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Colunas

O deputado e as mulheres do fim do mundo

Arthur Val fala com a imprensa no aeroporto de Guarulhos, SP

Veronica Freitas

Veronica Tavares de Freitas é socióloga e militante socialista, integra a Resistência, a Resistência Feminista e o PSOL (RJ). Formada pela UFRJ, faz doutorado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP.

Recentemente o parlamentar de extrema direita conhecido como “Mamãe falei” se deslocou ao território atingido pela guerra da Rússia contra a Ucrânia, e diante do cenário calamitoso afirmou que as mulheres ucranianas seriam “fáceis”, por serem pobres. Depois da repercussão negativa, o deputado se desculpou afirmando que “estava empolgado”.  Falava de mulheres desesperadas pela guerra, na condição de refugiadas, e apontou para o turismo sexual como uma forma de se aproveitar da miséria humana. Empolgou-se, portanto, com o fato de poder submeter outra pessoa pela condição de tragédia em que se encontra, com objetivo de transformar esse sujeito hipotético em um ser de segunda categoria, em condição inferior à sua. Na situação de sacrifício e sofrimento, o deputado enxergou uma forma de ampliar o seu prazer. 

Essa fala transborda o ódio contra a mulher, usado pela extrema direita como pauta permanente, como forma de precarização de todos os trabalhadores e imposição de um moralismo reacionário. Não à toa, na tentativa de golpe contra Evo Morales em 2019, uma prefeita da Bolívia, María Patricia Arce Guzman, foi humilhada publicamente, com os cabelos cortados, o corpo pintado e obrigada a andar descalça por vários quarteirões pela multidão que a escrachava. O militarismo religioso que tentava assumir o poder usava a violência contra uma mulher como expressão de sua força.

Por sua vez, Jair Bolsonaro já deu inúmeras declarações no sentido de colocar as mulheres como um ser de segunda categoria. Ao falar sobre sua própria família, afirmou que todos seus filhos eram homens e apenas a última mulher, por ocasião de uma “fraquejada”. Em sua trajetória, se uniu ao fundamentalismo religioso na afirmação cega da necessidade da submissão da mulher ao homem, como um ser incompleto, fraco, menos merecedor. E assim executa sua política de morte, com retrocessos profundos na realidade brasileira, com o crescimento da fome, da perseguição política, da pobreza, do desmatamento. 

O ódio que transborda dessas declarações revela uma sociedade doente. As mulheres são maioria da população no Brasil e no mundo, maioria da classe trabalhadora, e as engrenagens do capitalismo usam essa imposição de inferioridade como uma forma de rebaixar as condições de toda a classe. Essas estruturas patriarcais possibilitam o funcionamento da sociedade moderna, com a garantia da herança, do trabalho doméstico cotidiano, do cuidado com os filhos e os idosos. No contexto de submissão, todo o trabalho não pago e não reconhecido das mulheres faz com que o Estado (e a coletividade) não precise se onerar com a alimentação da população, lavanderias públicas, cuidados, enfim, a reprodução da vida. 

Essa situação é insuportável. Mesmo em canais onde a preocupação com uma boa imagem vem em primeiro lugar, como é o caso do famigerado BBB, a adoração dos homens entre si e a tentativa constante de secundarização das mulheres é a tônica das manhãs e noites, que se arrastam num festival de opressões. No entanto, sabemos que somos muitas, que na verdade somos a maioria. Sem nós a humanidade não é possível, e juntas nos fortalecemos e nos insurgimos contra os absurdos do patriarcado.  

8M: Nos passos das nossas referências

Aquelas que vieram antes de nós são importantes inspirações nessa caminhada. Elza Soares e sua força de gigante é uma referência divina, com as músicas que falam da realidade da maioria. Ela nos ensina a importância de ser e até o fim cantar. María Patricia Arce Guzman, aquela que foi agredida pelos reacionários da Bolívia, agora é Senadora por Cochabamba, eleita em 2020. Sua força nos inspira a seguir construindo no hoje o mundo que queremos, com o acúmulo revolucionário que é nossa única alternativa de sobrevivência coletiva.   

Da mesma forma, Marielle Franco ecoa nesse dia, como feminista, como mulher de resistência que se levantou contra as injustiças sociais e apostou em um projeto partidário como forma de transformação da realidade. Como diz a palavra de ordem: “companheira me ajude, que eu não posso andar só; eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor”. Viva a nossa força! 

Vamos para as ruas em mais um 08 de março. Essa data é fundamental na nossa história, originária da mobilização de mulheres comunistas por todo o mundo. Não queremos rosas e bajulações nesse dia, queremos unir nossas vozes pelo nosso presente e nosso futuro.

Cassação ja!

Assine o abaixo assinado da Bancada Feminista do PSOL que pede a cassação imediata do mandato do deputado estadual Arthur do Val, o Mamãe Falei, do MBL: https://bit.ly/34h8Qod