Ladrão, quem te rouba te aponta o dedo

Reprodução/Instagram

Sou contra quem acha que eu tenho que sentar e esperar para ter que o que é meu – Al Hajj Malik

Al-Shabazz, conhecido como Malcolm X.

Acredito que todos devem ter visto o caso de Matheus Ribeiro, jovem negro, acusado injustamente por Mariana Spinelli e Tomás Oliveira de roubar uma bicicleta no Leblon e tendo que provar sua inocencia, mostrando que a bicicleta que andava, era mesmo sua.

Na verdade, antes se ser acusado, Matheus já era um jovem negro condenado previamente. Pois com aquela cor de pele naquele ambiente somente poderia ser um ladrão. As ordens se invertem, a acusação veio após o julgamento já sentenciado.

Logo depois, descobriu-se que o verdadeiro autor do delito empurrado na direção de Matheus era um branco. Sim, o ladrão era branco. Era morador dos bairros elitizados do Rio de Janeiro. Um semelhante do casal Mariana e Tomás Oliveira, era o autor do crime.

O autor do roubo, Igor Martins, já havia cometido a mesma infração mais de uma dezena de vezes, e mesmo com provas em vídeo mostrando o momento em que rouba a bicicleta, ele teve seu pedido de prisão preventiva negado.

Matheus por sua vez, mesmo tendo sido vítima de racismo, parece que cometeu um outro crime: denunciar o racismo. Agora, ele vem sendo investigado por interceptação de sua bike, pois não tinha nota fiscal do produto, e a comprou em um site online com preço abaixo do vendido no mercado (algo comum em sites onlines).

Um processo que escancarou ainda mais o racismo da justiça brasileira. Que pode ser definida como um grande coleguismo entre homens brancos.

Vale apontar aqui o perfil racista do sistema penal brasileiro. Não se trata sobre cometer crimes, mas sobre que este sistema escolhe como alvo para encarcerar.

Nós temos uma ideia, uma imagem, de quem seriam aqueles que cometem crimes, que é construída socialmente (a partir da ótica racial) muito diferente da realidade. Estudos mostram que na cidade de São Paulo 60% dos réus por furto eram brancos. Porém, na justiça a situação muda. Entre os brancos, apenas 59,4% recebiam condenação no fim do processo. Já entre os negros que eram julgados, 68,8% eram condenados. Isto quando passam pelo julgamento, pois mais de 30% dos que estão em situação de cárcere sequer foram julgados. Uma outra pesquisa, desta vez feita pela Agência Pública de Jornalismo Investigativo, mostra que a média de maconha apreendida com pessoas brancas é de 1,15kg. Por sua vez, na apreensão com pessoas negras, a média é de ilusórias 145 gramas. No entando os negros são mais condenados por tráfico, 71,35% contra 64,36% de pessoas brancas.

O caso de Matheus serve também para deixar despido as contradições de nosso país, ou pelo menos de uma parte que funda o Brasil: o racismo. É um exemplo de como relações raciais e ideologias se articulam, entre o imaginário e o mundo real.

Essa interligação entre a desigualdade racial e a ideologia racista presente no rolê da bike de Matheus, sua coragem em denunciar, e a forma irônica que os acontecimentos se

sucedem, porém ao mesmo tempo que o desenrolar delas é bradado, me lembram dois escritores de Brasil, cada qual a seu tempo e de forma distintas, ajudaram a expor o racismo em nosso país e a jogar fora o “véu da brancura”.

Machado de Assis: o silêncio do deboche

Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho, é sem dúvida um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Sua obra é recheada de uma fina ironia, como se zombasse da inteligência do leitor, enquanto toca em assuntos polêmicos e profundos da realidade social brasileira.

Para muitos, Machado foi omisso, ao não abordar assuntos como a descriminação racial, para outros, esta acusação é absurda, pois é justamente na leve ironiazinha de sua literatura que estes temas aparecem. Madames da mais alta classe brasileira se debruçam de sua obra, playboys oitocentistas se deliciavam com seus romances, enquanto Machado ria escondido, pois seus textos ironizavam, expunham e até ridicularizavam aquela sociedade desigual e racista.

Foi como em uma ironia de suas obras, que no fim o ladrão era branco. Apesar dos dedos apontados… das acusações… das sentenças. Sim, vamos repetir novamente. O ladrão era branco.

O crítico literário Roberto Schwarz, apresenta a hipótese do protagonista de Memórias Póstumas de Brás Cubas, não ser uma analogia ao estilo Machado de Assis, ao próprio Brasil.

Brás Cubas um sujeito sem nenhum feito de talento, sem vocação, que foi um senhor de escravo, e fez disso e da renda de terras seu meio de ganhar vida por maior parte desta. Um homem que entrou para a política e fez desta um meio para suas vontades pessoais. Brás Cubas, que tinha uma amante, que assumidamente nunca amou ninguém de verdade, e que tanto defendia os valores da família tradicional. Brás Cubas que desde sua infância foi educado e cresceu chamando negros de “bestas”.

Qualquer semelhança de Brás com a burguesia brasileira não é mera coincidência.

Djonga: o grito dos excluídos

O rapper mineiro Djonga é atualmente um dos maiores nomes do hip hop brasileiro e tem ganhado projeção internacional. Dono de uma escrita forte e marcante, Djonga escoa e ecoa através de suas letras sentimentos e visões que estão presentes na vida de milhões de jovens negros. Gustavo Marques de Souza, é um cronista, que canta a pleno pulmões a realidade que ele e seus semelhantes estão inseridos. Por isso podemos dizer que ele é também um intérprete do mundo que o cerca.

Um de seus trabalhos mais fodas é Hat-Trick. Com uma letra magnética, e um clipe onde ele faz uma releitura do clássico “Peles negras e máscaras brancas”, do psiquiatra martinicano Frantz Fanon.

O clipe conta a história de um negro que para ser aceito no mundo dos brancos termina por se embraquecer. Rejeitando seu lugar de origem, seus amigos de infância, seu bairro, e assim, mesmo aceito no mundo dos brancos, com uma ascenção social, este homem negro ainda não é livre, vive preso a correntes. É no momento que este homem negro retorna ao lar e encontra sua vó (que representa o passado e o saber ancestral de seu povo), que a mascara branca é retirada de sua face. Ela de forma suave limpa a tinta que cobria o rosto de seu neto. O “véu da brancura” é eliminado e ele “se torna negro”, enxergando o mundo a partir de um olhar racializado. O homem negro do clipe se liberta, passa a ser feliz em sua rua, com seus amigos, com sua família. Em contra partida, quando ele se torna negro para o mundo, o mundo o enxerga assim. O fim do clipe é então trágico, com este homem negro alvejado. Pois para a sociedade racista este corpo negro era a representação de um perigo. Ao fim dela, Djonga recita versos, o Mc se torna um poeta, e na primeira parte da poesia que encerra a música ele diz:

“O dedo, desde pequeno geral te aponta o dedo No olhar da madame eu consigo sentir o medo

‘Cê cresce achando que ‘cê é pior que eles

Irmão, quem te roubou te chama de ladrão desde cedo Ladrão, então peguemos de volta o que nos foi tirado Mano, ou você faz isso

Ou seria em vão o que os nossos ancestrais teriam sangrado (…)”

Contamos isto tudo sobre esta música e o clipe de Djonga para termos uma ideia o quão complexo e sensível pode ser o rap, e também por que este trabalho serve para entendermos o Brasil hoje, e o Brasil de ontem. Por cada uma das linhas finais declamadas em Hat-Trick temos um pouco da história do Brasil, justamente pelo fato delas serem uma denúncia do racismo. Nas linhas escritas por Djonga, o particular e o universal se misturam através da experiência do racismo.

O medo descrito no olhar na madame, é um medo irracional. A madame sente medo de algo que ela mesmo cria previamente na mente dela, através da forma que o racismo faz com que ela enxergue o mundo. A madame não é apenas um sujeito isolado, a madame é a representação específica da branquitude e de nossa burguesia. A madame/ a branquitude/a burguesia apontam o dedo, julgam, condenam, e sentem medo daqueles justamente cujo qual ela direciona tais atos. A acusação, o julgamento e o medo, fazem parte do mesmo processo, que é a construção do corpo negro como um corpo a ser rejeitado.

Quando a burguesia/branquitude/madame atuam desta forma, termina por reforçar ideologias (aqui apontadas como falsas ideias), e por gerar uma distorção entre o mundo como ele é de verdade, e como ele se apresenta. O mundo passa a ser apreendido através do “véu da brancura”. Um mundo com a inversão de fatos e valores, um mundo visto através da ótica do racismo.

Porém, esta madame que julga, acusa, e aponta o dedo também pode se expressar na figura concreta, como uma madame ou na forma do tradicional playboy, como ocorreu no Leblon diante de Matheus Ribeiro, no rolê da bike. Um acontecimento que de forma literal reproduziu as palavras de Djonga. Um jovem negro sendo acusado, com os dedos e olhares apontados para ele.