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BRASIL

Sob o governo Bolsonaro, bandos nazistas quase triplicaram no Brasil

Bruno Rodrigues*, de Fortaleza, CE
ERNESTO RODRIGUES

A década de 30 do século passado viu em nosso país a ascensão dos fascistas da Ação Integralista Brasileira, liderada pelo jornalista Plínio Salgado, como um partido de massas.  Na ditadura, e a bem da verdade já antes dela, também foi notória a atuação do Comando de Caça aos Comunistas, liderado pelo delegado de polícia, Raul “Careca”.

De fato, a atuação de grupos de extrema direita no Brasil está longe de ser uma novidade, ainda mais se levarmos em conta o evidente fato de que estamos justamente sob um governo de extrema direita há pouco mais de 3 anos.

A novidade atual é que, particularmente na esteira dos três últimos anos, as dezenas de núcleos neofascistas e neonazis, de fato já existentes ao longo das últimas décadas, deram um salto de nada menos que 270%, ou seja, praticamente triplicaram de tamanho.

É o que atestam as pesquisas realizadas por Adriana Dias, antropóloga formada pela Universidade Estadual de Campinas. A partir de pesquisas que realiza há mais de duas décadas, Adriana vem alertando o mundo acadêmico e as instituições sobre a expansão desses grupos por todas as regiões do país.

Segundo Adriana, desde janeiro de 2019 mais especificamente, grupos de extrema direita vêm em uma onda de crescimento vertiginosa. Através de dados que coleta na internet, Adriana já conseguiu mapear a existência de pelo menos 530 núcleos que, ao todo, reúnem algo em torno de 10.000 integrantes. As centenas de sites, perfis, fóruns e páginas vinculadas a esses grupos conseguem alcançar mais de meio milhão de pessoas.

Ainda segundo Adriana, trata-se de uma miríade de grupos de diferentes matizes dentro da denominação genérica de extrema direita, sendo hegemônicos aqueles de corte ideológico diretamente neonazistas.

Por óbvio, não é por mero acaso ou um fato acidental que esse boom neonazi venha se dando justamente desde os últimos três anos. Sem dúvidas, em um país fundado sobre bases tão reacionárias como o Brasil e sob a guarida de um governo genocida como o de bolsonaro, eles finalmente encontraram o clima necessário para se armarem e se multiplicarem. Desde a ditadura civil-militar, bandos fascistas nunca encontraram terreno tão fértil para crescer como agora.

Por sinal, a relação entre bolsonaro e grupos neonazis é bem antiga. Tanto é que Adriana chegou a descobrir recentemente uma carta de bolsonaro (reprodução abaixo) escrita em 2004 e endereçada exclusivamente para sites neonazis. O que lança ainda mais elementos ao já enorme número de denúncias que o relacionam a tais grupos.

Reprodução/Web Archive

Neofascismo é um fenômeno mundial

Desde a crise mundial de 2008, dezenas de grupos neonazis voltaram a dar as caras, publicar sites, promover encontros, organizar provocações e, em casos de diversos países, cumprir papel determinante na conjuntura.

Reprodução/Web Archive
Imagem:  Manifestação do Svoboda, em Kiev. 2014.

Na Ucrânia, milícias paramilitares ultra-nacionalistas, como o Prav Sektor ou o Svoboda, tiveram um papel destacado na queda do governo de Víktor Yanukóvytch e seguem atuando na guerra civil que desde então divide o país.

Antes de serem banidos do cenário político e terem suas lideranças presas, os neonazistas helênicos do partido Aurora Dourada conseguiram capitalizar parte da insatisfação com a situação do país, assolado por dívidas com os bancos alemães e acossado por medidas de austeridade impostas pela UUEE, o que lhe permitiu ocupar a posição de 3° maior força do parlamento nacional, apoiando-se em brigadas de combate urbano.

Ucrânia e Grécia são dois, entre vários outros exemplos contemporâneos, de como a atuação dos bandos de extrema direita se tornou uma ameaça antidemocrática concreta e objetiva para esses países.

Frente única da esquerda é a esperança contra a barbárie fascista

A esquerda brasileira não pode se dar ao luxo de subestimar a possibilidade de que a ação desses bandos transborde cada vez mais da internet para as ruas através da execução de ações intimidatórias ostensivas e sistemáticas, podendo inclusive servirem-se da cobertura política da presidência e da cumplicidade das polícias. Ainda mais se levarmos em conta que a disputa eleitoral de 2022 pode ser ainda mais carregada de tensão política que a de 2018.

Porque deve nos parecer óbvio que esses setores não aceitarão de forma civilizada e republicana uma possível derrota eleitoral de Bolsonaro, sua maior inspiração, diante de sua maior antítese: o operário, imigrante nordestino e líder do principal partido de esquerda que existe em nosso país.

Como bem alertou a professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Isabela Kalil, “Se estamos olhando para o cálculo democrático padrão, cada eleitor é um número, um voto. Nesse caso a lógica dele não opera via número de votos. É uma lógica na qual determinados grupos, mesmo que pequenos, conseguem fazer um estrago grande na democracia, até ao declarar guerra a inimigos políticos e instituições. (…) Esses grupos mais radicalizados estão à disposição de Bolsonaro. Se ele disser ‘estamos em guerra contra tal grupo’, alguns apoiadores não se furtarão de atacar esses opositores”.

Portanto, é urgente que nossos mandatos parlamentares exijam investigação e punição contra os responsáveis por liderar e financiar tais grupos. É preciso ainda que seja investigado o nível de implantação que esses grupos têm no interior das polícias militares e civis, na PF e até nas FFAA já que se trata de grupos que, a rigor, têm acesso a armas de fogo pesadas e treinamento militar intenso.

Deve também ser um fator de alerta não só para a esquerda, mas para todos os setores democráticos e libertários, a enorme quantidade de civis com registros de CAC (sigla para Colecionadores de armas, Atiradores Desportivos e Caçadores) que, atualmente, beira o meio milhão. Assim, é possível que haja vários grupos neonazis e de extrema direita em geral, se servindo do direito de operar legalmente na forma de clubes de tiro com o objetivo de treinar militarmente seus efetivos.

Sobretudo, é urgente e indispensável que a esquerda aposte suas melhores fichas na unidade e na mobilização popular como as mais poderosas armas contra o bolsonarismo e seu séquito de cães raivosos.

 

Referências:

ENTREVISTA: O movimento neonazista no Brasil e a ligação com Bolsonaro: https://bit.ly/33vJouI

Grupos neonazistas crescem 270% no Brasil em 3 anos; estudiosos temem que presença online transborde para ataques violentos: https://glo.bo/3nETi4j 

Pesquisadora encontra carta de Bolsonaro publicada em site neonazistas em 2004: https://bit.ly/3AfVO63 

Sites neonazistas crescem no Brasil espelhados no discurso de Bolsonaro, aponta ONG: https://bit.ly/33w5i0U

 

*Militante da Resistência/PSOL.

Instagram: @brn_rdgs Twitter: brnrdgs_psol50