Pular para o conteúdo
CULTURA

Marighella: mil lições de resistência

Marina Amaral*, de Salvador, BA

“Em qualquer parte do Brasil, compatriotas de todas parte podem surgir dos bairros, das ruas, dos conjuntos residenciais, das favelas, mocambos, malocas e alagados. A missão de todos os revolucionários é fazer revolução”. Mil faces de um homem leal – Racionais MC’s

Na última segunda-feira (25) ocorreu em Salvador, a pré-estreia do filme Marighella, dirigido pelo já conhecido ator baiano Wagner Moura, que também estreou como diretor nas telas dos cinemas. O evento foi fechado, para convidados de movimentos sociais, como a Coalizão negra por direitos e a Brigada Marighella, além de parte do próprio elenco do filme. Essa pré-estreia é também um suspiro contra a censura, já que a obra internacionalmente foi lançada em 2019, porém, devido tanto a pandemia quanto principalmente a censura política, o filme está sendo lançado no Brasil agora, quase três anos depois. Ainda assim, chega no país com muita autoridade cinematográfica, histórica e política.

O filme, como pode ser percebido pelo título, conta a história de Carlos Marighella – militante e revolucionário comunista. Mas mais do que a história de um homem, narra a verdadeira história do Brasil, sobretudo o triste período vivido na ditadura militar. Por tudo isso, esse lançamento não poderia ter ocorrido em outra cidade. Tinha que ser Salvador. Lugar onde Carlos nasceu, na periferia da Baixa dos Sapateiros. Lugar onde vive seus descendentes, que a cada exibição do filme, revivem essa história de família e de luta. Lugar onde sangue e suor se misturam para contar a história do Brasil.

Sobre o Filme e algumas reflexões históricas

Inspirado e adaptado no livro biográfico “Marighella – o guerrilheiro que incendiou o mundo”, de Mário Magalhães, o longa-metragem narra a história dos últimos anos de vida do baiano Carlos Marighella e a sua importância na defesa da democracia brasileira contra a ditadura militar. O filme relata com precisão diversos absurdos que existiram nessa época sombria: tortura, perseguição política; censura dos veículos de impressa; violência policial; e os próprios atos institucionais antidemocráticos. Mas, relata também outra parte muito importante dessa história – a bravura daqueles e daquelas que não abaixaram a cabeça para o regime e buscaram a única saída possível: resistir!

Marighella é genuinamente um produto do Brasil polarizado. Em vários momentos fala sobre o país dos anos 60 com questões que se encaixam perfeitamente nos dias de hoje.

A importância de Marighella precede o enfrentamento à ditadura. Foi um militante aguerrido por muitos anos antes, atuando de distintas formas. Em 1930 iniciou sua militância no PCB, sendo a sua primeira prisão ligada ao partido que ainda atuava na ilegalidade. Também foi preso na década seguinte por fazer enfrentamento ao governo Vargas. Em 1945, logo após ter saído da prisão, foi eleito deputado federal, atuando assim até novamente ser perseguido e cassado quando o partido voltou a cair na clandestinidade devido a toda ofensiva anticomunista no âmbito internacional. Apesar de todas essas emoções no período anterior, Wagner Moura opta politicamente por centrar o filme na vida de Marighella e na conjuntura brasileira no período imediatamente após o golpe de 1964.

Marighella é genuinamente um produto do Brasil polarizado. Em vários momentos fala sobre o país dos anos 60 com questões que se encaixam perfeitamente nos dias de hoje. Em uma das cenas que retratavam as salas de aula daquele período, o filme traz a disputa de narrativa que existia sobre a tomada do Estado pelos militares que instaurou a ditadura sangrenta. Enquanto um professor explicava a história daquele período como “revolução”, Carlinhos Marighella, o filho do personagem principal, respondia que “foi golpe, não foi revolução”. Qualquer semelhança com a realidade das manifestações da extrema direita que pedem fechamento do STF e intervenção militar, não são meras coincidências. Da mesma forma, o filme mostra como os argumentos que justificavam a ditadura estavam relacionados a discursos ultra-nacionalistas que prometiam “acabar com a corrupção e com a ameaça comunista”. 

O contraponto era justamente o fato de que a defesa do Brasil, naquele momento, estava intrinsecamente ligada a luta daqueles que estavam dando a vida por um Brasil democrático, livre e sem tortura. A visão de Marighella de que ser revolucionário é ser brasileiro é retratada com muita força. Em uma das entrevistas do guerrilheiro à imprensa internacional sobre a sua orientação ideológica, quando o jornalista pergunta se ele é “leninista, trotskysta ou maoísta”, ele responde “Eu sou brasileiro”. Sabemos que Marighella reivindicou o stalinismo por um tempo, mas essa polêmica fica para outro texto. O ponto aqui é a ideia central de que naquele momento, em uma ditadura que mobilizava o nacionalismo como instrumento ideológico, o ser brasileiro para Marighella tinha um referencial completamente oposto, de defender o Brasil em uma perspectiva anti-imperialista. Por isso, ser um revolucionário era amar o Brasil e os brasileiros, verdadeiramente, como faziam aqueles que lutavam contra a ditadura.

Outra característica do ser brasileiro representada no filme tem a ver com a temática racial. Moura fez uma escolha política de retratar Marighella e seu filho como negros retintos. Filho de uma mulher negra descendente de escravizados Hauças com pai branco imigrante italiano, Marighella foi um homem negro, mesmo que o debate do colorismo queira apagar essa parte da história. Foi um comunista negro revolucionário. Ao tratar isso com tanta centralidade no filme, Wagner Moura reafirma o que o movimento negro fala a tempos: o quanto o tema racial é central para discutir o Brasil, e ainda, resgata a identidade negra de Marighella apagada pela história.

Esse comunista foi sem dúvidas um dos principais nomes que resistiram a ditadura e também entre aqueles que defenderam a luta armada para combater o regime. O filme narra vários diálogos que apontam erros e acertos mas que são muito importantes para fazer refletir os dias de hoje e as táticas para a esquerda: como mobilizar o povo? Como ganhar as massas? Qual a hora de avançar e qual a hora de recuar? Qual a melhor forma de defender a democracia? A luta realmente vale a pena?

Olhar o passado para ver o presente

Esse é um filme para inspirar. Para que todos lembrem que já passamos por momentos mais difíceis e superamos. Mas superamos porque teve gente que deu sangue, suor e a própria vida para isso.

Essas perguntas talvez digam mais sobre o presente do que o passado. Assistir Marighella, reviver a história é muito importante para entender a gravidade do que passou e a necessidade de lutar para que esse passado nunca mais se repita. É uma contribuição fundamental para a necessária construção da memória e consciência histórica do Brasil. 

Marighella, assim como tantas outras e outros revolucionários na história, eram pessoas comuns. Pessoas com famílias e diversas características comuns a qualquer brasileiro. O que diferencia esses dos demais, e o que os faz entrar para história, é o fato de abrirem mão das suas vidas comuns e colocá-las em risco por um bem maior: a democracia e a liberdade.

Esse é um filme para inspirar. Para que todos lembrem que já passamos por momentos mais difíceis e superamos. Mas superamos porque teve gente que deu sangue, suor e a própria vida para isso. Em um contexto em que a opressão era covardia, a resistência foi coragem. Os que vieram antes de nós resistiram a calúnias, torturas, perseguições e não desistiram do Brasil mesmo nos piores momentos. Como dizia Marighella “as pessoas precisam saber que no Brasil tem gente resistindo e que essa luta é justa”. Por isso, o legado que essa brava geração deixa para nós é que sejamos um fio de continuidade de resistência. Ditadura nunca mais!

Foto: Arisson Marinho / Correio 24H

 

*Marina Amaral – Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade do Estado da Bahia, onde também atua como Coordenadora geral do DCE. É ativista do Afronte e da Coalizão negra por direitos.