Pular para o conteúdo
Colunas

Defender o PSOL até de si mesmo

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

A calma é a virtude dos fortes
A isca é que engana e não o pescador que tem a cana
A honestidade é a melhor política
(Sabedoria popular portuguesa)

O PSOL deverá confirmar em sua Conferência Eleitoral, no final de abril, o chamado ao voto em Lula, apesar de Alckmin, e a integração na coligação ao lado do PT. Apoiar Lula contra Bolsonaro é uma decisão tática, em função do perigo que representa a corrente neofascista, no contexto da atual relação de forças sociais e políticas.

A Conferência deve confirmar, também, que este alinhamento não sinaliza uma disposição de participação em um possível governo do PT, previsivelmente, de colaboração de classes. Esta localização mantém a coerência de uma linha que prevaleceu, desde o golpe institucional de 2016 que derrubou Dilma Rousseff.

O PSOL de 2022 já tem audiência de massas em alguns setores, portanto, grandes responsabilidades. Deve priorizar a luta para derrotar Bolsonaro ao lado do PT. Ao mesmo tempo, preservar sua independência diante de um possível governo liderado por Lula, para o que der e vier. Mas estas resoluções não serão um “parto sem dor”. Vai ser com muita “emoção”.

A renúncia à apresentação de uma candidatura própria é, evidentemente, um sacrifício para o PSOL porque diminui a sua presença. Nada oferece mais visibilidade para um partido junto às massas do que apresentar uma candidatura.

Mas não impede a defesa do seu próprio programa de emergência como a revogação do teto de gastos, da autonomia do Banco Central e das contrarreformas previdenciária e trabalhista; a taxação das grandes fortunas e impostos progressivos; o aumento emergencial do salário-mínimo, a redução da jornada de trabalho e obras públicas para combater o desemprego; a luta contra as privatizações, a defesa da Petrobras e da transição energética; a defesa da Amazônia e dos direitos dos povos indígenas; o fim da guerra às drogas e do encarceramento em massa, o direito ao aborto livre e gratuito, a defesa dos direitos dos LGBTQIA+, entre muitas outras medidas.

A defesa dos 12 pontos e a apresentação da plataforma “Direito ao Futuro” foram dois momentos desta disputa. Mas deve ser permanente, durante a campanha eleitoral, a independência política do PSOL.

Partidos de esquerda em um país como o Brasil vivem, permanentemente, distintos perigos. Nunca é simples identificar, em cada situação, qual é a pressão mais perigosa. O maior perigo que o PSOL vive, neste momento, não é a defesa de sua legalidade, que depende do desafio de superar a cláusula de barreira e a eleição de no mínimo 11 deputados federais e uma votação de, pelo menos, 2% para a Câmara de Deputados, o que não é pouco. O maior perigo é uma crise orgânica na véspera da campanha eleitoral. Mas não deve ser dramatizada.

Nenhum partido de esquerda minoritário é imune a pressões sociais e políticas. Elas exercem permanente tensionamento. Algumas pressões sociais vêm da hostilidade da classe dominante. Outras vêm dos humores das camadas médias. Mas mesmo a classe trabalhadora é heterogênea. As pressões políticas vêm dos outros partidos.

Aqueles que estão mais próximos exercem mais pressão. O PSOL é um embrião valioso. Merece ser defendido. Sendo um partido de esquerda socialista amplo, o PSOL acolhe no seu interior diferentes correntes que têm raízes históricas em diversas tradições. Não poderia não ser heterogêneo e plural. O passado dos últimos cento e cinquenta anos de experiências nacionais e internacionais na esquerda deixou incontáveis lições para a luta pelo socialismo no século XXI. Não seria razoável, na verdade, seria ultimatismo ter a expectativa de concordância sobre todas elas.

O que pode abrir caminho para a construção de uma maioria legítima são acordos em torno de resoluções políticas. Isso exigiu lucidez nos últimos anos e deve ser preservado.

Mas um campo importante no PSOL, que organiza um pouco mais de 40% dos delegados e se apresenta como Bloco de Esquerda, recusa o apoio a Lula, e defende a apresentação de candidatura própria à presidência e aos governos estaduais no primeiro turno de 2022. Há, portanto, duas posições opostas e, potencialmente, ameaçam uma paralisia.

O campo Semente está de acordo com a Primavera e a Revolução Solidária em aprovar o apoio a Lula, apesar de Alckmin. Defende, também, a partir de sua localização no PTL, a aliança PSOL de Todas as Lutas, uma resolução construída com o maior consenso possível, que não autoriza negociação de cargos em um possível governo Lula, garantindo a independência do partido.

Uma dispersão do PSOL seria um desastre para o partido, e teria graves consequências para a esquerda mais combativa em todos os movimentos sociais. O PSOL, a despeito de suas diversas limitações, se confirmou como um instrumento político e eleitoral útil para impulsionar a luta de massas.

A decisão polêmica de formar uma Federação com a Rede Sustentabilidade foi um revés para a preservação de seu perfil de classe independente. Mas, felizmente, não parece existir um perigo “real e imediato” de divisões sérias pela decisão tática de apoio critico à candidatura já no primeiro turno. A reorganização da esquerda brasileira se dará, como sempre foi na história, através de unificações, mas também, fraturas. E exigirá confiança, esperança e paciência.

Não há solução negociada que possa evitar a luta política, mas é possível evitar que este impasse tenha como desenlace uma crise explosiva do PSOL. Para isso é necessário que aqueles que defendem a candidatura própria reconheçam que há uma maioria legítima pelo apoio a Lula. E que a independência diante de um possível governo Lula será afirmada.

Estas duas decisões preservam o lugar do PSOL e sua unidade, embora deixe o campo de correntes em oposição interna, parcialmente, contrariado. Uma divisão do PSOL seria, no entanto, muito pior. A evolução da situação brasileira é ainda incerta. Bolsonaro não é um cadáver “insepulto”.

Se Lula vencer as eleições a situação será, qualitativamente, diferente. Surgirão tensões incontornáveis em todos os movimentos sociais. O ano de 2023 será distinto de 2003, porque o espaço político para pressionar por empregos, elevação dos salários, moradia popular, transporte público, verbas para educação e saúde, defesa da Amazônia e terras indígenas, aborto livre e gratuito, fim da guerra ás drogas, e tanto mais, será maior. A audiência do PSOL se tiver serenidade e habilidade, será, provavelmente, maior. Mas, para isso, ele precisa se preservar.

A luta política se desenvolve com momentos mais agudos e outros menos intensos. Não é possível uma existência sem conflitos. Há sempre lutas frontais, laterais e na retaguarda. Elas são diferentes, mas, infelizmente, inescapáveis. A luta frontal deve ser feita contra os inimigos de classe. A luta lateral é feita entre os partidos de esquerda que ambicionam, competindo uns com os outros, a representação dos explorados e oprimidos.

A luta na retaguarda é a luta interna dentro de cada partido. Ser militante é duro porque são três terrenos distintos, mas todos consomem energia e tempo. Não é possível deixar de desenvolver, às vezes até, simultaneamente, a luta nos três terrenos. Mas devem ter importância diferenciada. Não se pode lutar com a mesma intensidade em todas as frentes ao mesmo tempo. Não é possível, porque nossas energias são escassas e limitadas. Há que fazer escolhas.

Priorizar uma dos terrenos exige secundarizar os outros A definição da importância relativa de cada disputa em cada momento é um dos desafios mais difíceis da inteligência política. Depende muito das situações e conjunturas. Mas depende, também, do peso e responsabilidade de cada corrente e das lideranças. O PSOL é um partido de esquerda minoritário, quando considerada a escala nacional, mas conquistou influência de massas em alguns setores. Deve ser defendido, até de si próprio.

Marcado como:
eleições 2022 / psol