A esquerda levaria menos gente que Bolsonaro às ruas?
Publicado em: 8 de setembro de 2022
Gabriel Casoni
Gabriel Casoni, de São Paulo (SP), é professor de sociologia, mestre em História Econômica pela USP e faz parte da coordenação nacional da Resistência, corrente interna do PSOL.
Gabriel Casoni
Gabriel Casoni
Gabriel Casoni, de São Paulo (SP), é professor de sociologia, mestre em História Econômica pela USP e faz parte da coordenação nacional da Resistência, corrente interna do PSOL.
Não “flopou”. Bolsonaro levou muita gente às ruas ontem* — é inegável. Demonstrou força num ato que foi preparado por meses e financiado com dinheiro público. A rigor, o ato oficial do 07 de setembro foi sequestrado, convertendo-se num enorme comício eleitoral. Agora será preciso acompanhar seus eventuais impactos eleitorais, que não necessariamente serão positivos para Bolsonaro – é preciso observar as próximas pesquisas.
Ficou demonstrado que o fascismo brasileiro segue com capacidade de mobilização de massas e que Bolsonaro não abandonará a contestação golpista do resultado das urnas, se perder as eleições. Esse fator, de enorme gravidade, deve perdurar para além das eleições desse ano.
Há um debate se a esquerda tem hoje menor capacidade de mobilização que a extrema direita. Avalio que não é possível essa comparação imediata de potencial de mobilização porque Lula e a direção do PT em nenhum momento, nos últimos anos, se jogaram de forma contundente e organizada para a construção de um ato nacional. A mobilização de massas nas ruas, diferentemente do bolsonarismo, ocupa um lugar secundário na estratégia petista.
Se Lula e o PT, à semelhança do que fez Bolsonaro, passassem meses construindo um grande ato popular, convocando ele todo santo dia (explicando sua importância às massas), com deputados e lideranças da esquerda (PSOL, PCdoB etc.) se somando nesse esforço, com sindicatos e movimentos sociais (movimento negro, feminista, LGBT, sem terra, sem teto etc.) empenhados nessa tarefa comum, não poderíamos levar tanto ou mais gente que o bolsonarismo levou ontem às ruas?
Acredito que, no mínimo, a esquerda poderia ser tão grande quanto. Por exemplo, O “Ele Não” puxado pelo movimento de mulheres, em 2018, foi maior que o 07 de setembro bolsonarista nesse ano eleitoral. Mas não sabemos ao certo o potencial real de mobilização à esquerda, porque não houve o acionamento dessa linha estratégica por parte da principal direção política da classe trabalhadora, nem ano passado, nem nesse ano.
A campanha Lula trabalha exclusivamente para garantir a vitória eleitoral. E, de fato, mesmo sem medir forças nas ruas, é possível vencer nas urnas, talvez já no 1o turno. Pela razão de que Bolsonaro tem uma rejeição popular majoritária no país e de que Lula está consideravelmente à frente dele nas preferências de voto. A maioria do povo quer tirar Bolsonaro do poder votando no petista. A vitória eleitoral, a eleição de Lula, é fundamental. Mas enquanto não derrotarmos o fascismo nas ruas (isto é, no enfrentamento direto), o perigo estratégico seguirá posto com toda gravidade.
Para o dia 10 de setembro, esse sábado, está sendo convocado atos da esquerda em resposta ao dia 07 bolsonarista. Boulos e o PSOL estão empenhados na convocação dele. Infelizmente, até agora, a campanha de Lula não está convocando o ato, mas ainda há tempo. Mesmo que sejamos menores no dia 10, em função da convocação de última hora e de outros fatores, tem grande importação a mobilização, seja para impulsionar a campanha Lula, seja para acumular forças contra qualquer tentativa golpista. É preciso mostrar que as ruas não são do fascismo bolsonarista.
* Segundo pesquisadores da USP (por meio de fotos áreas e cálculo por computador) foram 33 mil pessoal na Paulista e 65 mil em Copacabana (em Brasília não houve medição mais científica, mas arrisco dizer que foram por volta de 60 mil).
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