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Estamos virando o jogo?

Direita Volver

Coluna dedicada ao acompanhamento semanal das ações e absurdos dos representantes da extrema direita. Por Ademar Lourenço.

Cada um tem uma forma de fazer contas. Número de vereadores de eleitos, número de prefeitos, levar em consideração apenas as cidades com segundo turno e por aí vai. A eleição para prefeitos e vereadores é um evento muito complexo e não dá para saber o tal “recado das urnas” apenas com uma fórmula matemática. Temos que avaliar o peso simbólico dos resultados.

Por isto as eleições no Rio de Janeiro e em São Paulo exercem um peso grande no quadro político nacional. Elas apontam tendências que podem influenciar a política brasileira. Não são apenas os maiores municípios. São as sedes das empresas, da mídia, A maioria das pessoas que exercem influência social e cultural no país escolhe uma das duas cidades como moradia. Rio e São Paulo são os palcos das grandes manifestações. E são duas cidades que dependem muito pouco dos arranjos regionais. A bandeira da cidade de São Paulo já avisa: “Non ducor, duco”. Do latim “Não sou conduzido, conduzo”.

E São Paulo parece conduzir o Brasil para o início do fim do ciclo reacionário em que vivemos. Desde 2016, passamos por derrotas atrás de derrotas. Mas a chegada de Boulos no segundo turno é um fato que encheu nossos corações de otimismo. Não se trata apenas de uma candidatura de esquerda com chances de vitória, já estamos acostumados com isso. Se trata de uma renovação dentro da própria esquerda.

Assim como em 2018, centenas de pessoas estão se organizando para fazer campanha nas ruas durante o segundo turno de uma eleição. Mas há dois anos a situação era outra. Estávamos apoiando um candidato que não era exatamente o que a gente queria, e do outro lado havia o fascismo. Era uma campanha defensiva. Agora o fascismo declarado está fora do segundo turno. Não que gostemos de Bruno Covas, pelo contrário. Mas a militância está nas ruas não apenas por rejeitar o atual prefeito. Mas porque acredita no projeto do grupo que formou a candidatura de Boulos, porque enxerga nele uma esperança de mudanças. A campanha agora é ofensiva.

São Paulo foi palco em 2016 das enormes manifestações reacionárias que deram impulso ao golpe que colocou Michel Temer na Presidência e abriram caminho para Bolsonaro. Era a cidade dos “coxinhas”, como se diz pejorativamente. A votação de Boulos mostra que algo de qualitativo está mudando na maior cidade do Brasil. E isto tende a se refletir no resto do país.

Devagar com o andor que o santo é de barro

Otimistas sempre, iludidos nunca. As eleições municipais não mataram o neofascismo. Eles foram derrotados eleitoralmente, mas em parte porque não entraram de cabeça nas campanhas municipais. Bolsonaro poderia ter colocado os filhos como candidatos nas duas maiores cidades, por exemplo. Mas preferiu se distanciar. Isso reduziu o peso da derrota. É bom lembrar que o governo ainda mantém um índice de popularidade na casa dos 40%.

A direita tradicional do PSDB e do DEM saiu fortalecida e pode se preparar para ter um candidato forte em 2022. O chamado “centrão” ganhou, como sempre, a maioria das prefeituras nas profundezas de nosso país. É o grupo chamado de “centrão” que dá as cartas no balcão de negócios do Congresso Nacional.

A esquerda teve um resultado tímido, apesar de se recuperar parcialmente do baque sofrido em 2016 e 2018. A grande mudança é que o PT não é mais o partido hegemônico das esquerdas nas grandes cidades. Por um lado, isto abre espaço para renovações. Por outro, isto pode dificultar a necessária unidade contra o fascismo.

Nas redes sociais, as candidaturas de esquerda ocuparam um bom espaço. Se em 2015 a chamada Nova Direita tinha a hegemonia no debate político digital, isto mudou em 2020. Boulos, por exemplo, foi o candidato mais compartilhado no Facebook. Mas a direita como um todo, com seus vários influenciadores, ainda consegue ter mais engajamento.

A direita está nos espaços virtuais, nas ruas, nas igrejas, nas milícias, controlando os currais eleitorais do interior. A classe dominante manteve intactas suas ferramentas para manipular a população. No Rio de Janeiro o povo vai ter que escolher entre a velha política de Eduardo Paes (DEM) e o fanatismo religioso de Crivella (Republicanos).

2021 será um ano de grande lutas

No ano que vem os movimentos sociais enfrentarão grandes batalhas. Em primeiro lutar, teremos que impedir que o governo sabote a vacinação contra a Covid-19. Depois, a luta contra o pacote de maldades que Bolsonaro e o Congresso nos reservam. Privatização dos Correios, da Eletrobras e de outras empresas, reforma administrativa, entre outras medidas previstas. Se 2020 foi um ano de ruas paradas, 2021 tem tudo para ser um ano de ruas cheias.

A esquerda já é vitoriosa, independente de ganhar ou não a prefeitura de São Paulo. Milhares de pessoas no Brasil inteiro choraram pela primeira vez de alegria em cinco anos. A energia desta campanha militante vai influenciar o Brasil inteiro e nos dar força para as lutas que nos aguardam em 2021. Não viramos o jogo, mas ganhamos força para tentar. O round decisivo será nas ruas.