolerate the exclusion of homosexuals from any area of American Life”. Disponível em: http://paganpressbooks.com/jpl/CO-COVER.HTM
3 O nazismo, na Alemanha, marcando-os com um triângulo rosa, teria matado, em campos de concentração, entre 5 e 15 mil homossexuais. A “justificativa” legal foi o parágrafo 175. No fascismo italiano, pessoas homossexuais eram mantidas presas em ilhas e, em alguns casos, submetidas a diversas formas de violência física e psicológica.