Pular para o conteúdo
Colunas

PSol deve apoiar Haddad, mas não França

Reprodução/Redes sociais

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

  A virtude por cálculo é a virtude do vício.
                                                                                        Não há vício sem o seu suplício.
                                                                                            Sabedoria popular portuguesa

 

1. O PSol se coligou com o PT para construir a campanha contra Bolsonaro e em defesa de Lula, embora alertando de forma frontal e honesta contra a escolha de Alckmin como candidato à vice-presidência. Os mesmos critérios que nos orientaram no plano nacional explicam porque apoiaremos Fernando Haddad. O PSol deve apoiar a candidatura de Fernando Haddad para governador, apesar da decisão do PT de privilegiar a aliança com Márcio França e o PSB. Depois que retirou a pré-candidatura de Guilherme Boulos, o PSol tinha bons argumentos para defender que a indicação da vaga para o Senado devia ser sua. Esta negociação não avançou. O PT priorizou a aliança com Márcio França. Na opinião do PSol o PT insiste nos mesmos perigosos erros de 2014 que levaram Michel Temer para a vice-presidência, desconsiderando os riscos em função de um cálculo eleitoral duvidoso, e desdenhando da lealdade do PSol. As alianças com lideranças burguesas tiveram e terão um altíssimo custo. Em eleições não vale tudo.

2. O gesto unilateral do PSol de renunciar a uma candidatura própria foi um movimento despojado. Responde, exclusivamente, ao compromisso com os interesses dos trabalhadores e do povo em uma conjuntura difícil. Não existiu qualquer cálculo oculto. A decisão foi, extraordinariamente, polêmica e difícil entre nós. Trata-se de um sacrifício consciente, porque o PSol mantém diferenças programáticas grandes com o PT, alcançou uma audiência própria de massas nas grandes cidades e na capital, e Boulos já conquistou um patamar de autoridade que legitimava a candidatura a governador. Mas, em função da necessidade de derrotar o bolsonarismo e o tucanato, o PSol aceitou perder protagonismo e visibilidade, deixando claro que não ambiciona qualquer compensação de ocupação de cargos, se Haddad vencer as eleições. Este altruísmo político não foi compreendido pela direção do PT.

3. O PT decidiu, infelizmente, priorizar a relação com Márcio França e com o PSB. O peso relativo do PSol, quando comparado com o PSB, se expressa, em primeiro lugar, na implantação nos movimentos sociais mais importantes. O PSB não ocupou lugar na luta de 2021 de organização da campanha Fora Bolsonaro, enquanto o papel da militância do PSol na Frente Povo Sem Medo foi exemplar. O PSol é muito superior nos sindicatos e entre os estudantes, na luta popular por moradia e nos coletivos feministas, nos movimentos negros e indígenas, entre a comunidade LGBTQIA+ e entre os ambientalistas, no mundo da cultura e nas universidades. A repercussão dos mandatos de vereadores, deputados estaduais e federais do PSol é, também, incomparavelmente, maior. Além disso, o PSol é o partido de Boulos, a maior liderança de esquerda no estado de São Paulo depois de Lula. O PSol não deve, portanto, apoiar Márcio França. A trajetória de Márcio França é incompatível com os interesses e compromissos que o PSol defende. O que significa a necessidade de apresentação de uma candidatura própria para o senado. Apostamos que esta localização será útil para o fortalecimento da esquerda em São Paulo.

4. O árbitro desta disputa sempre foi o PT e Fernando Haddad. Não fugimos de nossas responsabilidades e apresentamos os argumentos. O PSol respeita a decisão, ainda que a considere errada e injusta, por uma razão fundamental: abriu-se uma nova situação em São Paulo com a possibilidade da vitória de Haddad para governador. É a primeira vez que uma candidatura de esquerda pode vencer no Estado. Trata-se de um combate de dimensões imensas, depois de trinta anos de hegemonia do PSDB. A oportunidade histórica não pode ser perdida. Consideramos um equívoco grave que a vaga de disputa para o senado seja entregue a Márcio França. Ela responde à escolha de uma tática de Frente Ampla contra a Frente de Esquerda. Márcio França para o senado, um quadro de confiança de Alckmin associado de longa data aos tucanos, sinaliza na disputa estadual compromissos inescapáveis com a classe dominante. A indicação da candidatura a vice-governador obedece à mesma expectativa. O cálculo é, estritamente, eleitoral e ambiciona atrair votos de setores das camadas médias mais conservadoras. Este cálculo é errado. O PT parece não ter aprendido as lições deixadas pelo golpe de 2016. A conspiração contra Dilma Rousseff foi articulada por Michel Temer associado a Eduardo Cunha. A necessidade de “um giro ao centro” foi antecipada do segundo para o primeiro turno. Acontece que, ao contrário da eleição nacional, é improvável que não seja necessário um segundo turno em São Paulo. A direção do PT paulista está indo longe demais. De cabeça erguida, o PSol fará, lealmente, a campanha de Haddad, mas na minha opinião, não deve apoiar Márcio França.

5. O PSol aumentou sua influência, nos últimos anos, em escala nacional, porque manteve a defesa de um programa anticapitalista, mas demonstrou maturidade na defesa da Frente Única de Esquerda na luta contra o golpe. Mas se fortaleceu, especialmente, em São Paulo, em função do protagonismo liderado por Guilherme Boulos. A autoridade do Psol é maior porque o partido teve a lucidez de compreender a mudança desfavorável da situação política a partir do impeachment de Dilma Rousseff. Ao mudar a situação, mudou a tática. Por isso, o Psol se engajou na denúncia do golpe parlamentar, na construção de uma Frente Única de Esquerda na oposição a Temer, na campanha Lula Livre e na resistência impulsionando, em 2021, a ida às ruas pelo impeachment de Bolsonaro. A decisão do PT foi de favorecer, nas eleições, uma Frente Ampla com dissidências dos partidos burgueses. Não concordamos, mas ainda assim, em função dos perigos que nos cercam, decidimos apoiar Lula e Haddad em São Paulo. Eles serão um instrumento eleitoral para empolgar a mobilização social de massas que se impõe para derrotar as ameaças golpistas do neofascismo e conquistar a supremacia nas ruas. O lugar do PSol será na primeira linha desta luta. Eleger os deputados do PSol, garantindo um espaço na institucionalidade para os anticapitalistas, será a maior garantia de levá-la até o fim.