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Sobre a militância (26): Sobre a vida privada

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

A base objetiva do humanismo de Marx e, simultaneamente, de sua teoria da evolução social e econômica é a análise do homem como um animal social. O homem — ou melhor, os homens — realizam trabalho, isto é, criam e reproduzem sua existência na prática diária, ao respirar, ao buscar alimento, abrigo, amor, etc. Fazem isto atuando na natureza, tirando da natureza (e, às vezes, transformando-a conscientemente) com este propósito (…) Mas, ao mesmo tempo, este processo de emancipação do homem em relação às suas condições naturais originais de produção, é um processo de individualização humana. “O homem só se individualiza através do processo histórico. Surge, originalmente, como um ser genérico, tribal, um animal de rebanho… [1]

Eric Hobsbawm

 

Organizações socialistas não têm opinião sobre tudo. Elas são ferramentas de luta política na defesa de um programa. Tampouco devem ser monolíticas. É previsível que tenham debates internos constantes sobre diferentes táticas inspiradas no mesmo programa. Quando e como polêmicas táticas são ou não públicas cada organização deve decidir à luz do seu regime interno. O que define a militância é a disciplina política. Sobre temas que não são políticos não deve se impor centralismo. Os militantes devem ter plena liberdade de opinião sobre os temas mais variados da vida cotidiana, do lazer, da cultura, da ciência.

Coletivos não podem diminuir, sufocar, amordaçar, anular a expressão individual de ninguém, muito menos de seus membros. Ao contrário, elas devem estimular a livre expressão dos potenciais diversos de cada militante. Há uma dimensão privada na vida. Há uma parte desta experiência que é, inclusive, estritamente, pessoal. A individualização foi uma conquista social histórica.

Não deve ser confundida com individualismo. Nossas organizações são inspiradas por ideias coletivistas, mas não queremos erguer seitas em que todos pensam igual sobre tudo. Coletivismo é o avesso, oposto, ou o contrário de individualismo. Defende uma ideia simples, mas poderosa: os interesses de muitos devem ser prioritários diante dos interesses de poucos.

Quando atravessamos uma etapa defensiva e desfavorável da luta de classes, e a luta pelo poder fica mais difícil, tende a ocorrer um duplo processo. Uma parcela da militância mais cansada, desgastada ou desmoralizada se afasta dos coletivos organizados. Outra parte do ativismo se engaja na superpolitização de tudo. São compreensíveis e, até previsíveis, mas não inofensivos.

A invasão do espaço da vida privada, nem falar da vida pessoal, não são bons critérios. A experiência de compartilhar compromissos políticos une as pessoas em uma empolgação intensa. Quando somos jovens, em especial, este pertencimento a uma comunidade é muito estimulante. Mas discutir a vida dos outros não é saudável. A colaboração militante não é o mesmo que a intimidade pessoal. Intimidade é algo que se oferece, não se toma. A intimidade de cada um deve ser sempre respeitada. A militância é uma escola de autodisciplina e, também, autocontenção.

As preferências, inclinações, escolhas de cada um não devem, também, ser temas submetidos ao escrutínio do coletivo. Os militantes terão seus gostos, idiossincrasias. Ninguém é melhor ou pior do que ninguém por isso. O que cada um decide comprar não é da conta de ninguém. Não submetemos à discussão dos coletivos em que atuamos os hábitos de consumo de cada um. Ninguém deve se sentir criticado, discriminado ou excluído por eles.

Os hábitos alimentares devem ser livres e diversos. Dietas carnívoras, veganas ou outras podem ser debatidas. Mas é insano querer decidir sobre o que os outros devem gostar. Os lazeres serão, necessariamente, variados. Uns adoram praticar esportes, acompanhar competições, e outros não. Uns gostam de sair para beber e conversar, ou jardinagem, ou montanhismo, outros odeiam. Uns gostam de ler e estudar, outros não tanto. Uns adoram televisão, novelas, programas de humor, e outros teatro, carnaval, ballet, até ópera. Os estilos musicais serão os mais diferentes.

Alguns se vestem de um jeito formal, outros esportivo, outros nenhum estilo, não importa, não usamos uniformes. Outros curtem acessórios, adoram tatuagem, se perfumam, não importa. Os cabelos podem ser grandes, curtos, coloridos ou raspados, não importa. Somos camaradas, mas diversos.

O que nos une é a luta por um programa político. O que é importante é que tenhamos pleno conhecimento desse programa. Nada menos, mas, tampouco, nada mais. Evidentemente, há um compromisso grande nesse engajamento. A luta contra o capitalismo não pode ser hobby. A militância não é um trabalho, mas não é uma diversão.

Não temos nada contra os passatempos. A vida adulta pede de nós a capacidade de nos distrairmos. Alguns preferem fazer coleções, aeromodelismo, pescaria, pintura ou cozinha, leitura ou cinema, cantar, dançar ou fotografia. Respeitamos a individualidade de cada um. Esse respeito não nos enfraquece, nos fortalece.

O marxismo é uma das correntes históricas do movimento socialista. Uma de suas características é a defesa do igualitarismo anticapitalista. O igualitarismo marxista é coletivista. Identifica na propriedade privada o fundamento jurídico do capitalismo. Defende a igualdade social e a socialização da propriedade privada.

Argumenta que a existência do capital é indissociável do aumento da desigualdade social. A igualdade social defendida pelo marxismo não é somente a igualdade de oportunidades. Os socialistas acolhem e defendem, também, a equidade social. Reconhecem a justiça e legitimidade da luta pela equidade social nas sociedades capitalistas como progressiva. Mas a defesa da equidade social é inferior à igualdade social.

A luta pela equidade social é um combate pela igualdade jurídica, mas, também, entre os liberais mais honestos, real de oportunidades, ou equiparação de direitos e deveres. Significa tratamento igual dos desiguais, uma forma meritocrática de nivelação. Mas oferecer garantias universais e iguais para indivíduos desiguais perpetua a desigualdade, não a corrige. É um programa de reforma do capitalismo, impondo freios ao aumento da desigualdade. O movimento socialista tem a ambição de superar o capitalismo. Por isso, o critério socialista é tratar de forma desigual os desiguais.

Há muitos na esquerda que estão, seriamente, comovidos pela injustiça da desigualdade social, mas não romperam com os limites de uma visão liberal-democrática do mundo. Quando se aproximam de organizações socialistas ficam um pouco chocados com nosso compromisso coletivista, porque idealizam a equidade, e temem a perspectiva da igualdade social. Os terríveis limites históricos das experiências de transição ao socialismo, tampouco, ajudam a superar as desconfianças.

Nesse terreno, recorremos a Marx. Não somos mais animais de “rebanho”, somos seres sociais que transformamos o mundo e a nós mesmos. A individualização foi, historicamente, progressiva. Mas a função da propriedade privada do capital não é defendê-la, é amputá-la. Porque não há liberdade entre desiguais.

NOTAS

[1] HOBSBAWM, Eric. Marx e as relações pré-capitalistas in Como mudar o mundo. São Paulo, Companhia das Letras, 2011, p.122. Disponível em:  https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1791199/mod_resource/content/1/Forma%C3%A7%C3%B5es%20Econ%C3%B4micas%20Pr%C3%A9-Capitalistas.pdf

Consulta em 30/12/2020.

Marcado como:
Série militância