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Três táticas dividem a esquerda brasileira

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

As Frentes Brasil Popular e Povo sem Medo consolidaram nesta quarta-feira, dia 2 de junho, uma convocação unitária para um novo dia nacional de manifestações pelo Fora Bolsonaro. Temos um programa comum e um calendário para ser defendido. Ocupar as ruas no dia 19 de junho. A hora é de ousadia, audácia, e firmeza. Ousar lutar, ousar vencer. Abriu-se uma oportunidade de construir um movimento de massas, e seria um erro desperdiçá-la.

Mesmo considerando com máxima gravidade a situação da pandemia é indispensável enfrentar o desafio. Porque mudou a conjuntura, e ficou demonstrado que é possível ir além de atos simbólicos, e até além de atos da vanguarda ampliada. Estamos diante de uma inflexão na situação política. Mas esta inflexão precisa ser aproveitada, plenamente, para sair da defensiva dos últimos cinco anos.

Felizmente se preservou a unidade na ação. Mas permanecem em disputa na esquerda brasileira três táticas sobre o que fazer diante do governo Bolsonaro. A primeira é a tática quietista. Deixar Bolsonaro se desgastar, ter paciência para esperar 2022, e apostar em uma Frente Ampla, amplíssima, até com setores das representações do capital que se associaram aos golpistas e apoiaram o impeachment, para a construção da candidatura Lula Ela é defendida por setores da corrente majoritária do PT e pelo PCdoB.

A segunda é a tática da ofensiva permanente. Apostar que já estão maduras as condições de derrubada de Bolsonaro e afirmar, nas ruas e nas eleições, uma nova direção, considerando que a experiência com o PT e Lula já foi feita, e é possível ultrapassá-lo pela esquerda. Ela é defendida, há anos, com pequenas variações de ênfase, por um setor minoritário do PSOL liderado pelo MES, pelo PSTU, a UP e, mais recentemente, pelo PCB. Depois da vitória da mobilização nacional de 29 de maio, estas correntes, à exceção do PSTU, convocaram uma “Assembleia Nacional” virtual pelas redes sociais de uma nova Frente denominada “Povo na rua”, sem assumirem, publicamente, a responsabilidade de organizadores, para “decidir” as próximas iniciativas.

A terceira é defendida pela maioria do PSOL, pela esquerda do PT e do PCdoB, e pela Consulta Popular. Defende a necessidade da Frente Única de Esquerda para enfrentar o perigo do governo de extrema-direita, porque estamos há anos em uma situação defensiva. Aposta que a saída passa pela luta por um governo de esquerda com um programa de reformas estruturais e medidas anticapitalistas. Reconhece que Lula ainda é a liderança de maior audiência entre o povo. Acredita na construção da mobilização de massas a partir dos movimentos sociais populares. Confia que a unidade dos movimentos sindical, de juventude, feministas, negro, LGBTI, camponeses, ambiental, indígena e de direitos humanos, articulados a partir das organizações mais representativas, como as Centrais sindicais, o MST, o MTST, a UNE, as associações de mulheres, a APIB, a Coalizão Negra por direitos, a ABJD e tantas outras devem assumir o protagonismo da luta pelo Fora Bolsonaro, apoiadas pelos partidos de esquerda.

Quem tem razão? As forças que defendem a tática quietista – desgastar Bolsonaro e esperar as eleições de 2022 – têm três argumentos principais. O primeiro é que não é responsável impulsionar mobilizações de massas, enquanto a pandemia se mantiver no atual patamar de cataclismo. Ficaram, depois de dia 29 de maio, com mais dificuldades para sustentar esta posição. Porque o 29M foi muito poderoso. Ficou demonstrado que era e é possível.

O segundo é que, admitindo que fosse possível derrubar Bolsonaro seria construir uma escada para a direita liberal se posicionar em melhores condições para as eleições. Seria melhor esperar as urnas em 2022 do que apostar nas ruas em 2021. Este argumento é muito perigoso. Considera que Bolsonaro seria, hipoteticamente, um inimigo mais fácil de derrotar que uma candidatura de centro-direita. Subestima Bolsonaro e a extrema-direita como em 2018, e superestima o PSDB, que está muito dividido. Bolsonaro pode se recuperar, se ficar no poder. Tem o apoio da massa da burguesia e raízes nas camadas médias. A tendência é que a devastação da pandemia diminua com a vacinação até o fim de 2021. A atividade econômica já sinaliza aquecimento, mesmo com retração nos serviços, no consumo e desemprego alto, e pode se instalar uma sensação de alívio com a recuperação. E o governo tem planos para reformatar um Bolsa-Família com maior abrangência e valor mais alto para 2022.

O terceiro é que a esquerda precisa de alianças com setores de “centro”, o eufemismo mascarado para denominar aventureiros na direita burguesa, para vencer as eleições, e não devemos assustá-los com a força das ruas. Acontece que os votos do centrão elegem carreiristas profissionais, mas não contam muito em eleições presidenciais. Não vale tudo para vencer eleições. Não vale a pena chegar ao governo, se o preço é a renúncia a um programa de esquerda. Não vale a pena chegar ao governo para aplicar um programa de direita.

É verdade que nenhum setor da burguesia se deslocou para a defesa do impeachment. Bolsonaro é um neofascista e o bolsonarismo não pode ser neutralizado somente com eleições. Se puder concorrer, mesmo que perca irá contestar o resultado eleitoral, e não deixará de manter a corrente fascista nas ruas.

Por outro lado, ninguém sabe nada sobre o desenlace das conversas discretas de Lula. Mas a probabilidade de uma Frente Ampla é remota, pelo menos no primeiro turno. Se Bolsonaro não cair em 2021, sem um programa de esquerda sério e convincente vai ser muito difícil chegar na frente dele no segundo turno. Quem chega em primeiro lugar no segundo turno, dificilmente, perde as eleições. Não é o bastante uma declaração de Fernando Henrique para virar.

As correntes que defendem a tática da ofensiva permanente têm, também, três argumentos principais. O primeiro que é que já não estamos em uma situação defensiva. Há um grão de verdade, mas, também, uma precipitação. Mudou a relação política de forças, nos últimos dois meses, e começamos a sair da defensiva, já que uma nova dinâmica se confirmou no 29M, mas só uma vitória clara para as amplas massas pode mudar a relação social de forças. São dois graus diferentes de análise. Uma inflexão da conjuntura, nas últimas oito semanas, não deve ser confundida com uma reversão da situação que viemos sofrendo há cinco anos.

O segundo é que a experiência com o lulismo já foi feita, depois de treze anos no governo. Há aqui, também, um grão de verdade. Uma parcela muito importante da vanguarda, e até um setor avançado das massas têm uma visão crítica do PT, como ficou claro no 29M com o silêncio monumental antes da intervenção de Boulos. Mas, no fundamental, a experiência com o PT e o lulismo foi interrompida. Olham com respeito aqueles que estamos na esquerda do lulismo, mas não romperam. Nas grandes fábricas, na imensa maioria das grandes empresas e, mesmo nos movimentos populares a esperança em Lula é esmagadora.

O terceiro é que é possível ultrapassar o PT nas ruas e conquistar influência de massas, até no terreno eleitoral, com a apresentação de uma candidatura de esquerda radical. Esta premissa é errada, e pode ameaçar a Frente Única de Esquerda com iniciativas que reproduzam os piores momentos de fragmentação, confusão e caos que vimos na sequência de junho de 2013.

Felizmente, as organizações que convocaram a Assembleia Nacional decidiram somar forças para a convocação do dia 19 de junho. Têm, claro, todo o direito de se organizar de forma independente. Mas várias destas organizações participam, há vários anos, da Frente Povo sem Medo. Ninguém sabe se romperam ou não. Ninguém sabe por que consideram necessária a iniciativa de uma nova Frente. Mais grave, na Assembleia não permitiram sequer a palavra da CSP/Conlutas e do PSTU, que sempre se mantiveram fora das duas principais Frentes.
Três táticas, dois perigos.