Interior do Brasil pode dar fôlego ao golpismo de Bolsonaro

Sergio Reis tocando um berrante

Cantor Sérgio Reis

Direita Volver

Coluna dedicada ao acompanhamento semanal das ações e absurdos dos representantes da extrema direita. Por Ademar Lourenço.

A internet deu voz a quem não tinha voz. De um lado, movimentos sociais e minorias oprimidas puderam se articular e ter força para pautar o debate público. Do outro, grupos de ódio e preconceito conseguiram ganhar espaço. A ascensão de novas vozes também segue critérios geográficos. Por exemplo, o chamado “interior” pôde ampliar seu universo simbólico próprio. A má notícia é que, no Brasil de 2021, é justamente esse universo do “Brasil profundo” que pode dar a Bolsonaro força para sua cruzada contra a democracia.

Quem nasceu e cresceu em uma capital com mais de um milhão de habitantes talvez não conheça a força que uma figura como Sérgio Reis tem. Assim como o apresentador Zeca Camargo assumiu não conhecer o falecido cantor Cristiano Araújo. A música sertaneja arrasta um público de milhões de pessoas se somarmos os milhares de shows nas pequenas cidades do país, superando com grande margem qualquer astro de rock. Um evento como a Festa do Peão em Barretos tem um público de dezenas de milhares de pessoas, muito mais que qualquer evento como o Rock in Rio ou o Lollapalooza.

É um desastre que Sérgio Reis e quase todos os cantores da música sertaneja apoiem Bolsonaro. Ao tomarem essa posição, desonram a memória dos antigos violeiros, que cantavam o sofrimento do pequeno camponês que era obrigado a vender sua terra a um grande fazendeiro e se mudar para a cidade. E a força do bolsonarismo no interior não vem apenas de artistas.

Eles se somam a fazendeiros como Antônio Galvan, presidente da Associação de Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja). A soja é o principal produto de exportação do nosso país e se espalhou como uma praga por todo o território nacional. Se você quer saber quem manda em uma cidade pequena, pergunte quem é o maior produtor de soja do local. As chances de acertar serão imensas.

Galvan afrontou a Polícia Federal com um desfile de tratores quando foi prestar depoimento sobre sua atuação em favor de um golpe bolsonarista. E ele tem motivos para estar confiante. Apesar de algumas entidades do chamado “agronegócio” assinarem um manifesto com críticas a Bolsonaro, fazendeiros arregimentam pessoas para lotar ônibus em direção aos atos golpistas do dia 7 de setembro. As entidades de maior porte que representam os caminhoneiros também não vão dar apoio formal à manifestação. Mas uma parcela da categoria, em sua grande parte nos interiores do país, já está se articulando desde o início de agosto para participar.

Cerca de 45% da população do Brasil vive em municípios com menos de 100 mil habitantes. Gente capaz de decidir uma eleição. Capaz de conseguir apoio para um golpe de Estado. Se engana muito quem pensa que a população dos interiores replica automaticamente o que vem das grandes cidades. Bolsonaro tem apoio e militância nesse “Brasil profundo”, onde a voz das organizações de esquerda via de regra não consegue alcançar. Fazer uma análise de conjuntura sem levar isso em consideração é pedir para ser vítima de uma desagradável surpresa.

Em todo o mundo, “interiores” são decisivos na luta política

A imprensa ficou surpreendida com a vitória de Pedro Castillo para presidente do Peru. O político tem sua base eleitoral no interior do país e perdeu nos grandes centros urbanos.  Não é a primeira vez que jornalistas, em geral trabalhando a partir das maiores cidades, têm este tipo de surpresa. Na maioria dos casos, esses fenômenos favorecem a direita.

Nas eleições de 2016, Donald Trump perdeu em todas as cidades dos Estados Unidos com mais de 100 mil habitantes. Mas conseguiu ganhar as eleições para Presidente com os votos da “América profunda”. Naquele mesmo ano, a maioria dos habitantes do Reino Unido votaram pela saída do país da União Europeia, apesar do chamado “Brexit” ter perdido em grandes centros como Londres e Manchester. Na Hungria, o presidente neofascista Viktor Orbán perdeu as prefeituras da capital Budapeste e de boa parte das grandes cidades, mas mantém sua base no interior. Marine Le Pen, representante da extrema-direita na França, conseguiu chegar ao segundo turno das últimas eleições presidenciais com os votos das áreas rurais e de pequenas cidades. Em 2018, o peso dos senadores do norte da Argentina foi decisivo para a rejeiçãoda legalização do aborto, mesmo com grandes mobilizações em defesa da proposta na capital, Buenos Aires. Em 2020, outra votação aprovou a medida, mas o movimento feminista teve que esperar dois anos em função da força políticada região produtora de soja.

Em vários países podemos citar outros exemplo, inclusive favorecendo a esquerda, como a base de Rafael Correa no interior do Equador ou a votação de Lula no interior do nordeste brasileiro. O importante é perceber o fenômeno da vida política relativamente autônoma de regiões mais distantes dos centros urbanos.

No Brasil, coronelismo pode ser decisivo

Não podemos de forma alguma subestimar a força das centenas de “caciques políticos” das pequenas cidades brasileiras. Em geral, são grandes fazendeiros. Em seus municípios, exercem um poder que vai além da capacidade de eleger prefeitos e vereadores. Alguns controlam a vida cotidiana do município. Em muitos casos, a polícia, a Justiça, as associações, as igrejas, todos os agentes da vida civil devem bênçãos ao homem ou grupo de homens que manda no local.

Este poder não foi extinto com as mudanças sociais dos últimos anos. As relações de parentesco e compadrio fazem com que boa parte da população de uma cidade deva favores ou se sinta obrigada a respeitar o grupo dominante do município.

O escritor Raimundo Faoro, em sua obra “Os donos do Poder”, já falava do peso do chamado “coronelismo”. Historicamente, um Presidente do Brasil não é capaz de ter um governo estável sem uma boa relação com a rede de oligarquias regionais, que é a raiz mais profunda do poder político no país.

Um exemplo da força deste “Brasil profundo” é a bancada ruralista, que tem quase metade de todos os deputados federais e senadores. Isto mesmo os grandes fazendeiros não sendo mais que 0,01% da população do país. A bancada ruralista, por sua vez, é a espinha dorsal do “centrão”, grupo que controla o Congresso Nacional. Em resumo, a partir de seus redutos eleitorais, os “coronéis” exercem muita influência em Brasília.

O “Brasil profundo” é onde que a classe dominante de nosso país consegue exercer um controle social mais intensoe formar currais eleitorais capazes de, entre outras coisas, decidir uma eleição presidencial. Ou legitimar um golpe de Estado.