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Colunas

Lula contra Bolsonaro, apesar de Alckmin

Lula é abraçado e posa com sindicalistas. Ao lado, no canto, Alckmin
Roberto Parizotti

Lula e Alckmin, no Encontro com Sindicalistas

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Um ato de firmeza pode valer pela experiência de uma vida.
Sabedoria popular judaica

Águas passadas, não movem moinhos.
Sabedoria popular portuguesa

A chapa Lula/Alckmin será, muito provavelmente, aprovada no Encontro Nacional do PT, em junho, apesar da justa luta interna daqueles que não concordam que a tática da Frente Ampla seja a melhor, em qualquer sentido. Mas daí a considerar que o carrasco do Pinheirinho passou a ser um companheiro, porque saiu do PSDB e entrou no PSB, é demais.

O fato é que não haverá Frente de Esquerda nestas eleições. A escolha de Alckmin como vice é uma ponte e define uma disposição de relação articulada com a classe dominante, mesmo que não haja ainda um setor dos grandes capitalistas engajado na campanha. Alckmin é muito mais que a sombra da burguesia. Há que dizer as coisas como são. Trata-se de um desfecho muito ruim.

Mas, mais do que nunca, é preciso compreender que os ritmos da história podem ser cruéis. Estes anos terríveis, desde o impeachment de 2016, nos colocaram à prova: sem desmoralizar, e sem desesperar. Exigiram e nos desafiam a travar o combate da hora. Isso significa defender com firmeza o voto na candidatura de Lula, criticando Alckmin, mas priorizando, sem qualquer hesitação, a luta contra Bolsonaro.

Não há nenhuma questão de princípios colocada na indicação de voto em Lula, no primeiro turno, mesmo com Alckmin. Um voto em Lula não significa apoio político ao programa eleitoral da candidatura Lula/Alckmin. Significa um voto contra Bolsonaro.

É verdade que se trata de uma decisão difícil, porque o PT esteve à frente do governo nacional por 13 anos. Mas é verdade, também, que a burguesia se unificou para derrubar Dilma Rousseff em 2016 e, em 2018, a extrema-direita venceu as eleições, e mantém posições fortes.

A decisão de chamar ao voto em Lula repousa, essencialmente, na avaliação tática de que, considerando a relação política de forças, não será possível uma candidatura própria do PSOL. Diante da polarização já consolidada que antecipa para o primeiro turno a disputa de um possível segundo turno, uma candidatura do PSOL correria o risco de ser interpretada por uma parcela do melhor da vanguarda popular como um obstáculo, quando está colocada a necessidade de derrotar Bolsonaro.

As lições do primeiro turno da eleição presidencial francesa são um alerta: os votos das candidaturas de esquerda foram muito superiores à diferença entre Melenchon e Marine Le Pen. Melenchon esteve muito perto de chegar ao segundo turno para enfrentar Macron, deslocando Le Pen. No Brasil, a corrente neofascista já está na presidência, mas existe a possibilidade, mesmo se difícil, de Lula derrotar Bolsonaro ainda no primeiro turno. O papel da esquerda socialista é ser útil na luta contra o neofascista.

O desenlace da indicação de Alckmin como vice de Lula não invalida a luta que foi feita, contra a corrente, por uma Frente de Esquerda. Nem diminui, tampouco, a relevância da disputa que foi feita, dentro e exterior ao PT, por uma chapa de independência de classe com um programa de reformas estruturais e impulso anticapitalista.

Era, evidentemente, previsível que Lula e a maioria da direção do PT iriam até o fim oferecendo à classe dominante uma sinalização através do compromisso com Alckmin. No entanto, há lutas que devem ser travadas, mesmo sem possibilidade de vencer. A dificuldade não podia anular a necessidade de uma luta pública contra Alckmin, mesmo se inglória, porque tinha um papel educativo.

Não será sequer, infelizmente, uma chapa de ruptura com os ajustes neoliberais. É triste, mas entre as massas populares e, até mesmo nos setores, politicamente, mais ativos dos trabalhadores e jovens a indicação de Alckmin não despertou um grande mal-estar. Essa constatação somente confirma o quanto recuou a consciência de classe nos últimos anos. As expectativas que prevalecem são muito pequenas. O estado de espírito é que para derrotar, eleitoralmente, Bolsonaro, vale tudo.

Isso não deve nos surpreender. Em situações defensivas, em que as pressões sociais hostis são imensas, os núcleos marxistas estão à “esquerda” das suas bases, e os ativistas de vanguarda estão à “esquerda” das massas. Quando reina o ceticismo no senso comum, a ideia dominante é que não é possível fazer grandes mudanças. Mesmo com a inflexão positiva desde meados de 2021, quando se deslocou uma maioria social para a oposição a Bolsonaro, ainda é preciso ousadia para marchar contra-a-corrente das imensas ilusões.

E manter a confiança de que os trabalhadores irão se levantar, novamente, até com disposição revolucionária como já fizeram no passado, ou seja, valorizar a firmeza ideológica. Quando virá essa grande onda? Ninguém pode responder por antecipação. Não há “sismógrafos” infalíveis de situações revolucionárias. O que a história sugere é que são necessárias vitórias políticas de grande impacto para que as massas populares recuperem a confiança em si próprias.

Por isso, abrir o caminho para a derrota de Bolsonaro tem tanta importância. A questão, portanto, é ajudarmos a experiência dos setores mais lúcidos, ou mais decididos, de tal maneira que a relação de forças se altere de maneira favorável o mais rapidamente possível. Esse imperativo exige chamar ao voto em Lula.

Nesse processo a luta política no interior da esquerda ficará, provavelmente, mais áspera, mais ríspida, mais intensa do que antes. As relações entre organizações políticas rivais não podem ser idealizadas. Não podem ser, indefinidamente, harmoniosas, já que todas as classes são socialmente heterogêneas, incluindo o proletariado, e a disputa pela direção é um processo exasperado. Podem, contudo, ser respeitosas. O respeito se define pela disputa em torno das ideias. Desrespeitosas são quando se afastam da crítica dos argumentos, e degeneram em insultos que ofendem as pessoas.

O movimento dos trabalhadores nos últimos 150 anos, à escala internacional, embora menos heterogêneo que outros movimentos sociais esteve dividido, grosso modo, em três grandes correntes históricas: a reformista, a centrista e a revolucionária. É inevitável que haja uma luta dura entre estes três campos políticos, ainda que as forças mais importantes da esquerda brasileira compreendam a necessidade de chamar ao voto em Lula contra Bolsonaro nas eleições.

Hoje eles se definem em função de uma questão, essencialmente, programática. Os reformistas, em maioria no PT, apoiam a chapa Lula/Alckmin e estão dispostos a assumir cargos lado a lado de possíveis ministros que garantam a confiança da burguesia. Os revolucionários estão dispostos a convocar o voto em Lula, alguns desde o primeiro turno, outros somente em um provável segundo turno, mas não aceitam participação em um governo de colaboração de classes. Os que estão no meio do caminho são centristas.

Se existe um padrão regular e recorrente na história da esquerda mundial é o que nos ensina que, em situações defensivas, a tendência moderada, portanto, foi sempre esmagadora maioria. Nessas circunstancias, o centrismo oscila, erraticamente, no terreno da tática, às vezes na órbita de atração do reformismo, enquanto as posições revolucionárias estão condenadas a ser uma minoria. Só em situações revolucionárias as ideias anticapitalistas podem conquistar maioria, porque somente diante de uma profunda desmoralização burguesa, de divisão da classe média, e de disposição revolucionária de luta dos trabalhadores a perspectiva do poder é visível, politicamente, por milhões.

Sabemos, também, como este processo de isolamento pode conduzir, involuntariamente, a um “exílio social” dos revolucionários. Quando a massa dos trabalhadores perde a confiança em suas próprias forças, e o encantamento com projetos reformistas transborda em embriaguez, resistir às pressões de adaptação política não é fácil. Um dos efeitos simétricos é a rigidez ultra-esquerdista.

O afastamento dos grandes fluxos de opinião majoritários entre os trabalhadores favorece pressões doutrinárias e, na margem, até “patologias” sectárias. Os “nomadismos” intelectuais, as “diásporas” políticas e os reflexos “antropofágicos” são consequências.

*Texto publicado originalmente na revista Fórum.