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Da maldição de Thatcher à construção de novas alternativas: a esquerda que não tem medo de dizer seu nome

Juliana Fiuza Cislaghi

Mestre e Doutora em Serviço Social pelo PPGSS/UERJ, Especialista em Saúde e Serviço Social, Professora Adjunta da Faculdade de Serviço Social da UERJ e pesquisadora do GOPSS – Grupo de Estudos e Pesquisas em Orçamento Público e Seguridade Social. Diretora da Associação de Docentes da UERJ (Asduerj) entre 2011 e 2015 e diretora do ANDES-SN entre 2016 e 2018.

Todos os acontecimentos na luta de classes desde a virada neoliberal só comprovaram que não, a História não acabou. A luta de classes segue seu curso com a ascensão de novos sujeitos, novas reivindicações, novas formas organizativas. Imediatamente bem sucedidos ou não, quem está vivo peleja, e acha novos espaços, novas consciências, novos parceiros e novos desafios. E todas as vitórias precisam ser comemoradas.

No entanto, esses esforços coletivos foram evidentemente insuficientes para reverter, ou até mesmo interromper, a barbárie social que segue destruindo as condições de sobrevivência dos trabalhadores no mundo inteiro, renovando o patriarcado, a xenofobia, o racismo, o fascismo, a violência física contra os trabalhadores.

Décadas de resistência da classe trabalhadora em suas múltiplas determinações de gênero, etnia, sexualidade, suas múltiplas formas de organização sindicais, territoriais, por identidades foram e seguem sendo tragadas e desmoralizadas pela cooptação de suas pautas que, atomizadas, alimentam reiterativamente a maldição de Thatcher e esbarram no paredão do capital neoliberal, agora em sua forma ultra violenta, expropriadora, exploradora. Não há alternativa.

E então talvez pareça razoável, só por hoje e por enquanto, fazer aliança com uma delegada adepta e ex-operadora da violência estatal, ir em uma grande organização do capital dizer que não teme o setor privado, defender que com alguma regulação, afinal somos pessoas bem intencionadas, é possível seguir com a contratação precarizada dos profissionais da saúde pública, receber financiamento de um grande banqueiro que jura preocupação com a questão racial no Brasil ou entender a inevitabilidade do ensino de remoto. Afinal somos maduros e realistas.

Acontece, no entanto, que o capital, do lado de lá, de coturno ou sapatos finos de grife não é bem intencionado, maduro ou sequer realista. A cada dia transforma mais a crise humanitária em grandes oportunidades de ampliação de desigualdades, destruição de solidariedades e vai renovando, para os trabalhadores que forem considerados por eles bem intencionados e maduros, mecanismos de cooptação. Afinal, diz Thatcher do inferno, não há alternativa.

Lutemos e comemoremos as vitórias parciais porque elas são nossas. Se fosse fácil para o capital ele não faria nenhum esforço em renovar as ideologias e as cooptações. Mas voltemos urgentemente a ser a esquerda que não tem medo de dizer seu nome: não queremos renda básica queremos emprego como trabalho socialmente referenciado nas necessidade da maioria e autorganizado, política social universal com concurso público e estabilidade nas políticas de saúde, Previdência Pública universal, taxação pesada das grandes fortunas  para acabar com os bilionários e o fim da superexpropriação dos recursos naturais que vai destruir o planeta. Com os povos indígenas, com as mulheres que pedem o mínimo – o direito sobre seus corpos, com o movimento negro nos EUA, no Brasil, na Nigéria – que também querem o mínimo, que o Estado do capital pare de matá-los. Com todos juntos: trabalhadores expropriados de qualquer condição de viver, ou mesmo sobreviver.

Precisamos querer mais, enxergar além, renovar nossos horizontes. Nunca a luta de classes foi tão evidentemente uma luta pela sobrevivência dos seres humanos e nunca a sobrevivência dos seres humanos foi tão evidentemente uma luta contra o capitalismo. Outra forma de viver é possível, urgente e necessária.

Marcado como:
Neoliberalismo