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Medida Provisória: distopia ou prelúdio?

Divulgação

Parangolé

Felipe Nunes  é ativista social, cantautor, poeta, artista gráfico, antropológo e historiador e doutorando em Antropologia Social pela UFRN. Desenvolve pesquisa relacionada à constituição da identidade, subjetividade, negritude, etnomusicologia, construção das tradições, arte e cultura, entre outros temas. Tem se dedicado a pesquisa de sonoridades afro-ameríndias no Brasil e América Latina. Realizou pesquisas musicais em cinco cidades cubanas, trocando experiência e coletando sonoridades dos artistas locais. Escreve ao Esquerda Online sobre temas relacionados a produção artística no Brasil e no mundo.

A palavra distopia deriva de duas palavras gregas, dus (“δυσ-”), significando “ruim”, “anormal” e topos (“τόπος”), expressando a ideia de “lugar”. Fato é que o exercício de imaginar mundos possíveis é uma prática antiga, no mundo ocidental por exemplo, possivelmente Platão seja a figura mais mencionada enquanto um dos precursores da reflexão em torno do termo. Posteriormente, autores como Thomas Moore, H.G. Wells, Aldous Huxley, George Orwell, Marge Piercy, Margaret Atwood, Octavia Butler, Ray Bradbury, Yevgeny Zamyatin, dentre outros, consagraram este exercício de projetar possibilidades de futuro. O contexto latino-americano carrega uma particularidade, como nos lembra o escritor cubano Alejo Carpentier, pelo fato da realidade estar sempre a desafiar a ficção, obras como “Os Tambores Silenciosos” de Josué Guimarães e a “Cem Anos de Solidão” de Gabriel García Márquez, para ficar nestes dois exemplos, representam perfeitamente a linha tênue existente entre o mundo ficcional e a realidade no universo latinoamericano. O inimaginável de décadas atrás, inúmeras vezes, transformou-se em realidade aos nossos olhos.

O cinema também é um farto lugar de produções distópicas, e aqui cito apenas alguns para ilustrar, “Metrópolis” de Fritz Lang, “2001: uma odisseia no espaço de Stanley Kubrick”, e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” de Glauber Rocha. Os exemplos citados podem gerar alguma dúvida ao pensar em termos de categorização dos gêneros, afinal, existe um condicionamento recorrente em associar o exercício da imaginação distópica a um futuro distante. Contudo, retomo a provocação de Carpentier, dada a dramática singularidade dos acontecimentos, a realidade tende a tensionar continuamente a ficção. Fato é que cada vez mais se embaraçam as balizas de categorização entre utopia, distopia, realismo fantástico e o mundo real.

Através da medida provisória 1888, o governo brasileiro pretende colocar em prática um antigo desejo e tornar o Brasil totalmente branco.

Feita toda essa divagação, chegamos a “Medida Provisória”, filme do diretor estreante e consagrado ator Lázaro Ramos. O filme propõe o exercício de imaginação distópica, ao representar um Brasil em algum lugar do futuro onde a população negra é expulsa do país e levada “de volta” pra África como forma de reparação histórica pelos efeitos provocados pela escravidão. Através da medida provisória 1888, o governo brasileiro pretende colocar em prática um antigo desejo e tornar o Brasil totalmente branco. Lembremos, agora se trata de realidade histórica, somos o país que produziu um projeto governamental de branqueamento da população no final do século XIX, início do século XX. Repito, isso não é ficção. Voltemos. O filme causa essa impressão, enquanto relato distópico apresenta uma hipótese provável, todavia, a dramática singularidade da história brasileira nos leva a estabelecer diversos paralelos com fatos verossímeis. A fronteira entre ficção e realidade é constantemente demolida ao longo do filme e Lázaro não precisou colocar personagens com discursos densos para alcançar tal objetivo, ademais, o Brasil de 2022, ano de lançamento da obra, contribuiu ainda mais para embaraçar essas fronteiras. A medida provisória anunciada como solução de reparação no filme, aparece como um favorecimento, ato de generosidade do governo para toda a população de melanina acentuada (como são classificados na película toda a população afro-brasileira). Eis uma das artimanhas do colonialismo, como bem classifica a ativista e socióloga Silvia Rivera Cusicanqui, utilizar as palavras não para designar, mas encobrir. E durante todo o filme vemos este movimento, desde a medida mais explícita como a expulsão até os gestos e palavras do cotidiano do racismo “velado”.

O filme explora, creio que de forma intencional, diversas frases de efeitos, ao mesmo tempo em que desenvolve uma trama bem humorada para narrar a cronologia dos fatos. A arte é sublime porque possibilita uma multiplicidade de mecanismos para atingir o sentimento do público. O filme de Lázaro Ramos não está preocupado em discorrer longos tratados sobre o racismo estrutural, a inquietação recai sobre outros terrenos. O investimento está direcionado na simplicidade, na provocação explícita de nos fazer questionar as fronteiras entre realidade e distopia. Afinal, até onde estamos distantes da narrativa proposta pelo filme? Ficcionar é uma tentativa de estabelecer pontes, diálogos, desatar meditações profundas sobre o real e o supra-real. Medida Provisória é um filme preocupado em arremessar perguntas sobre o presente, ao mesmo tempo em que afunda as mãos sobre a terra para buscar as sementes do orgulho negro plantadas pelo Movimento Negro Unificado em 1978. Como canta o rapper Emicida, um dos atores do filme, “Não tem dor que perdurará / Nem o teu ódio perturbará / A missão é recuperar / Cooperar e empoderar”.