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EDITORIAL

Chile: Votar em Boric para derrotar o neofascismo e seguir avançando por direitos!

Editorial de 14 de dezembro de 2021
Divulgação / Gabriel Boric

Neste domingo, 19 de dezembro, o povo chileno irá às urnas nas eleições mais polarizadas desde a redemocratização do país. Enfrentam-se o candidato de esquerda e ex-líder estudantil Gabriel Boric, da coalizão Apruebo Dignidad, e o candidato de extrema-direita e neofascista José Antonio Kast.

Lea en español ¡Vota por Boric para derrotar al neofascismo y seguir avanzando por los derechos!

As eleições se dão após a profunda crise política e social, resultado da implementação radical do programa neoliberal por mais de 30 anos no Chile, e ataques aos direitos dos trabalhadores e da juventude, que fizeram o povo chileno ir às ruas em manifestações multitudinárias, enfrentando a repressão em uma verdadeira rebelião popular, que começou em 2019 e seguiu durante a pandemia.

Foi durante a sangrenta ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990) que o Chile se tornou o berço e laboratório do receituário neoliberal no mundo. Em conjunto com os economistas conhecidos como Chicago Boys, a ditadura implantou um programa de privatizações, destruição dos direitos sociais, perseguição e assassinato de opositores, rebaixamento geral do nível de vida dos trabalhadores e submissão completa aos ditames do imperialismo estadunidense.

O fim da ditadura levou a uma era de 20 anos de governos de centro-esquerda da chamada Concertación, e a partir de 2010 ao revezamento entre a centro-esquerda e a direita liberal no poder, mantendo os pilares econômicos neoliberais e a Constituição do regime pinochetista.

Em outubro de 2019, o aumento do preço do transporte público se tornou a fagulha para uma grande explosão social que sacudiu o país. O governo direitista de Piñera respondeu aos protestos populares com forte repressão, deixando dezenas de mortos, centenas de mutilados, especialmente cegos pelo uso de balas de borracha e presos políticos.

A repressão, porém não conseguiu deter as manifestações que se originaram da raiva acumulada com décadas de políticas neoliberais, a inexistência de uma educação ou sistema de pensões públicas, o não reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, a desigualdade social e o alto custo de vida.

As manifestações da juventude, das mulheres, LGBTQIA+, dos trabalhadores e povos originários impuseram a realização de um plebiscito vitorioso, que impôs ao governo a criação de uma Convenção Constitucional para a revogação da Constituição do regime de Pinochet em que os candidatos identificados com as demandas das ruas tiveram grande votação e são maioria na Convenção Constitucional.

Os resultados do primeiro turno das eleições foram a derrota dos partidos que governaram o Chile nos últimos trinta anos, demonstrando a profundidade da crise, mas a ida ao segundo turno de Kast, que ficou em primeiro lugar com 27,91%, e Gabriel Boric, com 25,82%, com uma alta abstenção de 53%, além de representar o avanço do neofascismo no Chile, mostra as contradições sociais e políticas abertas em 2019 com o levante das ruas, mas também uma ameaça para a democracia na América Latina. Não queremos outro Bolsonaro no continente!

A vitória de Kast no primeiro turno representa um enorme perigo. Sua campanha foi baseada em forte retórica anticomunista e na promessa de impor a ordem contra os “delinquentes” que foram às ruas. Kast representa o “pinochetismo”, o saudosismo à ditadura e conseguiu aglutinar as parcelas mais reacionárias e conservadoras em reação às mobilizações, sendo expressão do embate entre revolução e contrarrevolução no Chile de hoje.

Boric e sua coalizão Apruebo Dignidad, com a Frente Ampla e o Partido Comunista, levantam demandas importantes das ruas, tais como desmercantilizar os direitos sociais, educação e saúde públicas, moradia social seguras, taxação das grandes fortunas, defesa do meio ambiente, etc. Porém não podemos deixar de criticar o papel que Boric cumpriu ajudando a aprovar a lei anti-barricadas, que fortaleceu a repressão e o encarceramento de ativistas, e impulsionando o Acordo pela Paz, que ajudou a salvar o governo de Piñera, e impôs amarras à nova Constituinte.

Temos consciência, entretanto, que uma vitória de Kast representaria uma mudança na correlação de forças a favor da burguesia e do imperialismo, contra a classe trabalhadora no Chile e no continente. O que se enfrenta nesse segundo turno no Chile é um projeto reacionário de extrema-direita e anti-povo que pretende derrotar as ruas pela força e não aceita concessões ou reformas progressivas como as encarnadas na candidatura de Boric.

Defendemos o voto em Boric para derrotar o neofascismo e lutar em defesa da mobilização independente dos trabalhadores e trabalhadoras, para exigir que o novo governo atenda às demandas da rebelião popular e possa seguir avançando. As lutas de 2019 não serão derrotadas pelo neofascismo!

Por isso chamamos o voto em Boric e vamos lutar por:

– Manter e fazer avançar as liberdades democráticas, e o primeiro passo é a imediata libertação de todas e todos os presos políticos de 2019 e demais lutas!
– Construir um novo pacto social que se expresse no respeito a uma Constituinte ecologista, feminista, que garanta direito de fato a educação, a saúde e a previdência social, com o fim das AFPs!
– Lutar para que avance a nacionalização das reservas naturais de minério, das florestas e da pesca!

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