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Alckmin não

Alckmin fala ao ouvido de Lula.
Divulgação / Ricardo Stuckert

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Antes quero um asno que me leve, do que um cavalo que me derrube.
Sabedoria popular portuguesa.

A esquerda brasileira está colocada diante de um desafio. O “caminho” de Santiago ou a “ceia de natal” com Alckmin? Duas estratégias se apresentam diante da luta contra Bolsonaro: Frente Ampla ou Frente de Esquerda? Os defensores da Frente Ampla “amplíssima” se regozijam com o jantar de gala com Alckmin. Aqueles que defendemos a necessidade de uma Frente de Esquerda celebramos a vitória de Gabriel Boric no Chile. São duas comemorações muito diferentes.

A principal lição que nos chega de Santiago, e que explica a vitória de Boric, é que o caminho se constrói com a mobilização das massas populares. Não foram os apoios recebidos no segundo turno que permitiram a vitória. Foi o processo aberto pelo “estallido social”, uma luta de milhões nas ruas que exigia a ruptura com as sequelas dos ajustes neoliberais, que permitiu derrotar Kast.

Dois mais dois não resulta sempre em quatro. Luta política é álgebra, não aritmética. A promessa de que Alckmin é o preço necessário para vencer no primeiro turno é pensamento mágico. A ampliação dos votos em Lula não virá das camadas médias acomodadas. Os setores reacionários da pequena-burguesia que se afastaram do bolsonarismo em função da gestão criminosa da pandemia se deslocarão para a “terceira via”, provavelmente, para Sergio Moro. Mas é possível atrair, como as pesquisas sugerem, a maioria dos pobres das grandes cidades, desde que haja uma mobilização da parcela mais organizada e consciente da classe trabalhadora e da juventude.

A Frente Ampla “até doer” ou o “abraço de urso” com uma ala de “tucanos à deriva” nos enfraquece. Não vale tudo. As pesquisas que indicam que a maioria dos eleitores da esquerda não deixaria de votar em Lula, mesmo que Alckmin seja candidato à vice-presidência, não deve nos surpreender. Mas o que é importante é que, entre os eleitores de Alckmin, a maioria não está disposta a votar em Lula.

A aliança não está sendo cogitada, portanto, porque a direção do PT faz o cálculo de que Alckmin agregaria votos indispensáveis para vencer. Não é verdade. Tampouco, porque há a preocupação de, preventivamente, reduzir a taxa de rejeição de Lula. A rejeição de Bolsonaro é muito superior à de Lula e, se considerarmos o contexto mais provável de desdobramento da campanha eleitoral, parece muito difícil que Bolsonaro possa reduzi-la. Ao contrário, a disputa de espaço à direita com as candidaturas da “terceira via” empurra Bolsonaro para a radicalização, o que permite “fidelizar” sua base eleitoral mais extremista, mas, também, aumenta a sua rejeição.

A única explicação plausível para um movimento tático tão espantoso, inusitado e bizarro é a preocupação de sinalizar moderação. Demonstrar que o Lula que saiu da cadeia não guarda ressentimento.

A presença de Alckmin é um compromisso, um símbolo, uma garantia. A promessa implícita é que, se vencer, o governo Lula não será um governo de esquerda. Será um governo de coalizão empenhado em um pacto de governabilidade com os grandes capitalistas. Isso significa respeitar que os ajustes neoliberais feitos nos últimos cinco anos não estarão ameaçados.

Uma vitória eleitoral nesses limites significará uma derrota política. Por que, qual deve ser o programa? O argumento de que não importa quais concessões sejam feitas, desde que se vença as eleições, é uma leviandade. Não importa? É infantil imaginar que, depois de eleito para a presidência tranquilizando a classe dominante, haverá surpresas.

A garantia de oportunidades de trabalho para os muitos milhões de desempregados importa. A recuperação do salário-mínimo importa. Os direitos reprodutivos das mulheres importam. O fim das queimadas na Amazônia importa. A expulsão de garimpeiros e madeireiras das terras indígenas importa. A taxação das grandes fortunas importa. O orçamento do SUS, o financiamento do ensino público, a defesa das Universidades e Institutos Federais importa. O fim do teto de gastos importa.

A presença de Alckmin na chapa com Lula é uma sinalização de limites intransponíveis das mudanças que se pretendem. Há, portanto, uma luta política a ser feita. Um luta que só termina quando acaba. A militância de esquerda de todos os partidos e organizações está chamada a se posicionar, publica e energicamente. Estamos na véspera do Natal e das Festas de Ano Novo. Mas 2022 está logo ali. Há momentos em que é necessário dizer não.

Não se fazem omeletes sem quebrar ovos.