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BRASIL

É fake que professor/a não quer trabalhar

Jorgetânia da Silva Ferreira, de Uberlândia, MG*
Marcelo Camargo/EBC

Em meio à gravíssima crise sanitária e ao crescimento exponencial das contaminações e das mortes, somos obrigadas a conviver também com o fato de termos um governo aliado ao vírus e que diz que professor não quer trabalhar. A pandemia tem dado a Bolsonaro a oportunidade de passar a boiada sobre as políticas públicas garantidoras de direitos e conquistadas ao longo do século XX. 

Obviamente, é mentira que professor/a não quer trabalhar. Não só quer como está trabalhando muito e com seus próprios recursos. Usando o computador que se endividou pra comprar com sua energia elétrica, mesa, cadeira e internet. 

A educação escolar pública é uma das políticas que é oferecida à população de forma permanente e apesar das condições. Quando as outras estão escassas, lá está a escola pública dando suporte até mesmo em aspectos que deveriam ser de outras áreas.

A escola e seus profissionais estão sobrecarregados/as com tantas exigências e desafios. Mas lá estamos nós realizando nossa tarefa, dando nossa contribuição ao país e cumprindo os compromissos que assumimos na nossa formação. 

É preciso que seja dito que a mentira de que “professor/a não quer trabalhar” tem um propósito oculto. Os inimigos da educação pública têm trabalhado no sentido de esvaziar e desmoralizar a profissão docente e isso vem ocorrendo mesmo antes da pandemia.

É preciso que seja dito que a mentira de que “professor/a não quer trabalhar” tem um propósito oculto. Os inimigos da educação pública têm trabalhado no sentido de esvaziar e desmoralizar a profissão docente e isso vem ocorrendo mesmo antes da pandemia.

Inventaram a “escola sem partido”, diziam que docentes queriam doutrinar estudantes. Depois vieram com o projeto de ensino domiciliar (homeschooling), mais uma vez para dizer que profissionais da educação não têm autoridade para educar, que essa deveria ser uma função exclusiva da família. Como se não houvesse uma sólida formação docente.

Todas essas iniciativas buscam destruir a escola pública porque sabem de sua importância para que haja, em um país tão desigual como o Brasil, alguma possibilidade de transformação. Contudo, apesar do esforço das elites de desmontá-la, ela continua sendo espaço de resistência, inclusão e transformação. Para os projetos autoritários, reacionários e elitistas em curso, esse equipamento social é uma pedra no caminho, por isso a busca do desmonte da educação pública. Campanhas sistemáticas de desqualificação e desvalorização profissional somadas à ausência de condições de trabalho tem gerado insatisfação da categoria docente com a profissão, além de adoecimento e morte. É duro se preparar anos para exercer a profissão e receber esse tratamento.

Se compreendermos as razões pelas quais querem desmontar a escola pública, podemos buscar energia e esperança para seguir lutando em defesa da nossa profissão e da escola pública.

Sim, a educação é uma atividade essencial e continuamos a realizá-la de forma remota há quase um ano. O projeto de lei aprovado na Câmara dos Deputados e que seguiu para o Senado quer impor que esse serviço seja oferecido de forma presencial mesmo durante a pandemia. Mas, não se enganem. Essa decisão foi tomada pelos mesmos que defendiam a homeschooling e falavam contra a importância da educação escolar.

Esses governos e esse setor da sociedade têm outros projetos. Se tivessem preocupados com a qualidade da educação pública, poderiam votar leis para agilizar a viabilização das vacinas para que pudéssemos voltar às aulas presenciais em segurança. Ou para viabilizar equipamentos e condições para as aulas remotas. Ou aprovar recursos para a ampliação das escolas e salas de aulas, tirando-as da precarização, da falta de ventilação, da superlotação. Nada disso. Estão militando para acabar com a escola pública, expondo toda a sociedade aos riscos de contaminação e morte. Nos matar é um projeto em curso. Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer.

Resistência hoje, mais do que nunca, é condição da nossa existência.

Sigamos em lutas, professores/as.

*Jorgetânia da Silva Ferreira é professora do Instituto de História da UFU, foi presidenta da Adufu e é animadora do movimento Mães pela Vacina.