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MUNDO

O establishment do Partido Democrata culpa os progressistas pelo seu próprio fracasso

Emanuel Assis, Campinas (SP)*

Apesar da vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais nos Estados Unidos, o Partido Democrata enfrenta hoje um dilema: a perda gradativa da sua base de apoio. Perda essa que foi refletida nos resultados do legislativo, onde os democratas, apesar de ainda manterem a maioria, perderam algumas cadeiras na Câmara dos Representantes e correm o risco de continuarem sendo minoria no Senado. O grupo majoritário de democratas neoliberais do partido não hesitou em culpar os progressistas por essa derrota. Segundo eles, as políticas “radicais” e a fama de socialistas que eles carregam os tornaram “alvos fáceis” para ataques republicanos, que afastaram o eleitorado do partido.

Esses argumentos não fazem sentido algum. A culpa de o Partido Democrata estar derretendo é da própria máquina partidária, que empurra a sua política para o que Nancy Fraser chama de “neoliberalismo progressista”, ou seja, a mistura das pautas identitárias, como o feminismo, a luta antirracista e por direitos LGBTs, com os interesses de grandes corporações, entre elas os bancos, Wall Street, e até mesmo a indústria da guerra. Na prática, apesar do discurso favorável as minorias, a realidade da classe trabalhadora continua a mesma: sem direito a saúde e educação universal e de qualidade, sem direitos trabalhistas e com salários mínimos muito baixos.

O Partido Democrata vem se afastando cada vez mais da sua imagem como representante da esquerda nos Estados Unidos (se é que de fato já foi um dia), principalmente no pós-Reagan e a chegada da globalização, adotando de vez a cartilha neoliberal fundada por Thatcher. Foi assim com Clinton, com Obama, e será assim com Biden. Parece que 4 anos depois o establishment democrata ainda não entendeu que Trump se projetou como um representante da “nova política” e conquistou apoio massivo da população estadunidense justamente pelo fato de que a classe trabalhadora já não aguenta mais governos da ordem, que seguem na missão impossível de tentar administrar o capitalismo.

Os fatos não mentem

Falaram que a culpa do fracasso democrata é dos progressistas, então vamos aos fatos: Os progressistas expandiram suas cadeiras na Câmara esse ano, ao contrário dos “moderados”. Os Socialistas Democráticos da América (DSA), a maior organização de esquerda do país conseguiu dobrar o número de representantes no Capitólio, além de já terem passado a marca de 80 mil membros. Quase todos os candidatos que defenderam o Medicare for All, o Green New Deal e o aumento do salário mínimo para 15 dólares a hora em suas campanhas foram eleitos ou reeleitos, ao contrário dos que não defenderam. Até mesmo antes das eleições, nas prévias que o partido realizou no início do ano para decidir os nomes para concorrerem, os progressistas já mostraram a força que suas propostas têm, desbancando nomes que já estavam no poder há anos, recebendo doações milionárias em suas campanhas. Cori Bush, Rashida Tlaib, AOC, Jamaal Bowman, Ilhan Omar, etc.: Todos eleitos!

O próprio fenômeno Sanders, que mobilizou milhões de estadunidenses em 2016 e esse ano também expressa o anseio popular por outra sociedade. Além disso, uma pesquisa feita pelo instituto Gallup mostrou que 4 em cada 10 estadunidense tem uma visão positiva sobre o socialismo. A culpa dos democratas estarem perdendo o apoio da população seria mesmo dos progressistas? Ou o que falta ao partido é reconectar suas políticas a classe trabalhadora?

Não podemos nos esquecer de que o trumpismo ainda não foi derrotado nas ruas, e continuará crescendo, capitulando cidadãos desiludidos com a política de manutenção do status quo estadunidense. É preciso que o fascismo seja derrotado pela classe trabalhadora, mas para isso, ela precisa ter esperança no futuro, ela precisa de uma alternativa que não seja mais um governo da ordem. O Partido Democrata precisa entender isso antes que seja tarde!

*Emanuel Assis: Estudante de Relações Internacionais e militante do Resistência/PSOL – Campinas.

 

*Esse é um artigo reflete as posições do autor e não necessariamente representa as opiniões do Esquerda Online

 

https://www.nytimes.com/2020/11/07/us/politics/aoc-biden-progressives.html

https://www.nytimes.com/2020/11/05/us/house-democrats-election-losses.html

https://www.dailymail.co.uk/news/article-8926769/amp/AOC-says-DIDNT-cost-Dems-seats-socialist-label-Clyburn-says-defund-police-bust.html

https://thehill.com/homenews/house/525441-tlaib-targets-centrist-democrats-i-cant-be-silent?amp

https://diplomatique.org.br/nancy-fraser-o-neoliberalismo-nao-se-legitima-mais/