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MUNDO

Incêndios no Chile

com tradução de Waldo Mermelstein
Resumen Latinoamericano
  1. Chile. O negócio das empresas de extração de madeira e celulose ameaça exterminar as comunidades rurais de Maule, Ñuble, Biobío, Araucanía e Los Ríos
  2. Nação Mapuche. Declaração da Coordenadora Arauco Malleco: “As chamas são do capital, as vidas são dos povos oprimidos”

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Chile. O negócio das empresas de extração de madeira e celulose ameaça exterminar as comunidades rurais de Maule, Ñuble, Biobío, Araucanía e Los Ríos (1)

Por Alberto San Martín em Resumen Latinoamericano em 8 de fevereiro de 2023

A expansão das plantações florestais nas últimas décadas transformou radicalmente a paisagem, empobrecendo comunidades  que sofrem os impactos da escassez de água de água, perda de biodiversidade vegetal e aquática, danos aos solos, insegurança no emprego, poluição do ar e da água. Além de tudo isso, essas comunidades estão sob um risco muito alto de incêndios ou mega incêndios incontroláveis, o que ameaça diretamente sua existência no futuro.

As empresas de extração de madeira e celulose se expandiram desde a ditadura de Pinochet com o desmatamento e queima de florestas nativas, gerando um  impacto severo no ciclo da água que, juntamente com o avanço acelerado das mudanças climáticas no centro-sul do Chile, tornou-se uma combinação catastrófica e letal.

Resumen Latinoamericano

O aumento acelerado das mudanças climáticas significa que as ondas de calor na área estão se tornando mais intensas. Foram necessárias apenas algumas horas de condições extremas na quarta-feira passada para que os mega incêndios voltassem a eclodir (em mais de 10.000 hectares em diferentes territórios afetados pelas monoculturas).

Nosso meio de comunicação constatou, por meio de entrevistas de campo com a população afetada e com análise de especialistas técnicos e científicos no assunto, que o modelo de plantações florestais se caracteriza por: alta massa e densidade de árvores, estrutura uniforme, espécies com características inflamáveis e com alta demanda por água e recursos, gerando uma combinação catastrófica. Quando um incêndio atinge todo um vale cultivado com essa grande quantidade de biomassa uniforme e homogênea, uma tempestade de fogo pode ser desencadeada de forma extremamente rápida.

Resumen Latinoamericano
Devastação causada pelo mega incêndio “Las Máquinas” em torno da encosta sul do Cerro Name e da Ciénaga del Name.

O fogo se espalhou rapidamente do setor de Las Máquinas, na comuna de Cauquenes, para o setor de Name do Sul, através das extensas manchas de plantações de monoculturas de árvores de Pinus radiata em janeiro de 2017.

Por essa razão, têm sido propostas soluções que visam redesenhar a paisagem para abandonar o critério assassino de maximizar os lucros dos empresários da indústria de extração de madeira e celulose, em direção a uma paisagem variada que impeça que um foco descontrolado (acidental ou provocado) atinja proporções típicas de uma tempestade de fogo.

Recorde-se que, quando se atingem essas condições, não há capacidade técnica para as conter e foi precisamente isso que vimos durante esta semana.  Na medida em que os próprios mega incêndios geram fortes fluxos de vento quente e de partículas de materiais vegetais incandescentes que são levadas pelo vento e que podem estabelecer novos focos. Quando as quantidades de fumaça são muito elevadas, o trabalho das aeronaves é difícil, tornando a situação extremamente complicada para as equipes em terra. 

Por outro lado, nesta semana, nas áreas mais afetadas, as quantidades injetadas na atmosfera superaram mais de 20 vezes a norma internacional para a presença de partículas inaláveis finas nocivas com largura igual ou menor a 2,5 mícrons (MP 2,5 (2)) nos locais mais afetados por mega incêndios.

Resumen Latinoamericano

Diante dessa série de impactos ambientais inaceitáveis e letais, há muitas vozes que propuseram estabelecer limites para o perigoso negócio florestal liderado pelas Empresas Arauco(Grupo Angelini) e Empresas CMPC (Grupo Matte). 

Foi demonstrado que [essa atividade] as empobrece e a pouca pequena agricultura camponesa restante está acabando por causa disso afeta as comunidades. As pessoas estão indo embora, esse é o fracasso da inexistência de uma política territorial no Chile, que permite que a monocultura de pinheiros e eucaliptos seja plantada em todos os lados – nas margens de rios, lagos, um fracasso total “, diz Nicolás Salazar, nosso colega e vizinho da comuna de Flórida (3) quando vê como as luzes avançam em direção à casa de outro vizinho enquanto as equipes de emergência não podem não fazer nada.

Os moradores de Florida denunciam a comunidade empresarial florestal e as sucessivas autoridades políticas como responsáveis pela catástrofe causada pelos incêndios florestais que afetam Maule, Ñuble, Biobío, Araucanía e Los Ríos  https://twitter.com/hashtag/IncendiosForestales?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw

Não pode ser que, por causa de sua ambição, o país esteja queimando; é verdade que os pequenos e médios proprietários também plantam, mas os maiores responsáveis são os grandes empresários e o Estado do Chile que permitiram isso.”

Os setores rurais do país constituem um elemento fundamental para a segurança alimentar e a soberania de um país. No caso chileno, a degradação das comunidades camponesas não afetará apenas o setor rural, uma vez que, a longo prazo, pode colocar em risco o fornecimento de alimentos e água potável também para os setores urbanos.

NOTAS

1 Províncias chilenas

2 https://www.gvs.com.br/blog/life-sciences/particulas-finas/

3 Município da região de Bio Bío

Texto original.

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Nação Mapuche. Declaração da Coordenadora Arauco Malleco: “As chamas são do capital, as vidas são dos povos oprimidos”

Por Resumo Latino-Americano em 8 de fevereiro de 2023

Resumen Latinoamericano

Kiñe: Os últimos incêndios florestais que devastaram Ngulumapu (1) e outras áreas do que eles atualmente chamam de Chile, são apenas uma das expressões criminosas do modelo florestal (referido à extração de madeira e celulose) que, ano após ano, nos mostra sua verdadeira face: as consequências dos investimentos dos ricos e das transnacionais, são pagas pelas comunidades e pelos setores empobrecidos. Mas os incêndios não são os únicos resultados das empresas florestais no nosso território: desertificação, secas, poluição, redução de terras nas comunidades, cooptação política de famílias e pessoas vulneráveis, entre outros, são alguns dos problemas que este modelo de morte tem causado.

Epu: Deve ficar claro que este modelo predatório e cruel é baseado na usurpação de terras mapuches, que historicamente têm sido usadas para os interesses das classes dominantes. No caso da silvicultura, eram terras tomadas pelo capital internacional a preços baixos durante a ditadura, que buscava subsídios estatais para produzir monoculturas de pinheiros e eucaliptos. É por isso que a nossa persistente denúncia é que o Estado tem sido o principal aliado das empresas florestais para incentivar o seu capital, garantir sua produção e mantê-lo como sectores de poder de mãos dadas com os governos de turno.

Küla: Em relação ao exposto, devemos nos perguntar: por que não mudar o modelo capitalista, extrativista e predatório imposto pelas empresas florestais? E por que todos os governos aceitaram os ditames dos grupos econômicos como lacaios? A resposta é encontrada novamente na governança neoliberal assumida pelo governo Boric, que manteve a repressão no Wallmapu (país mapuche em língua mapuche) para garantir a acumulação de capital no setor florestal, aumentando as exportações de celulose e, com isso, a persistência de um capitalismo colonial em nosso território.

Meli: É por causa do exposto acima que, como parte do movimento autonomista mapuche, nos declaramos inimigos acérrimos das empresas florestais. Sempre os combatemos, atacando seus núcleos produtivos em diferentes ocasiões, mas nunca causando incêndios que ceifam vidas humanas de setores empobrecidos e menos ainda os que afetem nosso próprio povo. É inconcebível que [tenhamos] responsabilidade em circunstâncias em que as nossas comunidades vivem rodeadas de silvicultores e a sobrevivência é absolutamente difícil nessa realidade. Os incêndios identificaram claramente os culpados; são eles a Forestal Mininco, a Forestal Arauco e a CORMA (2), estas três em cumplicidade com os governos de plantão que nunca fizeram nada para mitigar os impactos ambientais e ecológicos do extrativismo florestal, criando condições cada vez mais favoráveis para esses mega incêndios. Sua ambição excessiva é que está por trás destas chamas e, para encher seus bolsos de dinheiro, mostraram que não se importam com a vida humana ou ambiental.

Em nome da Coordenadora Arauco-Malleco (CAM), uma organização que faz parte do movimento mapuche que luta pela reconstrução nacional, chamamos a continuar lutando contra a silvicultura e sua cultura de morte e devastação.

Manifestamos nosso mais profundo pesar pelas perdas sofridas pelos oprimidos por esses incêndios: saibam que os compreendemos profundamente, já que nosso povo viveu décadas cercado por empresas florestais e suas consequências.

Mas os povos oprimidos devem parar de sofrer os impactos dos poderosos. É por isso que nos comprometemos a continuar em uma luta total contra as empresas florestais até a sua expulsão definitiva, esta é a única alternativa para viver com dignidade e para a reconstrução do nosso itrofil mongen, ou toda a vida sem exceção, no idioma mapuche (https://endemico.org/itrofill-mogen-toda-la-vida-sin-excepcion/) 

¡¡Weuwaiñ!! ¡¡Marrichiweu!! (Venceremos!, Dez ou mil vezes venceremos!, em língua mapuche

COORDENADOR ARAUCO MALLECO – CAM

Fevereiro 07, 2023

NOTAS

Forma como os mapuches denominam o território por eles ocupado a Oeste da Cordilheira

2 Corporación Chilena de la Madera, associação de empresas ligadas ao setor madeireiro e florestal.

Texto original.