25 de Julho por nós, por todas nós: eles combinaram de nos matar, nós combinamos de bem-viver

Gabriela Mika Tanaka

*Editorial em conjunto com a Resistência Feminista

A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
O eco da vida-liberdade.

“Vozes-Mulheres”
Conceição Evaristo

Por que um dia das mulheres negras latino americanas e caribenhas?

O dia 25 de julho, que no Brasil a partir de 2014 é marcado como o Dia Nacional Tereza de Benguela, é indicado como o dia internacional de luta das mulheres negras, latino-americanas e caribenhas e tem sua origem ainda na década de noventa, a partir do primeiro Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas.

A Marcha das Mulheres Negras em Brasília, contra o Racismo e a Violência e pelo Bem-viver no ano de 2015, em Brasília, pode ser compreendida como um marco para a organização das mulheres negras brasileiras. De lá para cá se fortalecem os espaços permanentes de articulação política entre essas mulheres, um exemplo disso é a Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, que chega à sua 6ª edição de maneira virtual.

Cabe sublinhar que a Marcha de 2015 se dá em um contexto de eclosão de diversas lutas feministas à nível internacional, com fortes expressões em países da Europa e América Latina. Nesse sentido, pode ser compreendida como um elemento de continuidade de uma movimentação anterior por integração das mulheres negras ao contexto feminista internacional. Mas pode, sobretudo, ser compreendida como uma diferenciação desse processo a partir da denúncia de condições da vida das mulheres negras do sul global, região marcada pelo histórico de colonização e escravização negra, mas também por atuais e profundas desigualdades socioeconômicas.

Mesmo antes da eclosão da crise da COVID-19 era possível observar semelhanças entre diversos países latino-americanos quando se trata das condições de vida das mulheres negras: entre os 25 países com mais casos de feminicídio no mundo 14 se encontravam nessa região do globo, de acordo com dados da ONU. Além disso, também de acordo com levantamentos da ONU,  América Latina e Caribe sozinhos corresponderam entre 2019 e 2020 a 11,8% do total mundial de casos de violência de gênero contra mulheres entre 15 e 49 anos.

Hoje, diante do atual cenário de crise sanitária e socioeconômica na América Latina e em tantos países do mundo, essas desigualdades históricas, ligadas ao racismo e ao sexismo, emergem com grandes fraturas expostas. Nos primeiros meses da pandemia no Brasil, de acordo com levantamento do Monitor da Violência, houve aumento dos índices gerais de feminicídio no país, tendo 73% do total de vítimas entre mulheres negras. Essa triste realidade, de acordo com relatório do Banco Mundial, também é a de diversos países latinoamericanos como Colômbia, Chile, Bolívia, México, El Salvador, Honduras.

Como no poema de nossa mais velha Conceição Evaristo, que abre esse texto, hoje nossas vozes ainda ecoam rimas de sangue e fome. Para que na voz de nossas filhas se faça ouvir a ressonância, o eco da vida-liberdade é urgente que gritemos desde já pela vida das mulheres negras. É urgente um feminismo cada vez mais afro-latino-americano!

Nem tiro, nem fome, nem COVID: parem de nos matar!

Como consequência da política genocida do governo Bolsonaro, que desde o início da pandemia trabalha para sabotar as principais medidas de combate ao vírus, assistimos os maiores índices de letalidade da doença atingirem o povo negro. São mais de 540 mil vidas perdidas em meio a escândalos e denúncias contundentes de corrupção na compra de vacinas, que envolvem liderança do governo e encontros com o próprio presidente.

Como se sabe, as vacinas são essenciais para o controle da pandemia. De acordo com estudo do epidemiologista Pedro Hallal, se combinadas com medidas de distanciamento social mais eficazes poderiam ter evitado aproximadamente 80% do total de mortes. Assim, como vem fazendo as mobilizações de rua, além de denunciar as mais de 400 mil mortes evitáveis é preciso fortalecer a pressão popular pelo imediato impedimento de Bolsonaro. O impeachment é hoje a bandeira número um em defesa da vida das mulheres negras.

É ainda na conta da política neoliberal de Bolsonaro e Guedes que deve ser colocado o agravamento do cenário de empobrecimento, desemprego, informalidade e carestia. Segundo levantamento da consultoria IDados, feito a partir de dados do IBGE, quase metade dos lares brasileiros são chefiados por mulheres e entre esses 55,5% são liderados por mulheres negras. Desta forma não é difícil compreender sobre quem esse aspecto da crise econômica se abate especialmente.

Enquanto os empresários enchem os bolsos mais do que antes com as contrarreformas e privatizações, o “novo normal” para Guedes e Bolsonaro é o das filas em estabelecimentos comerciais para conseguir doações de ossos de boi, do aumento da procura de arroz quebrado, antes que o mesmo vá para a fabricação de ração animal e indústria cervejeira, ou ainda das panelas vazias e aumento vertiginoso da tontura da fome.

Além disso, mesmo no contexto de pandemia, vemos uma ofensiva no processo de militarização de vida e de genocídio da juventude negra, que produz como resultado a triste marca de que a cada 12 horas sete pessoas negras tenham sido mortas pela polícia em 2020. Só esse ano dois tristes episódios dessa falida guerra às drogas, que tomaram grande repercussão na mídia, foram exemplos categóricos disso: a morte da jovem e gestante Kathlen Romeu em Lins de Vasconcelos e a chacina na Favela do Jacarezinho, que deixou ao menos 28 mortos às vésperas do dia das mães. O mesmo Estado, ausente na garantia de direitos básicos, se faz presente frequentemente através da violência nas periferias e precisa ser responsabilizado não somente por essas operações ilegais, como pelas que diariamente matam os filhos de tantas mulheres negras.

Se o Dia Internacional das Mulheres Negras Latino-americanas e Caribenhas já cumpria antes um papel fundamental para a construção de uma luta de maioria, atualmente sob signo que agudiza a contradição entre a descartabilidade e a dependência de vidas negras é fundamental que seja compreendida a dimensão da principal tarefa colocada a toda esquerda hoje: interromper o genocídio negro que hoje se dá seja pelo vírus, pela fome ou pelo tiro.

Eles, há tempos, combinaram de nos matar. Neste 25 de Julho, por todas nós, combinamos de não morrer, combinamos de resistir!

Com a juventude e as mulheres negras na linha de frente, o movimento negro brasileiro protagonizou a retomada das ruas com as manifestações do último 13 de maio. A chacina do Jacarezinho, comemorada por Mourão como um “operação policial bem sucedida”, foi o estopim para que em mais de 40 cidades fossem  sob a consigna “Nem bala, nem fome, nem COVID: o povo negro quer viver!”

Além da repercussão na imprensa, combinada com a mensagem trazida pelas lutas da Colômbia de que se o governo é mais letal que o vírus é preciso ocupar as ruas, os atos cumpriram o importante papel de motivar a vanguarda negra e a esquerda para que as convocatórias aos atos de rua fossem retomadas logo na sequência, em um calendário unificado de lutas pelo Fora Bolsonaro, que incluía o ato nacional de 29 maio. Foi também de grande significado político a incorporação da Coalizão Negra por Direitos à Campanha Fora Bolsonaro, enegrecendo a articulação das lutas unitárias contra o governo e em defesa da vida.

Se hoje, diante da maior tragédia humanitária desde a escravização negra e indígena, nos colocamos em movimento e na linha de frente da resistência é porque nossos passos vêm de longe. Vêm da luta por liberdade encampada por tantas Dandaras e Aqualtunes, vêm das vozes das Lélias e Beatrizes na luta por direitos e contra as estruturas racistas. Vêm da sementes de Marielle Franco, potências do tempo presente.

Neste 25 de julho, unificando o ontem, o hoje e o agora, a resistência dessas mulheres e das milhares anônimas, que fazem esse país acontecer diariamente, deve ser lembrada distante de qualquer romantização das tantas dores que atravessam suas existências. Deve ser revisitada a partir da visibilidade e do protagonismo pertinentes ao papel das mulheres negras, latino-americanas e caribenhas na construção de diversas formas de organização política e de um horizonte livre do sexismo, do racismo, da transfobia e de toda lógica de exploração – como na cosmovisão de origem ameríndia denominada bem-viver.

Como nos ensina Conceição Evaristo, eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer, de resistir. Mais do que de pé, aqui na Améfrica nos colocamos em marcha para transgredir com nossas insubmissas lágrimas e vozes, para revolucionar as estruturas desse velho mundo e, finalmente, bem-viver!

 

**Malu Nogueira, da Resistência Feminista e do Afronte São Paulo. Estudante da USP, militante do Afronte e da Resistência Feminista