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BRASIL

Qual deve ser o caminho da esquerda do Rio de Janeiro em vista das eleições de 2022?

Ivan Martins, Rio de Janeiro, RJ

Está em aberto na esquerda brasileira e fluminense um debate sobre o sentido da frente política e social necessária para derrotar o fascismo. Nas últimas semanas, este debate tomou a forma de movimentações em torno da possibilidade de uma chapa de unidade da esquerda e da centro-esquerda ao governo do Rio de Janeiro que servisse como elo da chamada frente ampla democrática. O objetivo deste texto é debater o sentido desta movimentação e apontar porque considero uma opção equivocada, que tende a fragilizar a luta contra o projeto político da extrema direita no Brasil.

  1. Erro de tempo político

A tentativa de acelerar a definição de tática eleitoral para 2022 traz consigo dois problemas relacionados. O primeiro é que seguimos vivendo um período de grande instabilidade, marcado pela irrupção de fatos novos e viradas relativamente bruscas. Nada simboliza melhor este aspecto que a reconquista dos direitos políticos de Lula e a crise na cúpula militar, fatos que impactaram a correlação de forças e as expectativas e cálculos dos atores políticos principais. Há um longo caminho até as eleições de 2022 e ninguém pode prever com segurança como os blocos políticos se alinharão naquele momento. Esta incerteza não se limitará às eleições federais. Os palanques estaduais serão alvo de uma disputa entre aqueles que apostam na polarização Lula X Bolsonaro e os que creem que é possível furar esta polarização com uma dita “terceira via” de conteúdo político vago.

Outro problema é que a esquerda precisa ter uma política para 2021 e o enfrentamento do agravamento da crise sanitária e social, não pode somente apontar uma saída para 2022. Derrotar a política de Bolsonaro para a pandemia pode ainda evitar mais centenas de milhares de mortes. As lutas pelo lockdown imediato, ampliação e aceleração da vacinação, pelo auxílio emergencial e apoio ao isolamento social são urgentes e não podem ser travadas somente em nome de um projeto eleitoral. É preciso que as organizações de esquerda, sindicatos e movimentos sociais ajam desde já da forma mais coordenada e pressionem pela derrota do governo, consigam organizar e canalizar a rejeição crescente ao presidente em luta concreta pelo Fora Bolsonaro. Sem que esta pressão represente uma verdadeira ameaça à continuidade do seu mandato, Bolsonaro ganha tempo para recuperar terreno e, inclusive, se apresentar mais forte em 2022.

  1. A resistência a Bolsonaro não pode se limitar à luta institucional

Do mesmo modo, a estratégia da Frente Ampla se caracteriza por uma avaliação muito pessimista a respeito das possibilidades da esquerda, por conta própria, vencer uma disputa direta com a extrema direita. Esta descrença, ao que parece, se dá em três níveis.

  1. a) O primeiro é quanto à capacidade de derrotar Bolsonaro pela pressão direta das ruas. De fato, a esquerda vem de uma sequência de importantes derrotas. Não foi capaz de impedir o golpe de 2016, a reforma trabalhista, a PEC dos gastos, a reforma da previdência, entre outros.
  2. b) O segundo é a dificuldade da esquerda em vencer a disputa ideológica na sociedade, que sofreu um giro conservador. O reforço do conservadorismo moral alimenta uma permanente campanha da extrema direita contra a esquerda e suas posições históricas, em especial na defesa de direitos para setores oprimidos e na pauta de direitos humanos em geral.
  3. c) O terceiro, consequentemente, é a descrença de que a esquerda possa, portanto, voltar a aglutinar em torno de si uma maioria que permita uma vitória eleitoral.

É uma consequência desta leitura a perspectiva de que a esquerda só pode evitar uma derrota completa e romper seu isolamento social buscando aliados institucionais e na direita não-bolsonarista, isto é, apostar na indisposição de setores do establishment político-institucional em ficarem submetidos à hegemonia da extrema direita e seu projeto político. Daí setores da esquerda darem importância central à construção de acordos e iniciativas em comum com setores da direita tradicional, inclusive com alguns que têm relação direta com o governo federal. Trata-se de buscar incidir na direita tradicional e atrair setores dela para um pólo democrático, comprometido com a manutenção do regime de 1988.

Tal erro não está em superdimensionar o perigo democrático que Bolsonaro representa, nem as dificuldades que a esquerda enfrenta. Mas sim na subestimação da resiliência da própria esquerda e na sua capacidade de recuperação. O agravamento da crise social tem custado a Bolsonaro parte substancial da sua influência social, que está agora em disputa. Do mesmo modo que Bolsonaro, a partir de projeto minoritário, mas coeso e com poder de mobilização, conseguiu prevalecer sobre seus rivais na direita para capitalizar o sentimento antipetista acumulado em 2018, a esquerda pode disputar a frustração e rejeição ao bolsonarismo, desde que a partir de um projeto coeso e com poder de mobilização. A aposta na Frente Ampla aponta no sentido inverso, de buscar trazer para um mínimo denominador de estabilidade institucional setores que nos últimos anos fizeram a aposta inversa, vendo em Bolsonaro uma possibilidade de avanço de uma pauta econômica brutal para os trabalhadores. Pode um compromisso com estes setores, que preserve esta pauta, mobilizar a base social da esquerda para o enfrentamento com Bolsonaro? Não acredito. Em meio a uma crise social tão profunda, a defesa dos interesses materiais da classe trabalhadora será decisiva para que um projeto de esquerda seja vitorioso.

  1. “Uma chapa de centro-esquerda capaz de dialogar com o centro”

Um aspecto que não está completamente claro nos defensores da Frente Ampla é qual o grau de unidade que se crê ser possível ou desejável com a direita tradicional. Uma das suas propostas mais recentes parece melhor definida na fórmula “chapa de centro-esquerda capaz de diálogo com o centro”, na qual o “centro” parece ser todo setor não diretamente alinhado com a extrema direita. Isto é, uma política de unidade programática de centro-esquerda, que juntasse PSOL, PT, PCdoB, PSB e PDT numa mesma chapa para o governo federal e para os governos estaduais, mas que busque disputar um eleitorado de centro e esteja em diálogo prévio e preparada para incorporar o apoio de setores de centro-direita.

Esta tática guarda semelhança notável com as políticas defendidas por outras forças do chamado campo progressista que também apostam na construção de uma Frente Ampla anti-Bolsonaro. Se, por um lado, o PT e Lula apostam na incorporação imediata de setores empresariais para reatualizar o pacto de conciliação de classes dos seus governos anteriores, por outro Ciro Gomes e o PDT aproximam-se cada vez mais de segmentos da direita, incluindo até mesmo o ultraneoliberal Partido Novo, na tentativa de se apresentar como alternativa de centro à polarização Lula X Bolsonaro. Se Lula se apresenta como possibilidade de reeditar um governo de centro-esquerda, Ciro parece buscar atrair setores de um eleitorado de esquerda descrente das chances de uma candidatura de esquerda para uma candidatura mais claramente de centro. A tese da unidade do campo progressista, portanto, esbarra na própria disputa no interior deste campo.

Uma das maiores fragilidades desta tese está justamente na necessidade que a disputa no interior da centro-esquerda seja, ao menos, funcionalmente arbitrada. Um dos meios para tal aventados é a possibilidade de um “palanque duplo” nas chapas estaduais que possam abrigar Ciro e Lula. Mas esta disputa não é somente por protagonismo, a candidatura de Ciro expressa justamente o entendimento de que uma candidatura identificada fortemente com a esquerda é incapaz de ser vitoriosa. O mais provável, portanto, é que esta disputa se prolongue aos estados, tal como ocorreu nas eleições municipais de 2020 no Rio de Janeiro, em que PDT e PSB apresentaram uma candidatura de perfil de centro-direita, com Martha Rocha.

  1. Frente Ampla e Frente de Esquerda

Além da dificuldade de reunir objetivamente toda a “centro-esquerda” num mesmo bloco de chapas, a proposta em si de uma unidade de centro-esquerda, de uma “frente ampla progressista”, é ela mesma muito problemática. Face às dificuldades presentes de barrar a ofensiva da extrema direita, é natural a busca por apoios em frações dissidentes da burguesia e de sua representação política, mas este apoio só pode evoluir em um programa comum se o conteúdo programático da esquerda ficar pelo caminho. Esta abdicação programática tende a sacrificar as pautas mais essenciais para a maioria da população, bem como dos setores mais vulneráveis e oprimidos. Isto se demonstrou mais de uma vez nas opções de parte da esquerda no parlamento. Um exemplo foi no apoio dado à versão do Pacote Anti-Crime que, embora mitigado frente à proposta original, ainda representava um retrocesso punitivista, com consequências graves para a juventude negra e periférica. Outro exemplo foi o apoio da maior parte da esquerda à fracassada candidatura de Baleia Rossi à presidência da Câmara, ao troco da qual o deputado do DEM em nada se comprometeu com a defesa de pautas caras à esquerda. O conteúdo de uma “frente ampla progressista” que evolua num segundo turno em “frente ampla democrática” ou frente amplíssima com a direita só pode ser o do abandono das pautas centrais da esquerda que ultrapassem unicamente a defesa da permanência do regime democrático.

Uma outra moeda de troca indispensável para uma tal frente ampla é a promessa implícita de uma esquerda moderada também nas lutas sociais diretas, para não assustar ou repelir segmentos empresariais para o campo da extrema direita. Esta moderação vai no sentido oposto da necessidade de mobilizar massas para o enfrentamento do projeto bolsonarista e da ofensiva burguesa que este promove. Uma frente ampla caracterizada pela moderação e esvaziamento programático não terá força social para enfrentar uma extrema direita mobilizada e coesa, apoiada no uso ou ameaça da violência direta através de milícias e da cooptação das forças de segurança. Para um enfrentamento deste tipo é necessário convicção e entusiasmo numa proposta política que se enderece às necessidades da maioria da população. A frente ampla, portanto, prepara uma nova derrota, ainda pior.

Os anseios por uma ampla coalizão contra a barbárie se originam em parte importante de seus proponentes de uma preocupação correta com a degradação da situação social e política do país, com a emergência de uma extrema direita fortemente associada com o banditismo e a autonomização das forças policiais. Porém, sua aposta é que uma unidade ampla anódina, em essência sem projeto, é mais forte que uma unidade construída em torno daqueles que lutam, que organizam trabalhadores, negros e negras, mulheres, LGBTs, em luta direta com o conjunto do projeto da extrema direita, que leve consigo a promessa de um governo que atenda às demandas da maioria. A nossa aposta não pode ser definida pela amplitude da frente proposta, tão ampla que indefinida, mas sim por uma frente caracterizada por ser de esquerda, pela qual vale lutar.