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Colunas

Em defesa de Guilherme Boulos

Uma polêmica com a direção do MES/SP

Paulo Pasin

Paulo Pasin é metroviário aposentado, do Metrô de São Paulo, e ex-presidente da Fenametro (Federação Nacional dos Metroviários).

Dia 15 de junho, na Revista Movimento, a direção estadual do Movimento de Esquerda Socialista – MES – publicou o artigo – “O PSOL e as eleições para governador de SP em 2022” – com várias críticas e ataques a Guilherme Boulos. Fazer críticas e polemizar é uma obrigação entre militantes socialistas, entretanto, e por isso mesmo, escrevo este texto, por discordar do conteúdo e da forma dos ataques. De antemão, informo que tenho imenso respeito por essa importante corrente interna do Psol, além de muito carinho por vários de seus e suas dirigentes com os quais tenho relação na luta de classes há muitos anos.

A coerência e a coesão são elementos decisivos na produção do texto dando-lhes um sentido global. Um texto é coerente quando não há contradições entre suas partes, como também entre o texto e o mundo real. Além de ser um alicerce na produção textual, a coerência é fundamental na política assim como na vida. Se há incoerência num texto, pouca validade ele tem. Isso vale também para a política e para a vida.

Já no primeiro parágrafo, o secretariado do MES critica o fato de Boulos ter anunciado em uma entrevista sua disposição em disputar o governo do estado. O texto afirma: “Tal anúncio foi levado a cabo sem um debate nas instâncias partidárias…”. Porém, no quinto parágrafo, os camaradas se posicionam por uma pré-candidatura a presidente: “Por essa razão, apoiamos a pré-candidatura de Glauber Braga à presidência”. O ótimo deputado Glauber Braga tem todo o direito de se lançar pré-candidato à presidência com o apoio do MES e outros setores do PSOL. Mas essa pré-candidatura não foi discutida em nenhuma instância partidária. Então qual o critério neste terreno para a crítica feroz a uma e o elogio à outra? Nenhum critério, pura incoerência. Sem entrar no mérito se era o momento certo para o lançamento de ambas, merecem elogios tanto Guilherme quanto Glauber ao dizerem que é o congresso do PSOL, sua instância máxima, que tomará as decisões.

Uma das ideias centrais desenvolvida no artigo é acusar Boulos de ser a expressão das posições do PT e de Lula: “…dentro do PSOL, Boulos é justamente o principal representante da política de alinhamento do PT…”. Tal afirmação não se sustenta na vida real. O grande debate de estratégia entre a esquerda no último período foi, e ainda é, se o melhor seria esperar 2022 e ir costurando alianças, ou mobilizar, disputar a rua com o bolsonarismo para tentar derrotá-lo antes das eleições de 2022. Lula e a maioria da direção do PT defenderam a primeira opção. Guilherme Boulos, a maioria do PSOL e vários outros setores defenderam a segunda. Sem romper a frente única da classe – frente de esquerda – materializada na Campanha Nacional Fora Bolsonaro, foi dada uma batalha pela construção do 29M e depois o 19J. Guilherme e a Resistência/Psol estiveram à frente desta luta política decisiva na atual conjuntura. Posição política diferente de Lula e da maioria da direção do PT que depois se relocalizaram para o ato do dia 19, apesar de Lula não comparecer à manifestação. 

Incrível que uma corrente que se apresenta à esquerda no PSOL, ao fazer uma polêmica sobre tática eleitoral, se negue a olhar para esse elemento da realidade que abre uma possibilidade de alteração na conjuntura. Incrível e inaceitável também que não reconheçam que em várias declarações públicas Guilherme se posiciona contra aliança eleitoral com a direita liberal e por um programa de esquerda que anule os ataques contra nossa classe: reformas, privatizações, além da defesa da taxação das grandes fortunas entre outras medidas. Assim a acusação de que Boulos é o principal representante da política do PT no PSOL está completamente incoerente com o mundo real. O que defendemos é que esta frente de esquerda que está ocorrendo nas lutas, também ocorra nas eleições sem aliança com a burguesia e com um programa anticapitalista. 

A linguagem implícita é uma característica do português brasileiro. De acordo com alguns linguistas seria uma herança da sociedade escravocrata na linguagem coloquial. Teria ocorrido quando a escravidão se deslocou para os centros urbanos no século XIX e o espaço ocupado pelos escravos e “senhores” tornou-se o mesmo. Assim para a elite branca dissimular uma situação humanamente inaceitável dentro de um mesmo local a comunicação entre eles se torna predominantemente implícita e figurativa. É um debate importante atualmente restrito a especialistas no assunto. O que não é restrito a especialistas é o tipo de linguagem adequada a textos políticos, jornalísticos, científicos. Nestes casos, a linguagem predominante deve ser explícita, denotativa, para que a informação seja cristalina.

Em várias passagens o artigo utiliza a linguagem implícita gerando insinuações. Não é um bom método na polêmica política. Destaco uma, no último parágrafo.  Ao defender que o PSOL deve ter candidatura própria ao governo de São Paulo e à presidência, afirma que ela deve ser “Encabeçada por quem estiver à altura de defender nossas bandeiras, nosso programa e nossa estratégia…”. A direção do MES, de forma elíptica, está contra a candidatura de Boulos. “Quem” é um pronome indefinido. Qual pessoa seria esse “quem” à altura de defender as bandeiras do PSOL? Seria melhor para o debate que dissessem com todas as letras que estão contra a candidatura de Boulos ao governo e exatamente quem estão propondo para a tarefa. Guilherme Boulos, como qualquer ser-humano, seguramente cometeu, comete e cometerá vários erros, pois “a perfeição é uma meta a ser defendida pelo goleiro”, como nos diz o genial Gilberto Gil em uma de suas músicas. Porém não cometeu nenhum desses que o artigo lhe imputa. Se ele quiser e o congresso do PSOL aprovar é certamente o melhor candidato que a esquerda pode ter em São Paulo.

*Militante da Resistência/PSOL