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Eu não quero polemizar com Jones Manoel

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Quando um não quer, dois não brigam.
Não importa o tamanho da montanha ela não pode tapar o sol.
Sabedoria popular portuguesa

A campanha eleitoral de 2022 é a mais decisiva desde 1989. Ela será o terreno de uma luta frontal contra a extrema-direita. Bolsonaro está no poder e o perigo de um segundo mandato da liderança neofascista é o centro de tudo. É razoável que a luta política fique mais dura e ríspida. A aspereza das polêmicas é proporcional à incerteza que cerca as eleições presidenciais, já que Bolsonaro mantém a estratégia golpista de questionar a lisura das urnas eletrônicas, ameaçando desconhecer o resultado, se Lula vencer.

A insegurança é inimiga da serenidade. Não foram poucas as críticas à orientação da Resistência em função do lugar que ocupa, dentro do campo Semente no PSOL, garantindo o apoio a Lula, apesar de Alckmin, desde o primeiro turno. Jones Manoel se distinguiu neste afã. Jones é uma nova liderança do PCB que conquistou com mérito uma importante audiência nas redes sociais e se apresenta como pré-candidato ao governo de Pernambuco.

Jones merece respeito e tem a minha admiração. Eu não queria polemizar com ele. Não queria porque as controvérsias sobre a tática eleitoral entre tendências da esquerda radical não deveriam ser nossa prioridade. Afinal, nossos acordos são muito maiores do que as diferenças. Chamar ao voto em Lula no primeiro turno ou no segundo não é senão uma opção tática. O triste e recente cancelamento de Rita Von Hunty deve ser um alerta. Mas Jones insiste tanto em discutir com a Resistência que não posso decepcioná-lo.

Devo ser honesto e começar defendendo Jones. Devo dizer que não tenho acordo nenhum com os quatro principais argumentos esgrimidos contra a decisão do PCB e, também, do PSTU e UP, de apresentarem pré-candidaturas.

Primeiro, a acusação de que, mesmo que involuntariamente, ao disputarem na esquerda votos que poderiam ir para Lula cumprem o papel de linha auxiliar do bolsonarismo: uma denúncia “pesada”. A premissa de que, quem não está conosco, objetivamente, é aliado dos nossos inimigos é falsa. É verdade que as eleições de 2022 estão polarizadas entre Lula e Bolsonaro, mas qualquer pessoa lúcida pode compreender que existem mais do que dois campos. Com esta insinuação absurda não estão ofendendo somente o PCB, PSTU e UP. Estão, também, desafiando a inteligência da sua própria militância, porque estão agredindo a história do PT. O amálgama de uma parcela da oposição radical de esquerda com o bolsonarismo pode parecer, politicamente, eficaz, mas é desonesto. Um mínimo de decência na polêmica de ideias exige reconhecer que eles têm atacado, implacavelmente, Bolsonaro.

Se este critério fosse para ser levado a sério, o PT não poderia ter nascido. Porque o PT surgiu desafiando a liderança do MDB e, portanto, dividindo a unidade das oposições à ditadura. Por este critério, a candidatura de Lula em 1982 contra Montoro e Reynaldo de Barros, homem de Maluf, era ilegítima, porque favorecia a vitória do partido da ditadura. Foi essa a acusação que o PCdoB e o MR-8 fizeram durante quase uma década, nos anos oitenta, ao PT. Paradoxalmente, o próprio PCB que Jones Manoel faz parte, também fazia essa acusação, e, talvez, de forma até mais exaltada.

Segundo, o argumento de que Lula é a liderança de esquerda mais popular merece ser considerado, mas ser maioria não é o bastante para demonstrar quem tem razão em uma polêmica política. Apenas evidencia qual é a candidatura que tem maior apoio. Lula não é infalível.

Terceiro, o argumento de que terão uma votação pequena. Um partido pode sair derrotado, eleitoralmente, e ainda assim obter uma vitória política, se conseguir ser ouvido. Ou o contrário, pode sair derrotado, politicamente, apesar de uma vitória eleitoral. O PT saiu derrotado das urnas em 1989 contra Collor, mas fortalecido. Claro que a escala importa. Uma coisa é ter 10%, como Lula teve em 1982, outra é ter 1% e outra 0,1%. Mas o mais importante é ser escutado, e conquistar respeito, mesmo que pouquíssimos votos.

Quarto, a romantização do passado de vinte anos atrás. O argumento de que os governos do PT foram um período de “resistência” ao neoliberalismo é uma fantasia exagerada, em um debate sério. O eixo central da estratégia neoliberal foi o tripé macroeconômico que Lula preservou dos governos de Fernando Henrique. Até as pedras das calçadas da Avenida Paulista sabem que a política de Palocci foi um “sonho de consumo” da burguesia brasileira. A preservação das metas inflacionárias, do superávit fiscal, e do câmbio flutuante para garantir a segurança da rolagem da dívida pública na mão dos rentistas foi a estratégia central para blindar a governabilidade dos governos de coalizão dirigidos pelo PT.

É verdade que o crescimento entre 2004 e 2008, com uma retomada em 2010, no contexto de uma recuperação do capitalismo mundial, depois da crise de 2000/01, embalado pelo crescimento da China, favoreceu uma redução do desemprego, e esta pressão permitiu uma recuperação do salário médio para os níveis de 1990, antes da posse de Collor. Isto foi positivo? Sim, mas não foi a epopeia da transformação do Brasil em uma sociedade de “classe média”. Não houve reformas progressivas? Sim, houve. Mas, poucas. Reformismo “fraco” é uma conceituação muito benigna. O aumento do salário-mínimo acima da inflação, a elevação do crédito popular com os empréstimos consignados, a expansão do Bolsa Família como política de emergência assistencial, explicam a sensação de alívio depois da degradação das condições de vida pela superinflação dos anos oitenta e a estagnação dos anos noventa. Análises desequilibradas, porque exageradas, são desmentidas, rapidamente, pela evolução da realidade.

Se é assim, então, por que apoiar Lula em 2022, desde o primeiro turno? Por quatro razões fundamentais. Primeiro, porque houve um golpe reacionário em 2016, e o governo Dilma Rousseff foi derrubado, quando a classe dominante decidiu abraçar um projeto estratégico que consiste em uma recolonização do Brasil que só é possível com a imposição de uma derrota social histórica. Em uma palavra: o PT não rompeu com a burguesia, foi o contrário. Ou seja, mesmo um governo moderado tornou-se intolerável. Na sequência, Lula foi preso. E o PCB, Jones, não participou da campanha Lula Livre.

Segundo, porque estamos em uma situação reacionária e, embora a correlação de forças sociais tenha passado por uma inflexão em 2021, ainda não saímos da defensiva. Precisamos derrotar Bolsonaro nas eleições porque não foi possível abrir o caminho do impeachment nas ruas em 2021. A direção do PT não é inocente neste desenlace. A ausência de Lula nas manifestações foi um cálculo consciente. Mas nossas diferenças com o PT, e nossa compreensão muito crítica do papel de Lula, não diminuem a necessidade de golpear juntos o inimigo de classe.

Em terceiro, porque Bolsonaro está no poder, e tem revelado uma surpreendente resiliência, portanto, não é um cadáver insepulto e, embora Lula esteja em primeiro lugar nas pesquisas, a disputa permanece incerta. As pesquisas são somente um indicador, e outras variáveis devem ser consideradas. As pesquisas, no Brasil e no mundo, têm errado previsões. Subestimar a força do bolsonarismo tem sido uma erro crônico e imperdoável.

E quarto, mas não menos importante, porque a relação política de forças importa. Uma maioria esmagadora da classe operária, dos movimentos de mulheres, negro, sindical, estudantil, popular, LGBT, ambiental e indígena apoia Lula e aposta nele para derrotar Bolsonaro, desde o primeiro turno. Uma vitória eleitoral de Lula impactará a relação social de forças de forma favorável aos trabalhadores e a todos os oprimidos.

Nestas condições é indispensável ter sentido das proporções. Candidaturas presidenciais da esquerda radical que estarão condenadas à invisibilidade não agregam, mesmo quando seus discursos sejam justos, não só porque não serão ouvidas, mas porque serão hostilizados.

O mesmo critério de alinhamento crítico com Lula não é válido, necessariamente, para as candidaturas aos governos estaduais, porque, embora as eleições sejam simultâneas, não serão espelhadas, e o PT não é o mesmo que Lula. Portanto, variações táticas são necessárias e a Resistência defende, por exemplo, no triângulo estratégico do Sudeste, candidaturas próprias do PSOL em Minas Gerais e Rio de Janeiro, e apresentou condições em São Paulo.

Em resumo, meu bom Jones, tranquilo, porque nossas diferenças nas eleições são táticas, mesmo você sendo um neoestalinista, e eu um trosko velho.

 

EDITORIAL
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