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EDITORIAL

Nem golpe, nem impeachment?

Editorial de 15 de agosto de 2021

Multidão na Av.Paulista no último 02 de outubro #ForaBolsonaro

Há um impasse no cenário político. Nesse momento, Bolsonaro não é forte o suficiente para avançar em sua estratégia golpista, mas não está fraco o bastante para ser ameaçado pelo impeachment.

A ampla maioria do povo trabalhador está na oposição ao governo, mas não houve, até aqui, uma revolta de massas pelo Fora Bolsonaro. A classe dominante, em sua maioria, não apoia o plano ditatorial de Bolsonaro, mas, para manter o andamento das (contra)reformas e privatizações, prefere a continuidade do governo (e da atual política econômica) até as eleições. A classe média está dividida: uma parte expressiva compõe a base mais ativa do bolsonarismo, outra parte deixou de apoiar o governo na pandemia, mas não está disposta a se mobilizar contra Bolsonaro.

Editorial en español ¿Ni golpe, ni impeachment?

Em resumo: formou-se uma maioria social contra o governo, com deslocamentos em todas as classes sociais, mas essa maioria não se converteu num movimento com milhões nas ruas. Ao longo desse ano, a rejeição ao governo elevou-se consideravelmente, mas Bolsonaro preserva capacidade de mobilização de sua base social, como demonstrou no 07 de setembro.

Afirmou-se em 2021, portanto, uma dinâmica de enfraquecimento político e social do governo, que se expressou nas ruas por meio dos seis grandes atos pelo Fora Bolsonaro. Porém, não houve uma explosão social radicalizada, como ocorreu no Chile em 2019 ou nos Estados Unidos em 2020, com o levante antirracista. Bolsonaro perdeu força, mas  também mostrou resiliência.

A formação de uma maioria social contra o governo explica-se, principalmente, pela trágica experiência vivida pela maioria do povo durante a pandemia. A qual atingiu com mais agressividade, em razão do racismo estrutural e do machismo, os setores mais oprimidos da classe trabalhadora — negros e mulheres. A experiência dolorosa pela perda de pessoas queridas e pelos efeitos terríveis da crise social (desemprego, fome, pobreza e carestia) é a razão fundamental da elevação da rejeição a Bolsonaro, especialmente entre os mais pobres.

Contudo, o avanço da consciência do povo trabalhador tem seus limites objetivos e subjetivos. O cenário de pandemia, desemprego, precarização e fragmentação da classe trabalhadora dificultou as lutas de resistência nos locais de trabalho. As derrotas políticas e os retrocessos ideológicos acumulados nos últimos anos, desde o golpe de 2016, também incidiram negativamente. Mas a consciência popular avançou, ainda que parcialmente. Há, nesse momento, uma opinião popular majoritária contra Bolsonaro, responsabilizando, em maior ou menor grau, o seu governo pela tragédia vivida na pandemia.

Como a abertura do processo impeachment parece muito difícil (por diversas razões, entre elas a blindagem do centrão no Congresso), um setor significativo da classe trabalhadora e da juventude não acredita que seja possível derrubar Bolsonaro nesse momento. Isso dificulta uma adesão maior aos atos. Desse modo, prevalece a expectativa de que o futuro do governo Bolsonaro será decidido nas eleições de 2022.

A liderança de Lula nas pesquisas, com larga vantagem, reforça a perspectiva eleitoral na consciência de milhões. O líder petista atua para consolidar o favoritismo da sua candidatura, buscando ampliar o arco de alianças, inclusive com expoentes do MDB e do centrão na região Nordeste. Lula já se reuniu diversas vezes com lideranças da direita, mas até agora não debateu com os movimentos sociais e partidos de esquerda um programa de enfrentamento ao projeto econômico ultraliberal que se instalou no país depois do golpe de 2016. Mas não só. Lula não foi nem convocou nenhum ato pelo Fora Bolsonaro, sinalizando para a grande burguesia compromisso com a estabilidade política e econômica.

A centralidade da luta nas ruas 

Se o governo Bolsonaro fosse uma gestão “normal”, a tendência seria uma resolução pacífica do impasse político nas eleições. Mas não estamos perante um governo burguês “normal”, estamos diante de um presidente neofascista. Bolsonaro fez um recuo tático depois do ato de 7 de setembro. Mas sua estratégia golpista se mantém intacta — e, cedo ou tarde, voltará à cena política.

Bolsonaro aceitará o resultado se perder nas urnas? Tentará uma ação golpista antes ou durante o processo eleitoral se tiver certeza de que irá perder para Lula? Atuará para mobilizar seus milhões de seguidores para contestar o processo ou o resultado eleitoral? É possível que não tenha força para impor um golpe, mas quem dúvida que ele tentará se tiver as condições mínimas para tanto?

O maior problema da estratégia de Lula, que deixa em segundo plano as mobilizações populares, é a subestimação do perigo neofascista. Para derrotar Bolsonaro, inclusive para assegurar o resultado das urnas, será preciso mais do que ter a maioria do votos. Será necessário ter força de massas nas ruas.

A crise social, intensificada pela inflação, não dará trégua no próximo período. A carestia é uma realidade amarga para a maioria do povo brasileiro. Até as eleições de outubro de 2022, tem muita coisa para acontecer. E a luta por emprego, comida, salário, moradia, direitos, saúde, educação, entre outras, não pode esperar. A luta pelo Fora Bolsonaro não deve aguardar até as urnas.

Quem garante, num cenário de estagnação econômica e crise social, que tudo irá permanecer sem maiores perigos ou explosões até outubro do ano que vem? O inimigo fascista está ativo: se enfraqueceu, mas não está morto. A frente única da esquerda nas lutas e nas eleições, para derrotar Bolsonaro e defender as demandas da maioria trabalhadora, segue sendo a tarefa principal.

Fortalecer e unificar as lutas em curso: às ruas no dia da consciência negra! (20 de novembro)

Há várias lutas em curso nesse momento. Os trabalhadores do funcionalismo estão em mobilização contra a PEC 32, que avança na destruição do serviço público. Há diversas categorias em campanha, lutando pela reposição salarial diante da escalada da inflação. Os cinco mil metalúrgicos da GM de São Caetano do Sul, por exemplo, fizeram uma forte greve de nove dias. Os entregadores de aplicativos estão organizando paralisações em várias cidades, nos chamados Breque dos APPs. Há também mobilizações por moradia, como as realizadas pelo MTST. O movimento de mulheres está engajado na luta pela derrubada do veto de Bolsonaro à distribuição de absorventes para mulheres pobres. Consideramos que é fundamental que a frente única reunida na Campanha Fora Bolsonaro fortaleça essas lutas em curso, buscando unifica-las sempre que possível.

No dia 20 de novembro, está marcado o importante ato do movimento negro no dia da consciência negra. Foram os negros e negras os mais atingidos pela crise social e pelas mortes por covid-19. Durante a pandemia, houve a radicalização do genocídio de jovens negros nas periferias e favelas, com a disparada da letalidade policial. Mas também se destacaram nesse período as mobilizações antirracistas, tanto em junho do ano passado, como esse ano, após a chacina em Jacarezinho (RJ). O movimento negro, com a liderança da Coalizão Negra por Direitos, se fortalece demonstrando a potência da luta antirracista no país. É fundamental que todas organizações da classe trabalhadora se engajem na construção do 20 de novembro. Vamos à luta!

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