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BRASIL

A espiral da desinformação digital, e não a burrice, como sustentação de mitos

Filip de Souza Polli* e Samadhi Gil C. Pimentel**, de Feira de Santana, BA
Divulgação/Netflix

Em tempos em que informação e desinformação se amontoam e se confundem por todos os lados, a forma como as notícias falsas se propagam é decisiva para o rumo de uma sociedade inteira, sobretudo entre democracias recentes e notadamente instáveis como a brasileira. Já se passaram muitas eleições desde que o Brasil tem sido apontado como o país de um futuro que nunca chegou. Mais de três décadas após a redemocratização, o país está atualizando, a cada dia, as definições de fundo do poço. Passam-se governos, mas a percepção de limitação no desenvolvimento nacional e agora de piora drástica é sufocante. 

Num país onde a mídia tradicional se acostumou a criar heróis e bandidos, e onde líderes nomeadamente mitológicos aumentam sua popularidade através do submundo das ferramentas digitais, a pergunta de como chegamos onde chegamos em termos de degradação do comportamento social continua sendo respondida com análises superficiais e justificativas históricas pouco convincentes. Tentaremos responder a partir de um ângulo que ainda não encontramos nas análises que temos lido até o momento.

A internet nos anos 90 era algo revolucionário. A infinidade de possibilidades de como esta ferramenta poderia ajudar a conectar um mundo globalizado inspirou desenvolvedores de produtos e plataformas digitais a inovarem em tecnologia e, depois, em sociabilidade. O documentário da Netflix intitulado “O Dilema das Redes” explora a frustração que uma parte desta geração de jovens talentosos alcançaram ao se darem conta de que suas criações, com alegadas boas intenções no princípio, são causa central da polaridade política e do definhamento das relações sociais. Acontece que o Facebook, Google, Pinterest, Twitter, Instagram, Snapchat, TikTok, YouTube e outras novas plataformas que continuam sendo lançadas periodicamente aprenderam a capitalizar, a fazer dinheiro, a partir dos seus serviços gratuitos e aparentemente inofensivos. Criar uma conta nessas plataformas é rápido e sem custos, então como elas lucram? 

O mecanismo é simples: todas essas mídias digitais lucram a partir de propagandas. Quanto mais usuários e mais tempo eles gastam usando tais aplicativos, maior o “rebanho” de potenciais consumidores que tais plataformas possuem para vender a outras empresas. Assim, o modus operandi de tais mídias está baseado em viciar seus usuários para que dediquem suas atenções por cada vez mais tempo a tais plataformas. Quanto maior o “rebanho” de usuários de um aplicativo e o tempo que as pessoas dedicam a ele, maior o número de empresas e o valor que elas pagarão para usarem tais plataformas para fazerem propaganda de seus produtos. Como bem lembrado pelo documentário, os únicos 2 setores sociais onde a palavra usuário é aplicada se delimita às mídias sociais e viciados em substâncias de abuso.

Importante frisar, esse modus operandi é o mesmo de mídias tradicionais, como jornais, revistas, e canais de televisão. Isso significa que há uma competição intensa entre as empresas de comunicação pela atenção das pessoas, vulgo audiência. 

Quem tem mais rebanho, vende mais propaganda, e o faz por mais dinheiro. É por isso que os grupos econômicos mais bem sucedidos no Brasil como bancos privados, grupos de telecomunicação, indústrias automotivas e de alimentação (sobretudo pecuária, agronegócio e cervejarias), bem como setores privados estratégicos para o mercado (saúde e educação) focam suas propagandas nos canais de maior audiência. Esses grupos econômicos pagam caro por isso, e são os mesmos que patrocinam o futebol, esporte mais popular; estão sempre marcando presença em programas televisivos de sucesso, como o BBB e outros reality shows; estão patrocinando as principais festas do país, como carnavais e demais festivais de música; e, para garantir o circo tal como está (status quo), e, por fim, são os principais investidores de campanhas políticas em todos os níveis, por vezes doando simultaneamente para grupos políticos rivais, como uma garantia de perpetuação de seus negócios lucrativos seja lá quem o povo decidir eleger como representante.

Durante muito tempo, a televisão e mídias tradicionais sempre foram decisivas para resultados eleitorais e desdobramentos políticos importantes no Brasil. Por exemplo, é sabido sobre como as edições de debates televisivos nas eleições presidenciais de 1989 enviesaram o resultado. Nas eleições de 2006, a Revista Veja estampou em capa “O Fenômeno Alckimin”; em 2014, a capa do mesmo veículo ostentava “O Poder de Aécio”, com pose de super-homem. Após as eleições de 2014, a grande mídia, como boa serviçal de seus patrocinadores, impulsionada pela paridade das dos votos sem precedentes e, decerto, mais interessada em um projeto de país que não incluísse tanto o pobre na equação, influenciou a opinião pública sobre a índole de uma presidenta eleita que agia menos como fantoche do mercado do que seu antecessor (embora ambos do mesmo partido político). 

O resultado de tal campanha difamatória foi potencializado por grupos de radicais de direita nascido nas manifestações estranhas de 2013 que usaram as mídias digitais como plataformas para espalhar notícias falsas em uma sociedade que nunca foi sequer bem informada. Como sintetizado no documentário da Netflix, e no Brasil não foi diferente, as mídias digitais foram rapidamente convertidas de potencial de informação para uma máquina de desinformação, baseada em algoritmos que retro-alimenta comportamentos sociais destrutivos. Entramos na Era da Desinformação Premeditada.

Um grupo político percebeu isso e tirou a devida vantagem para se colocar no poder. Como prova da passada de bastão da influência da grande mídia sobre as vontades do povo, o atual presidente foi eleito em 2018 com o menor tempo de televisão para propaganda eleitoral, desdenhando e se ausentando de debates promovidos pelos canais de TV, e sendo majoritariamente atacado pelo jornalismo tradicional brasileiro. Na ânsia de “tirar o PT do poder” e transferi-lo para algum representante do principado de partidos liberais, com clara predileção pelo PSDB, a mídia nacional passou do ponto ético do jornalismo na defesa da Lava Jato e nos ataques aos líderes petistas ao longo do anos anteriores. Sem perceber, inflacionaram tanto o ódio do povo que o fez abandonar o petismo, como planejado, mas inesperadamente e com a ajuda de muita fake News (notifica falsa), colocaram no colo de um fascismo, acusado de atos antidemocráticos, favorecimento de genocídio, prática sistemática de racismo, homofobia e sexismo, e destruição sistemática do ambiente natural que não cabem nas regras de decoro que o cargo de presidente e o respectivo exercício requer. 

Apesar do que apresenta a grande mídia e do que acreditam seus próprios militantes, o Partido dos Trabalhadores, cujos governos foram dos mais generosos com os bancos e grandes empresários (muitos agraciados com Ministérios), possui poucos elementos de práxis para se configurar como um partido de esquerda. Por ter conciliado classes sociais antagônicas (como representantes dos setores do agronegócio, pecuária, especulação imobiliária, grandes empresários e bancos mas também o trabalhador rural, os desempregados e sem teto nas cidades, o microempreendedor, o servidor público, e trabalhadores domésticos) o PT é um partido de centro. No plano da surrealidade, as ações e inações de bolsonaro (com “b” minúsculo para se alinhar a altura do personagem – e um convite de protesto para que todos assim escrevam de agora em diante) o colocam fora de qualquer régua democrática, apesar da insistência da mídia tradicional brasileira em classificá-lo como de direita (as grandes mídias mundiais classificam bolsonaro como extrema-direita; a mídia brasileira é a única a colocá-lo como sendo apenas de “direita”). 

Burlar essa régua é a única forma que a grande mídia tem para reservar o centro, aparentemente tão “necessário” diante de tamanha polarização política, para partidos economicamente ultraliberais, como os seus já sabidos prediletos. E embora tenha tentado, tardiamente, influenciar a transferência de votos para evitar a tragédia que as pesquisas previam para o segundo turno em 2018, todos os seus candidatos preferíveis obtiveram desempenho pífio nas urnas. Como a mídia tradicional perdeu a capacidade de influência social para as mídias digitais?

Um estudo conduzido pelo pesquisador Soroush Vosoughi no MIT em 2018 concluiu que fake news se espalham até 6 vezes mais rapidamente do que notícias verdadeiras no Twitter, uma prova de que vivemos hoje no tempo das mentiras. Assim, fica fácil entender que o que determinou as eleições de 2018 pode ser ilustrado nas principais fake news do momento: a “mamadeira de piroca”, o “kit gay” e a ameaça de um “golpe comunista”. Pode parecer absurdo para os mais bem informados, mas muitos já tivemos o desprazer de conversar com pessoas que acreditaram (e ainda acreditam) em tamanhas distopias. 

Em uma conjuntura mais recente e trágica, diante do absurdo que foi a condução do Governo Federal em todos os aspectos relacionados com a pandemia, a popularidade do dito mito pouco mudou de acordo com pesquisas de opinião: parcela significativa do povo aprova seu governo, são contra o impeachment, e acreditam que tal figura folclórica que emergiu do submundo da política fisiológica brasileira tem condições de liderar o país. Um em cada 3 brasileiros votaria em bolsonaro num segundo turno das eleições de 2022. Nesse cenário, não faltam análises de diferentes matrizes ideológicas que qualificam os bolsonaristas como lunáticos, com deficiências cognitivas e sem empatia, como seres incapazes de enxergar e se sensibilizar diante da realidade óbvia. Análises não muito diferentes das feitas nos meses que antecederam a sua eleição.

Esse é o problema central que todas as análises até o momento não perceberam: os bolsonaristas não enxergam a realidade. Não é que isso seja uma opção, ninguém em sã consciência escolheria acreditar e perpetuar mentiras, nem mesmo os bolsonaristas, mas o fazem porque a realidade real não chega até essas pessoas através de fontes digitais de informação disponíveis, cada vez mais presente em todas as classes sociais. Todos que se unem nas ruas em defesa de bolsonaro rigorosamente acreditam que prestam um serviço ao Brasil.

Os algoritmos que buscam captar cada vez mais a atenção dos usuários para as plataformas digitais destorcem a realidade para todos. Cada like, follow, tempo usado para contemplar algo ou clique que um usuário executa inicia uma reação em cadeia que retroalimenta o aumento da exposição ao tipo de informação que o usuário inicialmente interagiu. Em outras palavras, quem assiste vídeos no Youtube periodicamente sobre cachorros, publica fotos no Instagram com seu cão de estimação usando hashtags e dá likes em fotos de amigos com cachorros no Facebook, inicia uma espiral onde mais e mais vezes o feed dessas (e de outras) plataformas é inundado por matérias relacionadas a cachorros. Isso leva a um aumento do uso dessas plataformas pelo usuário, incrementando ainda mais a exposição ao tópico de interação, numa espiral sem fim, influenciada ainda por ferramentas de marketing e impulsionamento de conteúdos digitais que escapam completamente ao controle de qualquer indivíduo.

Igualmente, parte considerável das pessoas que entram na espiral de fake news não consegue sair. Enquanto um ser humano com uso consciente (se a palavra couber) de mídias digitais está exposto a doses insignificantes de sugestões de que a Terra é plana, estima-se que 11 milhões de brasileiros identificados como terraplanistas, um número crescente, recebem dezenas de “provas”, diariamente, em todas as suas mídias digitais, de que a Terra é de fato plana. São fisgados pelo sensacionalismo de teorias conspiratórias que usam de psicologia para explorar fraquezas cognitivas humanas, iniciando uma sequência de cliques que o fazem, em curto tempo, não conseguirem mais distinguir fake news da realidade, ao passo que se envaidecem pela percepção jactante de possuírem um saber profundo sobre temas que não compreendem (efeito Dunning-Kruger). 

Do mesmo modo, dezenas de milhões de brasileiros conectados, muitos em posição de formadores de opinião (médicos, professores, juizes, promotores, celebridades, jornalistas, e os mais “úteis e competentes” profissionais que surgiram nesse bolor da internet, youtubers), estão convencidos de que bolsonaro e sua família possuem reputação ética e defendem os interesses do povo acima dos próprios. Mais adiante, parcela significativa de usuários das mídias digitais acreditam que universidades públicas plantam maconha, de que o comunismo avança pelas instituições do país, que Marielle Franco era traficante de drogas, que vacinas são uma farsa, e em tantos outros absurdos porque estão presos em espirais de notícias falsas e conspiratórias que os notificam por todos os lados, sem parar. 

A cômica lista de comunistas que as milícias digitais divulga é atualizada diariamente, e consta de políticos conservadores dissidentes de bolsonaro (notoriamente Sérgio Moro, Alexandre Frota, Kim Kataguiri e Arthur do Val), filósofos liberais, como Thomas Piketty, mídias alinhadas com os valores capitalistas, como as tradicionais The Economist, The New York Times e a Rede Globo, e até mesmo de empresas multinacionais notoriamente capitalistas, como a Pfizer. Nem mesmo o técnico da Seleção Brasileira Tite ficou de fora da lista vermelha circulando pelo submundo digital por ter, superficialmente, feito uma critica velada à CBF pelo conluio com o Governo Federal para viabilizar a Copa América no Brasil. 

Essas conspirações têm influência nefasta no comportamento social. Embora a mídia tradicional se esforce para diminuir o número de bolsonaristas desde antes das eleições, pouco conseguem arranhar a popularidade de bolsonaro. Talvez por conta do excesso de distrações do circo midiático, que inclui novelas, reality shows e muito futebol, pouco conseguem disputar o espaço da desinformação com as mídias digitais. Ainda que a Rede Globo ou revista Veja fossem pilares da verdade agora ou em temas específicos (como a COVID-19), e apesar do esforço em conscientizar sobre a pandemia a mesma sociedade que ajudaram a confundir durante décadas, os fatos que a mídia tradicional agora apresentam são relativizados por parte considerável dos que buscam influenciar. 

A desinformação digital está no cerne do desprezo aos riscos envolvidos com a COVID-19, que ainda não acabou e evolui para novos ciclos, fazendo com que jovens arrisquem sua sorte – e a de seus familiares – em festas clandestinas, adultos sejam jocosos com a pandemia, e idosos e demais integrantes de grupos de risco recusem o uso de máscaras e questionem as vacinas. Devem ser, no mínimo, escassas as análises sobre a pandemia, até o momento, considerando como os algoritmos das mídias digitais potencializam a falta de capacidade crítica do brasileiro, a perpetuação de comportamentos sociais auto-destrutivos e o apoio significativo que bolsonaro tem recebido, apesar dos pesares.

Seja diretamente pela incapacidade de filtrar informação e porventura engajar a sociedade em comportamentos auto-destrutivos ou indiretamente a partir da influência na escolha de líderes políticos sem a menor competência e que atuam contra o bem-estar social, a máquina de desinformação digital mata. Assim como as notícias falsas se espalham mais rapidamente do que os fatos, os crimes digitais se perpetuam numa velocidade muito maior do que a capacidade das instituições estatais burocráticas de investigarem e os coibirem. 

A carência de leis específicas no certame é um convite para que gabinetes do ódio se perpetuem com a certeza da impunidade. E com eles, o aumento da desinformação, o empilhamento de mais cadáveres, o surgimento de novos mitos e uma nova espiral de degradação social. O debate sobre como regular a informação na era digital e como responsabilizar e combater a desinformação é central para tirar o país do buraco, mas está deveras atrasado – e tem sido pouquíssimo pautado por aqueles que estão com o microfone ou o teclado do computador nas mãos.

Em paralelo, carecemos de espaços de debates, incluindo nas universidades, de como aplicar um sistema educacional voltado para o desenvolvimento de competências e sociabilidade para além do uso de recursos digitais. Aqui, cabe lembrar que na Finlândia, país de altíssimos índices sociais, crianças são educadas para desenvolver criticidade com as informações que recebem, fruto de um sistema educacional avançadíssimo que inclui valorização e capacitação de professores, experiências dialéticas em espaços naturais, métodos menos ortodoxos de avaliação e reduzida carga horária de aulas.

A abordagem aqui apresentada é sobre um tema estratégico. Parte central da batalha das ideias na sociedade contemporânea ocorre nas mídias digitais. Faz-se necessário compreender a infra-estrutura e buscar alternativas para o melhor funcionamento e uso das mesmas. A criação de políticas que restrinjam, por exemplo, a disseminação de fake news e o amplo investimento em um tipo de educação que desenvolva a capacidade crítica do uso dessas ferramentas são duas demandas fundamentais. Caso contrário, outros bolsonaros virão, uma vez que o “mito” é apenas sintoma da problemática aqui abordada, não criador de todo esse horizonte de possibilidades.

Mas enquanto não temos nada disso, a imagem abaixo criada por alguém do submundo digital que apoia o atual governo continua circulando pelo Twitter como síntese real para muitos, numa incrível inversão da realidade. Para estes, os canais do governo federal (classificado como centro político), do ministério da economia, e de televisões aliadas são “as mais próximas dos fatos”; mídias de ética jornalística das mais questionáveis fazem “análises complexas”; enquanto mídias tradicionais se amontoam com mídias alternativas no espectro de “esquerda que fabricam informação”.

*Filip de Souza Polli é doutor em Neurofarmacologia pela Universidade de Copenhague (Dinamarca) e pós-doutorando em Neurociências no Scripps Research Institute (USA). Suas linhas de pesquisa incluem o vício e o circuito cerebral de recompensa, bem como o estudo das bases moleculares da memória. E-mail: fspolli.neuro@gmail.com.

**Samadhi Gil C. Pimentel é doutor em Ensino, Filosofia e História das Ciências pela Universidade Federal da Bahia e Universidade Estadual de Feira de Santana (Brasil) com pesquisa sobre a compreensão das dinâmicas ecológicas e socioecológicas, com área de concentração em educação científica e formação de professores. E-mail: Samadhi.pimentel@gmail.com