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Cinco anos da Resistência-PSOL: reflexões e desafios

A construção de uma organização socialista e revolucionária implica uma série de desafios que precisam ser refletidos coletivamente

Henrique Canary, da redação
Arquivo Resistência-PSOL

Neste 1º de maio a Resistência completa cinco anos. Não é muito, claro. Trata-se da infância de uma organização. Mas todos sabem que a infância é um período sempre muito conturbado, em que se aprende, se cresce e se erra muito. Por isso, já parece ser a hora para certas reflexões, ainda que provisórias e parciais. De alguma maneira, os objetivos que nos colocamos há exatos cinco anos devem estar se expressando, mesmo que com debilidades, na prática de nossa corrente. De outra forma, nossa existência não teria qualquer sentido. Não basta querer e sonhar. Organizações políticas não estão “destinadas” a um futuro glorioso pelo simples fato de se autodeclararem revolucionárias e socialistas. É preciso trabalhar muito no presente, realizar uma intensa militância, muitas vezes invisível e cinzenta, para que se tenha algum porvir.

A Resistência é fruto da fusão de três organizações distintas: o Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista (MAIS), a Nova Organização Socialista (NOS) e o Movimento de Luta pelo Socialismo (MLPS). Surgimos em 2018 com um duplo objetivo: por um lado, ajudar na difícil tarefa de organizar a resistência imediata contra os retrocessos causados pelo golpe parlamentar de 2016; e por outro, ser um instrumento útil na unificação e reencontro dos socialistas revolucionários brasileiros. Viemos discutindo desde nosso surgimento que há muitas outras organizações socialistas revolucionárias no país, além de ativistas combativos em organizações reformistas, centristas e ultraesquerdistas. Por isso, nos colocamos como objetivo lutar contra a dispersão das forças revolucionárias do Brasil, num combate consciente contra o sectarismo e as práticas nefastas que minam a confiança e as possibilidades de colaboração entre os socialistas.

Desde então, temos trabalhado nesse sentido. Lutamos honestamente pela Frente Única para enfrentar os governos Temer e Bolsonaro e batalhamos pela unificação séria e principista com outros grupos e militantes.

A luta pela Frente Única nos levou também a uma determinada política eleitoral. Estivemos entre aqueles que, desde o início, defenderam que a candidatura Lula deveria unir toda a esquerda brasileira com o objetivo de derrotar Bolsonaro nas ruas e nas urnas. Ao mesmo tempo, quando o líder petista tomou posse, defendemos que o PSOL, partido no qual militamos, mantivesse sua independência política em relação ao governo, priorizando a atuação direta no movimento de massas, sem ocupar cargos como partido. Com essa localização, seguimos a luta contra a extrema-direita e para mudar de vez o país.

A localização política que tivemos no último período trouxe, claro, frutos importantes. Saímos de uma corrente sem qualquer representação parlamentar para 3 deputados estaduais no Rio Grande do Sul e São Paulo e 5 vereadoras em São Paulo, Juiz de Fora, Belo Horizonte, Aracaju e Belém. Certamente, devemos ser considerados novatos no assunto. Não temos ainda um mandato federal, o que nos colocaria em um grau superior de exposição, responsabilidade e possibilidades. Precisamos aperfeiçoar em muito o trabalho em nossos gabinetes, mas temos buscado colocar esses importantes instrumentos a serviço da luta direta do povo contra os retrocessos e por avanços reais.

No terreno sindical, obtivemos algumas vitórias importantes, sendo parte de chapas que conquistaram a maioria em algumas entidades de peso, como o Metrô de São Paulo e Petroleiros de Caxias. Na juventude, conseguimos organizar uma corrente que atua em inúmeras frentes do movimento universitário, secundarista, contra as opressões, antiproibicionista e ecossocialista.

Por fim, no terreno das discussões estratégicas, temos insistido na necessidade de um rearme programático dos revolucionários frente à nova realidade do Brasil e do mundo. Ao longo desses últimos anos, nos dedicamos ao estudo de questões como a emergência climática, a teoria da reprodução social, o problema do imperialismo, a formação econômica e social brasileira, a luta contra as opressões machista, racista e lgbtfóbica, a nova extrema-direita e o novo fascismo. Também estão no nosso campo de interesse velhas questões jamais resolvidas por completo pelos socialistas, como os desafios da atuação parlamentar, o regime e a concepção de partido, a Frente Única, a estratégia revolucionária para o Brasil e o balanço das experiências socialistas do século 20.

Não foi sem contradições, dificuldades e problemas que chegamos até aqui. Dois anos depois de nossa fundação, quando apenas consolidávamos nossa corrente, enfrentamos uma pandemia que impôs um isolamento social de graves consequências para a mobilização do povo e para nossa própria organização. Sob a pandemia, enfrentamos Bolsonaro nas ruas e nas eleições. Ainda assim, pagamos o preço do lockdown pandêmico. As dificuldades organizativas e mesmo políticas foram muitas, agravadas, é claro, pela debilidade da organização como um todo, em particular de sua direção.

Uma das mais importantes lições que tiramos do último período é que não é possível construir uma organização revolucionária unicamente em base a acertos políticos (ainda que os acertos políticos sejam fundamentais). É preciso ideologia sólida e organização coerente. Nesta área, certamente estamos em débito com nós mesmos. A consolidação organizativa da corrente e o fortalecimento ideológico do conjunto da militância permanecem como tarefas inconclusas, que devem necessariamente ser encaradas no próximo período, sob pena de um retrocesso.

Ainda que estejamos longe do ideal, avançamos na composição racial e de gênero da organização, inclusive de sua direção, e certamente temos uma implantação nacional. Mas ainda somos excessivamente sudestinos e nossa militância é composta principalmente por representantes dos estratos médios da sociedade. Esse é um outro desequilíbrio que é preciso encarar. Faz falta avançar para as periferias das cidades, estados do norte e nordeste e para os setores mais explorados e oprimidos da classe trabalhadora brasileira.

Somos uma organização relativamente jovem e que valoriza também sua velha guarda, depositária da tradição e da experiência. Mas em geral, precisamos avançar na juventude. Uma organização sem juventude é uma organização sem futuro. “O comunismo é a juventude do mundo. E construí-lo cabe aos jovens”, disse o poeta russo Iuri Vízbor em 1959. É preciso levar esses versos até as últimas consequências.

Os esforços que fizemos até hoje no terreno da formação teórica nem de longe suprem nossas necessidades e da vanguarda que nos cerca. Mais cursos, mais livros, mais debates, mais artigos. É preciso criar um clima e uma opinião pública interna favorável ao debate de ideias para a elaboração política e programática, sem dogmatismo e escolasticismo, mas também sem ecletismo e excesso de empirismo. Enfim, é preciso uma sólida e viva política de formação marxista.

No âmbito do regime interno, avançamos bastante graças à experiência prática e à elaboração anterior das três organizações que nos deram origem. Ainda assim, muito resta a ser feito. É preciso um regime interno cada vez mais democrático, que absorva com tranquilidade a polêmica aberta e honesta sem abalar a unidade política e a capacidade de ação da organização. E isso é uma luta permanente, daquelas que jamais se ganha em definitivo.

O terreno do internacionalismo proletário talvez seja aquele em que mais temos dívidas acumuladas. Sem cair na tentação sectária de proclamar “uma nova internacional”, é preciso avançar em relações sólidas, honestas e eficazes com outras organizações nacionais e internacionais. Nenhuma organização socialista revolucionária pode viver muito tempo encerrada em sua própria realidade nacional. Algo foi feito nesse sentido, mas ainda muito pouco.

Como se vê, não somos uma organização perfeita. Em 2020, nos autodefinimos como “uma corrente revolucionária em construção”. E cada palavra dessa definição importa. Somos “uma”, não somos “a”. Somos uma “corrente” do pequeno rio revolucionário brasileiro, não um “partido” oposto a todos os outros. Estamos “em construção”, não “prontos”. Para estarmos um dia preparados para o desafio histórico que almejamos, é preciso ser modesto e humilde sobre o presente. E a verdade é essa. Muito foi feito, mas muito mais ainda há por fazer.

Não poderia terminar esse artigo sem mencionar o fato de que recentemente perdemos um de nossos mais importantes dirigentes. Paulo Aguena, o Catatau, se foi. Abominamos o culto à personalidade (e ele, “o revolucionário discreto”, como o definiu Valério Arcary, odiava esse vício stalinista mais do que tudo), mas precisamos admitir que a experiência e a tradição importam. O passado importa. Não somos anarquistas. A direção importa. E a verdade é que perdemos um importante e decisivo ponto de apoio, um porto seguro no qual os camaradas mais jovens da direção sempre atracavam quando o mar da política, da teoria ou da construção partidária se mostrava mais revolto do que o habitual (e como isso aconteceu ao longo desses cinco anos!). Será um desafio (e tem sido um desafio) levar adiante a luta sem ele. Mas o estamos fazendo. E o faremos.

Agrupamentos revolucionários são construções humanas, frutos do cérebro e da vontade humana. E por isso são imperfeitos. A grande questão de uma organização leninista não é sua perfeição ideal, mas o fato de que ela é, talvez, a estrutura que leva mais a fundo a ideia profundamente marxista de que o conhecimento é social. Seja qual for a verdade (e ela existe, não somos pós-modernos), ela será conhecida com o esforço conjunto de muitas mentes militantes, num permanente processo de estudo e debate coletivo. Seja qual for a política correta, ela será encontrada por meio de sucessivas aproximações práticas nas várias frentes de militância onde se encontram os membros de nossa organização.

Em cinco anos, certamente cometemos muitos erros, mas nada pode anular o fato de que recebemos dessa atividade a maior satisfação possível, a noção de que, como dizia Trótski, “carregamos sobre nossos ombros uma partícula do destino da humanidade”.

Aos cinco anos da Resistência, preferimos nos abster do tradicional desejo de “vida longa”. Esperamos que nossos esforços resultem em novas unificações, em organizações mais fortes e mais unidas do que a que temos hoje. Somos um elo na longa cadeia da construção da organização revolucionária no Brasil. Foi para isso que fundamos a Resistência. Essa é e sempre foi a nossa vocação.

Enquanto isso, comemoremos. Porque os anos foram intensos, o caminho foi duro, fizemos muito, e merecemos.