Pular para o conteúdo
MUNDO

Reflexões preliminares de método – a quem precisamos defender

Virgínia Fontes
Foto noturna, mostra uma nuvem de fumaça ao longe iluminada por uma explosão do lado direito.
Reuters

1. Vivemos tempos de muitas opiniões, de excesso de informes e escassez de informações confiáveis. Informações confiáveis não são as que parecem “neutras” ou assim se pretendem, mas as que explicitam suas posições e as debatem com franqueza. Mais do que opiniões e posições de divulgação, precisamos estudar e socializar esses conhecimentos, por mais difíceis e complexos que pareçam. Supor que as massas são incapazes é uma das maiores fraquezas dos bem intencionados (aqueles dos quais o inferno está cheio).

2. As esquerdas marxistas são pequenas e divididas. Sua posição hoje, no mundo e no Brasil contemporâneos, tem pouco peso no conjunto da opinião. Em parte pois desconfiamos da capacidade popular de compreender os processos históricos complexos e aderimos à prática de opinar muitas vezes de maneira acelerada, para marcar posição. A maior razão do nosso pouco peso na opinião, entretanto, é a massa de meios de comunicação que nos sufoca diariamente mas que, de tempos em tempos, recolhe nossas “opiniões” para desacreditá-las, quaisquer que sejam. E, finalmente, por adotarmos comportamentos e leituras pragmáticas, ligados a uma realpolitik que só causa danos às massas trabalhadoras.

3. O foco da luta revolucionária contra o capitalismo é contribuir para tornar claro para massas trabalhadoras a cada dia mais heterogêneas que – ainda que muitos o neguem – são elas que criam toda a riqueza. A pandemia mostrou isso à farta. Capital fictício não cria riqueza, cria apenas dívida, expropriação, piores condições de trabalho para as grandes massas, roubo dos fundos públicos, devastação ambiental. O Capital, como o conjunto de suas formas (industrial, comercial, bancário, financeiro, fictício) é um imenso parasita que devora as entranhas de massas enormes de trabalhadores, desigualmente tratados, mas todos explorados e oprimidos.

4. O risco de não fazê-lo é contribuir para o avanço de fascismos de variadas procedências. O fascismo é um clássico falsificador das lutas populares.

5. Nessa guerra que envolve imediatamente Ucrânia, RússIa e OTAN (isto é, EUA prepotente e em crise, e Europa submissa), nossas considerações não devem começar pela geopolítica, mas pela análise das condições das classes trabalhadoras lançadas a uma carnificina. Precisamos contribuir com elas para desvendar as posições de suas classes dominantes, para que possam romper o espesso véu da desinformação.

6. A defesa da democracia envolve defender posições conquistadas, como os direitos que vêm sendo extorquidos, mas exige criticar o horror que supostas “democracias” congeladas, abertamente em curso de fascistização, vêm impondo às massas trabalhadoras. Quaisquer que sejam sua cor de pele, sua origem nacional e seu sotaque. Só existe democracia se as massas e classes trabalhadoras puderem se organizar e assegurar sua luta primordial em direção à superação do capital. Democracias que bloqueiam as lutas e esterilizam o socialismo não são democracias…

7. Ou há soberania popular e de classe, ou continuaremos a viver sob “países títeres”.

8. Podemos e devemos tomar posição. Mas sabemos que na atualidade a pressa nos coloca no terreno geopolítico, e ele é mau conselheiro, por tomar os países em “bloco” e desconsiderar as relações de classes. Parece-me mais correto expor claramente as questões e as contradições em curso.

 

Esse artigo representa as posições da autora e não necessariamente as do portal Esquerda Online. Somos uma publicação aberta ao debates e polêmicas da esquerda socialista.