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Ecossocialismo: o caminho para um mundo novo

Marina Amaral, Afronte (BA) e Luiz Arias, Afronte (PA)

Nos últimos anos, o debate ambiental tem ganhado cada vez mais destaque nas discussões políticas globais. A devastação de florestas tropicais, os desequilíbrios ecológicos que afetam a humanidade e as toneladas de CO2 lançadas na atmosfera são objetos de uma preocupação crescente em grande parte da comunidade científica e de lideranças políticas ao redor do mundo. A questão do clima é especialmente relevante, pois cientistas apontam que caso a temperatura do planeta atinja o aumento de 1,5ºc, quando comparada com os níveis pré-industriais, as consequências para o meio ambiente e a vida humana na Terra serão irreversíveis. As previsões são catastróficas, e beiram a distopia das cenas de filmes em que cidades inteiras são engolidas pelo aumento do nível do mar. Infelizmente, esse cenário apocalíptico é mais real e provável de acontecer do que qualquer outra ficção científica das telas de cinema.

De onde surge o problema?

Os cientistas atribuem a principal responsabilidade ao ser humano. Com o início da Revolução Industrial, a humanidade ampliou em muito a sua técnica e capacidade de transformar a natureza. O desenvolvimento da indústria capitalista fez crescer exponencialmente a necessidade de matérias-primas e fontes de energia para a produção das mercadorias. Por consequência, produzimos máquinas capazes de devastar florestas inteiras, transformá-las em pasto, explorar jazidas minerais à exaustão e usar de combustíveis fósseis como nossa matriz energética principal. As alterações provocadas nos últimos séculos pela humanidade são tantas, que geólogos afirmam já estarmos em uma nova era geológica, o antropoceno.

Contudo, apesar de termos acordo com essa explanação, é preciso ir além, pois a questão ecológica é uma questão científica, mas sobretudo, é uma questão política. Dessa maneira, não basta dizer que os seres humanos e o avanço da tecnologia são o problema do nosso planeta, é preciso ir à raiz da discussão. A nossa existência só se torna danosa quando estamos submetidos a um modo de produção completamente irracional, o qual possui uma relação predatória com aquilo que o cerca. Para que os lucros sejam maximizados sempre será necessário produzir muito, utilizando uma enormidade de recursos e extenuando a natureza. E também será preciso energia barata, o que explica a utilização em larga escala de fontes energéticas poluentes, mesmo quando a emissão de gases do efeito estufa ameaça a vida na Terra tal qual nós conhecemos.

Como o capitalismo, em especial na sua forma de liberalismo, não tolera qualquer tipo de planejamento ou racionalização, (afinal o que interessa é o curto prazo: o lucro distribuído entre os acionistas no fim do ano) a sua existência está em conflito mortal com a vida do nosso planeta. De um lado, o capital que busca a tudo consumir, da forma mais rápida e com o menor custo possível, e de outro lado, a necessidade de viver de maneira sustentável, em equilíbrio com a natureza, garantindo o direito a vida das gerações atuais e futuras.

Portanto, as crises ecológica e climática na qual estamos inseridos, nada mais são do que frutos de como o capitalismo molda a relação dos seres humanos com o planeta, impondo um estilo de vida completamente insustentável, no qual a natureza é vista apenas como matéria-prima para exploração e acumulação de capital. Exemplo disso é o fato de já possuirmos tecnologia suficiente para realizar a transição energética para fontes limpas e renováveis, assim como zerar o desmatamento. Mas prefere-se salvaguardar o interesse das grandes petroleiras e do agronegócio.

A ruptura metabólica e nossas alternativas

A pandemia da Covid-19, a qual assola o mundo em 2020 tem desnudad muitas das contradições do capitalismo. Mostra que sob a lógica deste sistema, é impossível garantir o equilíbrio do meio ambiente e da vida humana na Terra. Quanto mais tempo o capitalismo existir, mais florestas serão desmatadas, mais animais serão expulsos de seu território e maior a nossa exposição a novos tipos de vírus e doenças.

Partindo da afirmação anterior, é preciso compreender então, que a crise econômica, a crise sanitária e a crise ambiental não podem ser analisadas de forma separadas, pois são produtos de um mesmo problema: um sistema que transforma tudo, especialmente a natureza e os seres humanos em mercadoria e que não conhece outro critério que não seja a lógica da expansão infinita de lucros, custe o que custar.

Essa irracionalidade neoliberal causou uma ruptura metabólica entre os indivíduos e a natureza. Que não é apenas uma crise ecológica, mas é também humanitária, causada pelo capitalismo, que transforma forças produtivas em forças destrutivas. Por isso, a saída para as crises não podem ser pautadas na “ecologização do capitalismo” ou em criar um “capitalismo verde”. A saída não deve ser a recuperação do sistema, mas sim sua superação. Essa é uma das principais premissas do ecossocialismo: a defesa da construção de um novo projeto de sociedade que reestabeleça o metabolismo entre o planeta e os seres humanos que nele habitam a partir da superação do capitalismo e da construção de uma sociedade socialista.

Diante disso, é importante entender que ecossocialismo é socialismo, mas um socialismo que nega qualquer idealização ao produtivismo, e que, por isso, defende uma sociedade fundada na racionalidade ecológica, na planificação da economia, no controle democrático, na igualdade social e na supremacia do valor de uso em detrimento do valor de troca. Esses são conceitos importantes pra compreender, de forma objetiva, qual alternativa queremos construir.

Algumas alternativas são apontadas por cientistas que não são de esquerda, quiçá marxistas, mas defendem que se não mudarmos drasticamente nossa relação com a natureza, a humanidade desaparecerá. Nós, marxistas, vamos além. É preciso mudar a relação do ser humano com a natureza. Mas isso só acontecerá se mudarmos a relação entre as forças produtivas e a própria relação de produção. Marx apontou isso muito antes dos cientistas contemporâneos. Por isso, a crítica da economia política marxista, através do materialismo histórico dialético, é o fundamento indispensável para construir uma ecologia radical, que seja coerente com o meio ambiente e a vida humana na Terra.

O Ecossocialismo no Brasil

Tratando-se de Brasil e América Latina, não é possível pensar a vida humana na Terra de forma genérica. Por isso, é preciso construir um Ecossocialismo do Sul, que tenha no centro da sua política a defesa das comunidades tradicionais, dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, trabalhadores rurais, camponeses e todos os povos que historicamente são mais afetados com o produtivismo e a predação capitalista e que, por isso, têm sido linha de frente da resistência e da defesa do meio ambiente.

Esses povos já praticam algumas premissas do ecossocialismo há séculos. Os povos indígenas, por exemplo, tem uma forma de organização pautada em relações majoritariamente não monetárias, priorizando o valor de uso, retirando da natureza só o necessário, e resistindo diariamente ao avanço dos latifundiários, da mineração, do agronegócio, do racismo e do genocídio histórico.

Portanto, o ecossocialismo que queremos precisa compreender a nossa realidade brasileira e latino-americana e, por isso, ter no centro das suas elaborações a defesa da nossa floresta em pé, e dos nossos rios, contra o avanço do agronegócio, da grilagem, do garimpo ilegal, assim como dos projetos hidroelétricos de represamento das águas. Bem como, é preciso enfrentar a espoliação e o saque de nossos recursos naturais pelas multinacionais e potências capitalistas. Isto só será possível com a defesa intransigente dos povos originários, dos povos da floresta, da questão amazônida, da mudança de matriz energética, assim como do campo e da agricultura familiar.

A luta pela reforma agrária e reforma urbana também precisam ser uma defesa central, para que a terra e a moradia cumpram sua função social. Por isso, as demandas da cidade e do campo precisam estar intimamente ligadas. É importante ter ampliação dos transportes públicos, direito à moradia, saúde, saneamento básico, redução da jornada de trabalho; e desenvolver uma série de tarefas que não necessariamente são socialistas, mas que podem ser relevantes bandeiras de luta para o momento atual.

Não ter ilusões de que é possível ecologizar o capitalismo, como aponta Michael Löwy, não significa que não possamos lutar por algumas reformas imediatas. Pois cada vitória e cada avanço parcial nos aproximam de uma reivindicação maior e de um objetivo mais radical. Essas lutas em torno de questões concretas são importantes, tanto porque as vitórias parciais são úteis por si só, quanto porque contribuem para uma tomada de consciência ecológica e socialista.

É necessário dizer: nós não queremos deixar de progredir. Muito pelo contrário. O que queremos é reorientar o avanço da humanidade, para que este ocorra de maneira não destrutiva. Um progresso que seja pautado na qualidade e não na quantidade. Reorientar o desenvolvimento de maneira a torná-lo compatível com a preservação do equilíbrio ecológico do planeta e consequentemente a vida das pessoas. É possível? Sem dúvida. Mas não no sistema capitalista, por isso é preciso superá-lo através da revolução socialista e construir uma nova sociedade. Uma sociedade que respeite a diversidade cultural do nosso povo e seja construída sob novos pilares, livre de exploração, opressão e da destruição capitalista.