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José de Alencar já era bolsonarista em 1867?

Direita Volver

Coluna dedicada ao acompanhamento semanal das ações e absurdos dos representantes da extrema direita. Por Ademar Lourenço.

Muitas pessoas dizem que o bolsonarismo é um fenômeno recente na política brasileira. Mas a mistura de moralismo hipócrita, racismo, machismo e discurso violento vem muito antes do atual Presidente ficar famoso. Na verdade essa ideologia da direita brasileira tem raízes muito profundas em nossa cultura.

Onde tudo começou? Desde quando uma parte da classe média e das elites passou a ser violentamente contra qualquer avanço social e até mesmo científico? Desde quando o pensamento elitista e preconceituoso tomou forma? Bom, no início dos anos 60 os grupos que defendiam a Ditadura Militar já tinham um discurso muito parecido com o dos bolsonaristas de hoje. Mas a base deste caldo ideológico pode ter raízes na cicatriz mais profunda de nossa história: a escravidão.

O Brasil nunca se preocupou em abolir ou sequer reduzir o trabalho escravo por cerca de 300 anos. No entanto, em 1850, uma lei proibiu a entrada e escravos vindos da África para o Brasil. O tráfico negreiro não acabou de verdade, mas foi um pouco dificultado. Em 1871, uma lei determinou que todas as pessoas nascidas de filhos de escravos eram livres. As bases da escravidão continuaram. Mas para uma certa camada da sociedade, nem essas pequenas mudanças deveriam ter sido feitas.

O Brasil nunca promoveu grandes transformações sociais. Mas uma parcela da sociedade se destaca por ser contra até mesmo as pequenas concessões que a classe dominante faz. Dentro desta parcela estava o Senador José de Alencar, que também foi um famoso escritor.

Seu pensamento político pode ser resumido em uma série de cartas escritas entre 1867 e 1868, que foram compiladas nos dias atuais na forma do livro “Cartas a favor da escravidão”. José de Alencar seria ídolo daqueles que hoje lutam contra o “politicamente correto”.

Em defesa da moral e dos bons costumes

Em sua primeira carta, José de Alencar enaltece a monarquia e repudia a república. “Um rei pode ir até a ferocidade do tigre, não passa além; mas a multidão é uma voragem, um abismo, um hiato imenso e pavoroso da atrocidade humana. Equivale o republicano ao ateu em política”. Os monarquistas de hoje dizem que a família imperial brasileira sempre foi defensora da abolição e mal vista pelos escravocratas. O puxa-saquismo de José de Alencar mostra exatamente o contrário.

Ele demonstra muita preocupação com a manutenção dos costumes, pois qualquer mudança poderia corromper o país. Ele já usava o discurso contra a corrupção para atacar qualquer ideia minimamente progressista. Já naquela época, as ideias de transformação social eram vistas como uma conspiração vinda do exterior, tal como a defesa da Amazônia é vista pelo bolsonarismo como uma conspiração francesa.

“Grande erro, senhor, prejuízo rasteiro que não deverá nunca atingir a altura de vosso espírito. Estas doutrinas que voz seduziram, longe de serem no Brasil e nesta atualidade impulsos generosos de beneficência, tomas ao revés o caráter de uma conspiração do mal, de uma grande e terrível impiedade”. Se fosse hoje, os abolicionistas seriam acusados de dar kit gay às crianças.

“Ainda mesmo extintas e derrogadas, as instituições dos povos são coisa santa, digna de veneração. Nenhum utopista, seja ele um gênio, tem o direito de profana-la”, completa o escritor, que em várias partes cita Deus e o cristianismo para justificar a escravidão. Parece aquele pessoal que diz que certas mudanças vão acabar com a família brasileira, não é?

A escravidão foi boa para os escravos, segundo o escritor

A ideia de que a escravidão foi boa para os próprios escravos não vem de hoje. O atual presidente da fundação Palmares, Sérgio Camargo, iria assinar embaixo das palavras de José de Alencar.

“O escravo deve ser, então, o homem selvagem que se instrui e moraliza pelo trabalho”, diz o então Senador. Nesta obra, ele demonstra todo seu racismo e reproduz a ideologia a de que o negros e o índios são raças inferiores que, se não fossem tuteladas pelo homem branco, se tornariam um bando de depravados e preguiçosos. Bem no estilo da hoje socialite Bia Dória, que diz que pessoas em situação de rua evitam dormir em albergues para não ter obrigações. Boa parte dos que estão na rua, não por coincidência, são descendentes de pessoas escravizadas.

Claro, este pensamento era comum no século XIX. Mas abolir a escravidão, mesmo que gradualmente, não era uma ideia marginal naquela época. José de Alencar não era apenas um homem dentro da média de seu tempo. Ele era proativo em ser contra inclusive os pequenos avanços que já haviam sido aprovados no parlamento.

Além disso, sua defesa da escravidão vai além de mero racismo. Ele chega a afirmar que “se a escravidão não fosse inventada, a marcha da humanidade seria impossível”. Bem no estilo dos que dizem que, se não fosse a precarização do trabalho, o Brasil não seria capaz de gerar empregos.

Mas José de Alencar elogia os escravos. “Ao continente selvagem, o homem selvagem. Se este veio embrutecido pela barbaria, em compensação trouxe energia para lutar com uma natureza gigante”. Ou seja, o negro é forte e aguenta ser escravizado. Não é por acaso que Bolsonaro diz que não é preciso tomar cuidado com o Corona Vírus pois o brasileiro é um povo que pula no esgoto e não acontece nada.

Talvez este elogio faria Sérgio Camargo afirmar que José de Alencar não era racista. Afinal, o escritor até defende a miscigenação. Em sua obra o Senador do século XIX afirma que “o amálgama das raças se havia de operarem larga proporção, fazendo preponderar a cor branca”. Ele também afirma que o Brasil ficaria incompleto sem a importação de “sangue africano”. O discurso a favor da assimilação do negro e de uma suposta democracia racial já era usado em defesa da submissão do negro desde 1867. Mas tem quem ainda finge não saber disto. José de Alencar também já usava no século XIX o discurso de que os europeus também foram escravos, e por isto a escravidão era normal. Ele só não usou a palavra “vitimismo” porque ela não estava na moda.

O escritor afirma que a escravidão pode ser cruel, mas é inevitável. “Como todas as instituições sociais que têm radicação profunda na história do mundo e se prendem à natureza humana, a escravidão não se extingue por ato de poder”, diz. Muito parecido com o discurso daqueles que dizem que “não podemos dar direitos trabalhistas na base da canetada” e que a “exploração do trabalhador é algo natural”, não é mesmo?

Discurso de José de Alencar é atual

Em outra carta, José de Alencar mostra suas verdadeiras preocupações. “O liberto por lei é inimigo nato do antigo dono […] O ódio de raça, que se havia de extinguir naturalmente com a escravidão, assanha-se ao contrário daí em diante”. Só faltou ele falar de “racismo reverso”. Já naquela época, as elites sabiam que os negros um dia iriam cobrar sua dívida histórica. E nisso o escritor estava certo. Hoje seus descendente estão tendo trabalho.

Numa época em que não existia a “patrulha do politicamente correto”, José de Alencar podia destilar seu racismo livremente. Ele é uma amostra do que realmente pensam aquelas pessoas que “até têm um avô negro”. O racismo desse tipo de gente não mudou um milímetro em 150 anos. O que mudou foi o quanto eles se sentem à vontade para expor suas ideias.

De acordo com José de Alencar, a escravidão ainda deveria por séculos e seria lentamente, mas bem lentamente, muito lentamente mesmo, extinta. Se suas ideias prevalecessem, a senzala existiria até hoje. Isto mostra o quanto este tipo de gente é perigosa e prejudicial para os avanços sociais.

Elitismo, racismo, defesa das tradições, teorias da conspiração, preocupação com uma suposta moral, descrença no progresso humano. O discurso bolsonarista de 2020 tem as mesmas características do discurso de José de Alencar em 1867. Mas talvez haja um motivo para o escritor não ser considerado o patrono da extrema-direita. Ele era culto e escrevia de maneira coesa, elegante e correta.