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Uma avalanche de divisões na esquerda. Por quê?

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

A destreza pode muito, mas mais a perseverança.
Aprende a cair antes de aprenderes a voar.

Sabedoria popular portuguesa

A fragmentação das correntes de esquerda socialista alcançou um patamar dramático, talvez até difícil de compreender. Divisões não são incomuns na esquerda da tradição marxista. Organizações pequenas e na contracorrente estão sempre vulneráveis a poderosas pressões desagregadoras. Balanços apressados, desconfianças exageradas, rivalidades pessoais e paixões táticas são muitos os fatores que podem precipitar rupturas.

Mas estamos diante de um tsunami de “rachas”, de proporções inusitadas, nos últimos anos. Somente três partidos de esquerda no Brasil têm presença institucional, visibilidade nacional e milhares de membros: PT, PSol e PCdoB. Mas são mais de vinte os núcleos orgânicos que mantém uma intervenção militante regular com centenas de ativistas. Algumas correntes se estruturam, internamente, ao PT e PSol e têm implantação social e representação parlamentar, e outras, externamente, são independentes, com ou sem legalidade.

O afã de diferenciação e autoproclamação aumentou, paradoxalmente, numa situação em que o PT recuperou influência que tinha perdido. Sem explicações não se pode tirar lições e corrigir. Fatores objetivos pesam: (a) a etapa internacional permanece desfavorável, ainda condicionada pela restauração capitalista que deixou imensa confusão; (b) a fragilidade da esquerda internacional incide de forma negativa; (c) o peso das derrotas sociais e políticas, desde 2015/16, mesmo com a inflexão da conjuntura, ainda pesa; (d) o Brasil é um país continental, e as experiências regionais desiguais não ajudam, favorecendo a “balcanização” e dispersão; (e) as pressões de adaptação ao regime democrático alimentam aventuras eleitorais de lideranças individuais; (f) a força de inércia de organizações, artificialmente, homogêneas, impulsiona divisões; (g) a marginalidade social e política diminui o sentido de responsabilidade e amplia, internamente, atração por posições mais radicais.

Mas fatores subjetivos pesam, também: (a) individualismo extremo que estimula as ambições pessoais carreiristas em distintas formas: mandatos parlamentares, posições em sindicatos, exposição de influenciadores nas redes sociais, etc; (b) excessivo peso atribuído aos balanços históricos; (b) ressentimentos dos desentendimentos passados e das desconfianças acumuladas; (c) baixa tradição marxista; (d) a importância dos movimentos sociais, em especial, o sindical, e o movimentismo de inspiração anarcosindicalistas; (e) as limitações pessoais das lideranças, o mais subjetivo dos fatores: a qualidade humana dos quadros.

Ainda estamos em uma situação internacional adversa para quem defende a revolução socialista, trinta anos passados da restauração capitalista na ex-URSS. Quando as perspectivas são desfavoráveis o desalento pode aumentar a amargura, a angústia favorece o desespero, e a desmoralização facilita o rancor. Desde a vitória no Vietnam em 1975, não ocorreu um triunfo revolucionário anticapitalista.

Mas esse contexto internacional mudou, porque a crise capitalista de 2007/08 confirmou os limites da etapa da globalização. Uma onda de mobilizações derrubou governos na América do Sul entre 2001 e 2005, e outra atingiu o mundo de língua árabe entre 2012/13. Ambos os processos foram interrompidos, e precipitaram-se derrotas. Mas, tampouco, foram todas derrotas históricas. Os fatores exógenos estão presentes na crise da esquerda, mas os endógenos não podem ser diminuídos, porque parecem prevalecer.

Fatores endógenos são aqueles que resultam de conflitos internos. Quando um problema é muito complexo, um caminho prudente é estudar as contradições em seus diferentes níveis de abstração. Conflitos políticos são lutas em que nem sempre há clareza cristalina. Mas devemos identificar, diante das múltiplas pressões, quando predomina uma dinâmica progressiva ou regressiva. Há, entre outras, pelo menos, cinco grandes hipóteses possíveis que não se excluem.

A primeira remete ao choque entre as deformações sectárias geradas pela marginalidade, e as possibilidades abertas de aumentar a audiência política, ainda que as pressões oportunistas geradas pelo perigo de adaptação aos limites dos regimes democrático-eleitorais sejam muito grandes;

(b) a segunda remete ao choque entre as deformações burocrático-monolíticas no regime interno de partido-fração, e a necessidade de construir organizações que precisam aprender a conviver com a pluralidade democrática, ainda que as pressões horizontalistas de partido-movimentista sejam poderosas;

(c) a terceira remete ao choque entre as deformações patriarcais-machistas-homofóbicas que decorrem de pressões retrógadas e obtusas, e a necessidade de relações honestas e saudáveis, ainda que as pressões identitaristas majoritárias nos movimentos feminista, negro e LGBT sejam, potencialmente, desagregadoras;

(d) a quarta remete ao choque entre uma geração fundadora envelhecida, dedicada, porém, acomodada, predominantemente, às tarefas de propaganda, ou o papel desmedido de uma grande personalidade no interior da direção, e a necessidade de renovação incontornável das direções para o trabalho coletivo, onde não há lugar para caudilhos, ainda que a impaciência de quadros jovens, em luta pelo seu espaço possa ter excessos fracionais;

(e) finalmente, a última remete ao choque entre o dogmatismo teórico e o conservadorismo programático diante das imensas transformações ocorridas no mundo após a restauração capitalista, e as tarefas inadiáveis de um marxismo que só será revolucionário, se for aberto, e de uma atualização programática para o século XXI., ainda que as pressões eclético-nacionalistas possam ser desastrosas.

É muito possível que estes cinco conflitos tenham estado presentes, em alguma proporção, em todas as rupturas, em graus variados e combinações diferentes. O que fazer? Mais do que nunca a resposta é muito difícil.

Há que mudar. O perigo é que, dependendo da dose, o remédio pode ser mais perigoso que a doença. Mas há que mudar e construir, construir, construir.