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O PSOL decidiu apoiar Lula. Por quê?

Foto: Portal lula.com.br

Lula presente na conferência eleitoral do PSOL, realizada no dia 30/04

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.

  Quem diz a verdade, não merece castigo.
Quem exige respeito tem que se dar ao respeito.
Quando um não quer, dois não brigam
Sabedoria popular portuguesa

1. O PSOL confirmou a decisão de chamar ao voto em Lula, desde o primeiro turno, apesar da indicação de Alckmin. As condições da legislação eleitoral impõem que esta campanha se faça através de uma coligação, sob pena de incontornáveis multas e punições severas. Trata-se de uma decisão excepcional. E tem muitos riscos, porque a presença de Alckmin, que representou a classe dominante nos últimos trinta anos, e apoiou o golpe de 2016, sob a alegação de que seria necessário neutralizar o medo de uma esquerda embriagada de revanchismo, sinaliza de forma inequívoca os limites do que será um governo liderado pelo PT.

2. Ao mesmo tempo decidiu que ninguém no PSOL pode negociar cargos em um possível governo Lula, reafirmando que o partido não participa de governos de colaboração de classes e preserva sua independência. O PSOL se apresentará defendendo um programa anticapitalista. Acertou com o PT uma plataforma mínima de doze pontos com medidas de emergência que têm conteúdo transicional como um compromisso básico. Esta localização obedece a um cálculo: Bolsonaro tem que ser derrotado, e não é um cadáver insepulto.

3. O que está em disputa no terreno eleitoral, porque as mobilizações da campanha Fora Bolsonaro, em 2021, não foram grandes o bastante para abrir o caminho do impeachment, é de máxima gravidade. Derrotar a candidatura do neofascismo abre o caminho para um enfrentamento em melhores condições com a extrema-direita. A decisão de não ter candidatura própria, pela primeira vez, não diminuirá o PSOL, mas o engrandecerá diante do melhor da vanguarda ampla do ativismo de esquerda, porque revela responsabilidade na luta contra Bolsonaro.

4. A decisão de uma tática eleitoral para a esquerda precisa se apoiar em uma análise de conjuntura, senão não é tática, é estratégia permanente. Quando a realidade muda, e a situação brasileira mudou depois de 2016, devemos mudar de tática. Estrategizar uma tática é errado, porque a rigidez sacrifica a inteligência política. Há uma ampla variedade de possíveis táticas eleitorais. Análise marxista é um estudo que tem como objetivo a caracterização da relação social de forças. A situação é reacionária ou pré-revolucionária, ou outras, piores ou melhores, e qual é a dinâmica: avançamos ou retrocedemos? Qual é o tipo de regime de dominação? É uma ditadura ou uma democracia liberal? Qual das variantes de regime autoritário ou de democracia eleitoral? Qual é o perigo real e imediato? Como diminuir ou contornar a ameaça de uma derrota, preservar posições ou avançar? O contexto de 2022 é que ainda estamos em uma situação defensiva, depois de cinco anos de acumulação de derrotas, e Bolsonaro abraça uma estratégia golpista que persegue uma degradação bonapartista e autoritária do regime democrático-liberal. Tem que ser detido.

5. Em algumas situações as condições impõem o boicote eleitoral, ou seja, o chamado ao voto nulo. Em outras muito adversas, em que nenhuma organização de esquerda, nem as mais moderadas, tem condições de participação, a indicação de voto em candidatos de oposição é a melhor opção. Em outras o melhor é lançar candidato próprio para ter máxima visibilidade para o programa socialista. Mas há também conjunturas, como agora em 2022, em que se deve sacrificar a autoconstrução, e defender indicação de voto em um partido de esquerda com o qual mantemos diferenças irreconciliáveis, em função de um cálculo político que prioriza a necessidade da derrota de um inimigo comum.

6. Uma tática eleitoral séria deve considerar, também, a relação política de forças, em especial dentro da esquerda. O PSOL lançou Boulos em 2018 quando Bolsonaro venceu, e só chamou ao voto e se engajou com bravura na campanha do PT com Haddad no segundo turno. Qual é a diferença em 2022?  São muitas, mas a principal é que Bolsonaro agora está no poder há três anos e meio. Isso muda “tudo”.

7. Como se avalia a força de uma tendência ou partido? Qual deve ser a régua? Quais são as variáveis? Correntes de esquerda são coletivos que unem militantes em torno de um projeto político. A influência eleitoral e os mandatos conquistas são um indicador, mas não são absolutos. Devem ser consideradas outras variáveis. Qual é a influência de cada partido na classe operária, nas camadas populares, ou entre a juventude, as mulheres, os negros, os LGBTQIA+? Qual é sua implantação nas diferentes regiões do país, a audiência entre intelectuais e artistas, o peso nos sindicatos e movimentos sociais, a capacidade militante? Qual é o grau de autoridade de suas lideranças? Força é algo que está em permanente transformação, cresce ou diminui. Medir é muito importante. O PSOL reconhece que é um partido anticapitalista ainda minoritário na classe trabalhadora.

8. Estudar essa dimensão da relação de forças exige lucidez. Depois de junho de 2013 o PSOL se fortaleceu e, na sequência do golpe que garantiu o impeachment de Dilma Rousseff, o PT enfraqueceu. Mas, os desmandos corruptos do governo Michel Temer e a ofensiva da Lava-Jato que culminou com a prisão de Lula, paradoxalmente, abriram o caminho para uma recuperação do PT. Lula saiu da prisão muito maior do que era antes. Sua campanha será um tsunami nas fábricas e bairros populares das grandes cidades. Aqueles que no PSOL desconsideram esta dinâmica são vítimas de autoengano. Se o PSOL apresentasse uma candidatura no primeiro turno, não poderia escapar a um dramático isolamento na vertigem da marginalidade, mesmo atacando com máxima intensidade Bolsonaro. Uma redução ao papel de “testemunha” não ajudaria ao fortalecimento da esquerda radical. Às vezes, o que parece menos é mais. Uma parcela do povo de esquerda poderá retribuir o gesto do PSOL de apoio a Lula com uma votação expressiva nos candidatos a deputados.

9. O PSOL passou os últimos seis meses dividido entre as duas táticas. Por quê? Porque os dois blocos internos tem balanços diferentes da evolução da situação brasileira desde, pelo menos, 2016. Distintas avaliações do que provocou o impeachment, do lugar do PT ainda como o maior partido da classe trabalhadora, sobre a centralidade da campanha Lula Livre, sobre o significado das derrotas que culminaram com a eleição de Bolsonaro, sobre a permanência ou não de uma situação defensiva, sobre a tática da Frente Única de Esquerda na luta pelo Fora Bolsonaro. Os argumentos esgrimidos contra o apoio a Lula forma de tipo ideológico e políticos. Os ideológicos são aqueles que consideram que o desafio central da época em que vivemos é a disputa entre socialismo ou barbárie, e candidatura própria é incontornável como forma privilegiada de defender uma saída anticapitalista. Ou que o antagonismo central é entre as candidaturas que defendem diferentes versões de regulação do capitalismo e os que defendem a revolução. Ou entre as candidaturas burguesas e a dos trabalhadores. Estes argumentos contêm um grão de verdade, mas quando são absolutizados conduzem a conclusões, irremediavelmente, erradas e doutrinárias. O PSOL não é um partido museu. Deve ser útil na luta política concreta.

10. Os argumentos políticos remetem a uma avaliação de Bolsonaro tão fragilizado que o desfecho será, inevitavelmente, a sua derrota, e o PSOL teria tempo para “fazer a curva” no segundo turno; ou que alertam para o perigo de subestimação da relação de Lula com a burguesia; ou que identificam a existência de uma experiência de superação do lulismo, também, pela esquerda, portanto, o cálculo de que haveria um espaço para uma candidatura própria conseguir respaldo popular; e, por último, o receio que a ausência do PSOL abriria o flanco para candidaturas de ultra-esquerda ocuparem o espaço de esquerda radical. Esses argumentos foram, amplamente, considerados e debatidos, na preparação do Congresso Nacional, apesar das condições da pandemia não permitirem reuniões presenciais. Não conseguiram convencer a maioria. Em função da indicação de Alckmin em novembro surgiu alguma turbulência legítima. Mas esta decisão, ainda não votada pelo PT, não altera, qualitativamente, o significado da candidatura Lula. A estratégia do PT é um giro ao “centro”, ou seja, um projeto de regulação do capitalismo brasileiro, para vencer as eleições e governar. Mas esta conclusão não anula que Lula será o melhor instrumento eleitoral na luta contra Bolsonaro, e não invalida a necessidade de unir forças desde o primeiro turno. A acusação de que o processo de decisão do PSOL não foi democrático não é honesta, e responde a um fracionalismo febril. Encerrada a Conferência Nacional o PSOL deve se unificar.