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Colunas

Aflições revolucionárias

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

  1. O ano de 2022 começou muito mal. Existe alguma ansiedade nas fileiras dos setores de vanguarda mais radicalizada nos movimentos sociais. Amargura, angústia e aflição aumentaram diante da extrema lentidão da luta contra o neofascista. Muito compreensível este desgosto, se consideramos o desastre que se aprofunda, dia após dia, impunemente: (a) o impacto da terceira onda da pandemia com a disparada de contágios e mortes provocados pela variante omicron; (b) as tragédias sociais precipitadas pelas previsíveis tempestades de verão na Bahia, Minas, São Paulo e agora Petrópolis, superando os 200 mortos; (c) a sucessão ininterrupta de episódios de violência racista, machista e homofóbica; (d) o empobrecimento vertiginoso acelerado pela inflação, e a permanência de um desemprego ainda muito elevado; (e) a degradação ambiental com a devastação poluidora da mineração que contaminou as praias Alter do Chão no Pará, etc…

  2. A maioria da militância da esquerda brasileira é de jovens. A história foi cruel para esta nova geração. O impulso progressivo que levou a juventude às ruas nas jornadas de junho de 2013, ainda que confuso e muito disputado, se esgotou em fevereiro de 2014. A crise econômico-social aberta entre 2015/16 não despertou disposição de luta entre os trabalhadores, e a situação não evoluiu na direção de uma situação pré-revolucionária, mas o seu contrário. A relação de forças entre as classes se inverteu, dramaticamente, com o deslocamento para a extrema-direita da maioria das camadas médias, arrastando setores operários e populares.

  1. Depois de treze anos de governos de colaboração de classes liderados pelo PT, sofremos um golpe institucional em 2016, e a posse de Temer abriu o caminho para a ascensão de Bolsonaro. Estamos há cinco anos em uma situação reacionária. Muito tempo para quem começou o ativismo há dez anos ou até menos. E o horizonte mais otimista que se desenha é uma vitória de Lula. O limite político-histórico do desenlace será um retorno do PT à frente de um governo de colaboração de classes estabilizando o regime democrático-eleitoral contra a ameaça golpista bonapartista de Bolsonaro.
  2. É compreensível que entre os ativistas mais abnegados haja algum desalento e frustração com a lentidão do processo no Brasil, em especial, quando em comparação com o Chile e Bolívia, Peru e Equador, ou mesmo Argentina. Mas este desgosto, e as limitações da esquerda brasileira, não deve desanimar ninguém. Com Bolsonaro, a crise econômico-social agravou de forma vertiginosa, e o cataclismo da pandemia ceifou mais de 640.000 vidas, mas não foram suficientes para impulsionar a entrada em cena de milhões para a derrubada do governo em 2021, por variadas razões. Lula se recusou a ir ás ruas, e as sequelas subjetivas das derrotas acumuladas deixaram feridas abertas na consciência dos setores mais organizados. Mas não há atalhos na luta de classes. O mal estar com a imobilidade dos sindicatos, a apatia ou acomodação maior ou menor das organizações mais tradicionais, ou o eleitoralismo dos partidos de esquerda cresceu entre os jovens mais combativos. Mas a expectativa de que estamos de algum modo sempre nas vésperas de uma explosão de fúria dos setores mais sofridos do povo que possa ser um gatilho da entrada em cena da classe trabalhadora é, essencialmente, uma ilusão, alimentada pelo desejo. Ilusões revolucionárias são a antessala do autoengano. Como a história nos ensinou, amargamente, depois de 1968, quando o melhor da vanguarda abraçou uma tática ultraesquerdista, descolar do movimento real das amplas massas conduz as forças mais combativas para um beco sem saída.

  3. Desde o ano passado, sob o impacto da experiência catastrófica da gestão negacionista da pandemia, finalmente, uma inflexão da conjuntura veio gerando uma maioria social contra o governo. Mas as mobilizações da campanha Fora Bolsonaro foram insuficientes, por variados fatores, para conquistar o impeachment do neofascista, alimentando frustração na vanguarda que saiu às ruas. A ausência dos grandes batalhões da classe trabalhadora nas ruas alimenta frustração. Ainda prevalece na classe operária a insegurança e o medo pelo temor do desemprego, ou a hesitação e dúvida pela falta de confiança em si própria. Mas assim como é errada a idealização da capacidade de luta dos trabalhadores, é muito perigosa, também, a desesperança sobre seu papel no destino da luta socialista. A luta política tem os seus tempos. 2016 não foi uma derrota histórica. Não serão necessárias décadas para que a classe trabalhadora se coloque em movimento. A vanguarda dos movimentos sociais não deve desesperar, por impaciência.

  4. Mas a irritação e impaciência cresceram na militância de esquerda mais combativa. Temos boas razões para o legítimo descontentamento. Fazemos Atos contra as brutalidades da barbárie social, reunindo alguns milhares. Organizamos campanhas de solidariedade para atenuar o sofrimento das vítimas, arrecadando doações. Mas, prevalece uma sensação de impotência. Afinal, depois de três anos do pesadelo e ruína provocados pelo governo Bolsonaro, e apesar das mobilizações entre maio e novembro do ano de 2021, a medição de forças com a extrema-direita será feita, tardiamente, na campanha eleitoral que terá desenlace somente em outubro. E serão eleições plebiscitárias que anteciparão para o primeiro turno a disputa do segundo, entre Lula e Bolsonaro. A necessidade de derrotar Bolsonaro é uma emergência tão poderosa, e o tsunami de apoio a Lula é uma onda tão gigantesca que, praticamente, anularam a possibilidade de audiência e espaço para a apresentação de uma candidatura de esquerda anticapitalista.

  5. Respeitar os limites impostos pela relação política de forças não é acomodação tática, mas inteligência política. Não se pode lutar contra tudo e contra todos ao mesmo tempo. Luta política séria exige cálculo. Não se pode lutar contra Bolsonaro e, ao mesmo tempo, antecipar a luta de oposição de esquerda a um possível e futuro governo Lula em 2023. Ainda assim, três candidaturas revolucionárias já foram apresentadas pelo PSTU, PCB e UP: Vera Lúcia, Sofia Manzano e Leo Péricles. Merecem respeito pelo compromisso na construção de suas organizações. Mas é inevitável que desenvolvam suas campanhas em círculos muito restritos. Não há por que duvidar que irão denunciar Bolsonaro, implacavelmente, mas não poderão de expor suas visões críticas sobre Lula, o que é, também, justo. Na beira do abismo da marginalidade serão invisíveis. O perigo incontornável desta opção tática é se verem reduzidos a candidaturas testemunhais, comentadoras da luta política real. A esquerda marxista não deveria se resignar ao papel de “partidos-museu”.

  6. O PSOL irá decidir seu posicionamento tático diante das eleições presidenciais em uma Conferência Nacional. De acordo com a decisão do Congresso de 2021, apresentou uma plataforma de doze medidas de emergência para discussão com o PT e PCdB, e tem alertado que discorda da indicação de Geraldo Alckmin como vice de Lula. O Psol quer ser útil à luta por um governo de esquerda. Esta orientação obedece a uma interpretação da relação social de forças na sociedade. A tática da Frente Única de Esquerda responde à maior prioridade: a necessidade de derrotar Bolsonaro. Mas considera, também, que o espaço político mínimo para a apresentação de uma candidatura própria do PSol no primeiro turno, ao contrário de 2018, diminuiu muito. O Psol votou, também, em seu Congresso que não integrará nenhum governo de esquerda com partidos de direita, preservando a defesa da independência política de classe. Flexibilidade tática e firmeza nos princípios, um leninismo para o século XXI. Confiança na classe trabalhadora e muita paciência. Temos um encontro marcado com a revolução brasileira. Ela virá.