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Mulheres latinas e o mundo pós-pandemia: memória e resistências

Leia a entrevista completa da ativista chilena Jéssica Leguá, publicada na Revista do Afronte ‘É urgente um mundo novo’

Priscila Costa*, da Revista do Afronte - Tradução: Luciana Elena Vázquez
Coordinadora 8M

Nos últimos anos, o feminismo ocupou um espaço diferente no mundo. A nossa geração é parte de um processo de maior adesão às ideias feministas, de uma feminização dos protestos e do debate político. Em todos os continentes, as mulheres têm dado o recado, seja com greves internacionais, ruas lotadas nos 8M e movimentos como o #EleNão brasileiro, ou com o #NiUnaAMenos argentino. Na América Latina, milhares de mulheres ecoaram juntas um grito para impedir retrocessos em direitos e propor avanços na legislação sobre direitos ao próprio corpo, aborto legal, seguro e gratuito, maternidade, trabalho, acesso à terra e à equidade de direitos. São as mulheres, ainda, a formar a primeira trincheira da luta contra a extrema direita, os ataques à liberdade e aos direitos sociais no mundo.

Com a pandemia, a contradição entre capital/vida e os papéis de gênero se aprofundaram. Não há dúvidas de que, em diversas esferas, a vida pós-coronavírus será diferente. No campo das lutas feministas, o que teremos de continuidade e mudanças? Quais memórias são parte do processo para pensar um novo mundo? Para falar dessas e outras questões, entrevistamos a chilena Jéssica Leguá, que abordou o papel das mulheres nesse processo histórico. Em 2019, as mobilizações do 8M projetaram o Chile como um dos cinco países mais mobilizados em termos proporcionais do mundo. Jéssica faz parte da Coordinadora Feminista 8M, de Santiago, uma frente única de mais de 60 organizações sociais e políticas.

Revista do Afronte! – Um pouco antes da pandemia, as chilenas organizaram uma mobilização histórica no dia 8 de março deste ano. Na ocasião, cerca de 3 milhões de mulheres foram às ruas. Quais foram as principais bandeiras dessa marcha?

Jéssica Leguá – As bandeiras da Greve Geral Feminista 2020 estão marcadas pelos últimos processos vividos no Chile. De um lado, o esgotamento do sistema hegemônico que foi gerando uma profunda crise do regime político instaurado na ditadura, um regime que tem administrado a miséria e as precariedades de nossas vidas durante os últimos 30 anos. E, por outro lado, o desenvolvimento e crescimento de diversos movimentos sociais de forma orgânica, política e programática. O que levou a uma grande revolta e processo popular em curso, que colocou como manifesto o esgotamento do modelo, a crise neoliberal e a força popular como força constituinte que exige uma alternativa de transformação radical ao imposto, uma alternativa popular, soberana, feminista e plurinacional.

Enquanto milhões de pessoas fomos às ruas, encontrando-nos e reconhecendo-nos como povos em luta, o governo respondeu com militarização, violação sistemática dos direitos humanos, assassinatos e torturas. Em meio a esse processo, diversas organizações convocamos o 2º Encontro Plurinacional Das e Des que Lutam (1), perguntando-nos qual era nossa leitura do momento político, qual era o papel do feminismo na revolta social e como poderíamos avançar para colocar nosso programa como plano de luta e, por tanto, quais deveriam ser as bandeiras a levantar na Greve Geral Feminista 2020.

Nesse caminho da revolta popular nos reconhecemos e dizemos que “O movimento feminista é hoje uma força internacionalista que impede, resiste e cria. Perante o avanço das direitas racistas e dos fundamentalismos religiosos, dos discursos de ódio transnacionais, a militarização e violação sistemática dos direitos humanos, a violência político-sexual, a crise dos cuidados, a intensificação do extrativismo nos territórios e as políticas de precarização da vida, [está] a auto-organização das mulheres, de dissidências de sexo-gênero e de comunidades (…)”.

Revista – Como surgiu a como funciona a Coordinadora Feminista 8M?

Jéssica – Participo da Coordenação Feminista 8M de Santiago do Chile e comentarei brevemente como surgiu e como funciona esta Coordenação, que é uma das diversas Coordenações deste território.

Em 2018, nos reunimos em um novo dia internacional das mulheres trabalhadoras. Nesse momento, começou a ecoar o que tentava ser impulsionado em outras latitudes: a greve ou a paralisação de mulheres. Mas se pensava que no Chile essa ainda era uma tarefa. Nesse caminho se deu a possibilidade de nos encontrarmos desde um lugar diverso, porém comum: nosso lugar como trabalhadoras e trabalhadoris (2) que desempenham trabalhos nos diversos momentos da vida, de diferentes maneiras, formal e informalmente, de maneira reconhecida ou não remunerada, mas trabalhadoras ao fim, com a palavra de ordem: mulheres trabalhadoras nas ruas em contra a precarização da vida. Isso estava sendo gerido em um momento no qual o avanço de um sistema neoliberal maduro levava a precarização de nossas vidas ao limite.

Foi realizada uma jornada realmente exitosa e, posteriormente, diversas organizações e pessoas que formavam parte da Coordenação Feminista 8M decidimos assumir a tarefa de organizar o que iríamos chamar de Greve Geral Feminista. No desenvolvimento do processo propusemos 3 tarefas: 

  1. Transversalizar uma perspectiva feminista nos afazeres dos movimentos sociais;
  2. Ser um agente que dinamiza a articulação entre diferentes organizações e espaços; e
  3. Apontar para a construção de uma agenda comum nas mobilizações contra a precarização da vida, defendendo o feminismo como um feminismo de maiorias. 

Além disso, decidimos realizar o 1º Encontro Plurinacional de Mulheres que Lutam (atualmente chamado de Encontro Plurinacional Das e Des que Lutam (3) ) para definir o caráter da Greve e o programa que levamos adiante. Tudo isto objetivando a construção de um feminismo que aposte em transformar radicalmente as condições de vida. 

O 1º Encontro Plurinacional de Mulheres que Lutam contou com mais de 55 encontros prévios no território, nos quais foram levantadas visões e orientações que constituíram a base para um encontro com mais de 1.300 participantes. Elaboramos um programa construído em 10 eixos, cada um com suas respectivas demandas:

  1. Violência machista;
  2. Direito à cidade e à moradia digna;
  3. Memória feminista e direitos humanos;
  4. Trabalho e previdência social;
  5. Luta pelo aborto e direitos sexuais e reprodutivos;
  6. Racismo e migração;
  7. Arte, cultura e comunicações;
  8. Defesa do território;
  9. Soberania alimentar;
  10. Vida e territórios indígenas;
  11. Dissidênciais sexuais;
  12. Educação não sexista.

Dentro das grandes orientações que construímos, me parece relevante contar que não levantamos uma paralisação de mulheres, mas sim uma Greve Geral Feminista. Greve Feminista porque colocamos nossas vidas como um problema político, assumindo protagonismo nas jornadas de manifestação e no processo de construção. Greve Geral porque aspira a interromper todos os espaços onde se trabalha e se produz valor, reconhecendo os trabalhos que até hoje tem sido invisibilizados e precarizados. Foram todos nossos trabalhos os que levantam a greve, considerando que é importante revindicar uma ferramenta histórica de luta em um país onde não existe esse direito. Além disso, deixamos claro que a greve não era algo único, para o que criamos mais de 100 maneiras de aderir a ela. 

Retomando a Coordenação Feminista 8M, é importante dizer que nesse processo aprendemos a nos articular, reconhecendo nossas diversidades como mulheres e dissidências sexuais. Para isso, temos diversos comitês ou comissões nas quais são abordadas as articulações territoriais, sindicais, transfronteiriças, com companheiras de outras cidades e de outras latitudes, de outras organizações e comissões, desde onde assumimos tarefas centrais. Um exemplo são as tarefas de comunicação, com diversas vozes que representam as diversidades que compõem a Coordenação. É necessário visibilizar que nossa Coordenação é uma das que impulsiona este processo, mas não é a única; que este resultado seja possível se deve a múltiplos esforços dentro da classe trabalhadora e os povos que habitamos este território. 

Revista – Você acha que há semelhanças entre a luta das mulheres chilenas e das mulheres de outros países latino-americanos que enfrentam regimes conservadores, como o Brasil? Qual a importância de falar de um feminismo latino-americano?

Jéssica – De fato, acredito que há experiências compartilhadas, apesar das particularidades e diversidades de cada território. Experiências que formamos e vão nos formando também. As ofensivas capitalistas, patriarcais e coloniais atuais se caracterizam por expressar-se na procura do reestabelecimento da “ordem”, desde governos com políticas conservadoras e de extrema direita. Esses governos tem na ordem do dia a luta contra os direitos das mulheres e dissidências sexuais e os direitos dos povos, com ações e formas de atuar misóginas e profundamente racistas, através da militarização e violência política, das quais se goza com absoluta impunidade, ao menos em casos como o do Brasil e do Chile.

Dessa forma, falar do feminismo internacionalista é fundamental para poder construir respostas a esses golpes, mas também para perguntar-nos a respeito do mundo que sim queremos construir. Forjando nos fatos um feminismo transfronteiriço como ação, mobilização e capacidade de traçar novos e necessários horizontes, como é o caso das apostas para o dia internacional das mulheres trabalhadoras, removendo e movendo diversas práxis políticas, que respondem a cada território, mas se encontram em um guarda-chuva mais amplo. Nutrindo-se de leituras e elementos programáticos como o “Ele Não de Brasil” e a resistência liderada por mulheres e dissidências sexuais ou a luta pela legalização do aborto na Argentina. 

Como observamos, a experiência de feminismos transfronteiriços é fundamental para a ampliação da construção de um projeto popular alternativo ao sistema hegemônico atual. Claro que é importante falar de feminismos latinoamericanos, mas não de um feminismo latinoamericano, mas de vários, que foram gerados nas últimas décadas e que algo particular entregam em suas experiências e potências libertadoras a um processo global em curso, que aparentemente percorre quase todos os cantos do mundo.

Revista – Como se aplica o conceito dos 99% na luta pela igualdade de gênero?

Jéssica – O feminismo que temos construído têm se apresentado como um feminismo de maiorias. Um feminismo que pretende transversalizar uma perspectiva em todas as dimensões dos afazeres, um feminismo que articula, que contribui à construção de uma agenda comum e, nesse processo, também se constitui como alternativa, como espaço de encontro, de reflexão e de ações que impulsionem processos na grande maioria dos povos, onde mulheres e dissidências sexuais sejamos protagonistas. Principalmente em um país como o Chile, profundamente desigual, com uma concentração avassaladora da riqueza que gera estragos em todas as dimensões da produção e reprodução das condições de vida.

Um feminismo que não fala apenas para as mulheres de certos setores sociais, mas um feminismo construído e impulsionado por mulheres e dissidências sexuais para a sociedade como um todo, falando de tudo o que queira falar. Um feminismo que denuncie e exija o fim da violência machista, [que reclame] o direito à cidade e à moradia digna, que lute contra a impunidade de um estado terrorista, que advogue pelo trabalho decente e a previdência social, que lute pelo aborto e os direitos sexuais e reprodutivos; um feminismo abertamente antifascista e antirracista, que defenda que migrar é um direito humano, que a arte, a cultura e as comunicações estejam a serviço das transformações sociais, que abrace e lute pela defesa do território, pela soberania alimentar e, é claro, pela vida e os territórios indígenas.

Enfim, um feminismo que seja contra a precarização da vida será um feminismo que lute contra a concentração de poder e de riquezas a serviço de umas e uns poucos no mundo, às custas da vida de todas, todos e todes.

Revista – O novo COVID-19 virou o mundo de pernas para o ar: transformou a normalidade e revelou uma série de contradições, entre elas o machismo e, por isso, o feminicídio e a violência doméstica. Segundo a Organização Mundial da Saúde, as ligações de emergência aumentaram 60% em alguns países. Como você vê essa questão?

Jéssica – No caso do Chile, a normalidade se transformou faz tempo. A pandemia chega em um momento de mobilizações populares, muito próxima a uma das maiores mobilizações populares de nossa história, a Revolta Popular e a Greve Geral Feminista, e em um contexto de sistemáticas violações dos direitos humanos aos povos em luta. Essa crise sanitária agravou uma crise política e social e econômica em curso. Poderíamos dizer, inclusive, que tentou-se utilizar a pandemia para impor um retorno a uma normalidade que denunciamos e que não queremos mais.

Porém, como em outras partes do mundo, tem comunas que estão há mais de 134 dias em isolamento, superando inclusive a China. Isso tem tido consequências terríveis, pois está principalmente relacionado com as políticas criminosas de um governo que, antes mesmo de ter respostas sanitárias, tinha e tem até hoje os militares nas ruas. 

Dessa forma, com meses de isolamento, vemos que outra face terrível da pandemia tem sido o recrudescimento da violência machista, fato que fez as denúncias de violência contra as mulheres ter aumentado. Estar confinadas com seus agressores se torna um perigo vital latente em um país onde as respostas são escassas; um país como o nosso, no qual uma colega que havia sido agredida sexualmente foi detida por desrespeitar o toque de recolher militar, apesar de estar indo fazer a denúncia. Além disso, em tempos de impotência, a reafirmação da masculinidade hegemônica por meio da violência machista se torna algo da ordem do dia.

Perante essa situação, nos primeiros momentos do isolamento, a CF8M de Santiago, junto à Rede Chilena contra a Violência contra as Mulheres, Rede Feminista de Estudantes e Trabalhadoras de Psicología (Psifem), Negrocentrixs, Secretaria de Mulheres Imigrantes, Eu Cuido e Corporação La Morada, levantou uma campanha virtual chamada #EmRedeNosCuidamos como uma forma de enfrentar a onda de violência e procurando visibilizar redes de apoio que já existem em diversos territórios. Além disso, devemos observar que têm sido essa violência que têm gerado manifestações ao redor do território contra a violência machista e o feminicídios.

Nos últimos dias, temos observado o agravamento da ofensiva de extrema direita contra o povo mapuche e uma direita que, sem escrúpulos, têm se aproveitado dos últimos terríveis feminicídios em nosso território para invisibilizar a grave situação que se vive ao sul do país.

Revista – É possível dizer que as mulheres carregam o maior peso da pandemia?

Jéssica – Efetivamente, podemos dizer que as mulheres e os corpos feminilizados carregam em seus ombros a pandemia, tanto na esfera de trabalhos remunerados, como não remunerados. Por exemplo, o sistema de saúde pública em nosso território é composto por mais de 70% de mulheres; mulheres que além de estar na linha de frente em um sistema de saúde precário, devem chegar a suas casas para cumprir duplas ou triplas jornadas de trabalho de cuidado. Nos lares com crianças e adolescentes, acontece que, sem equipamentos de educação ou de cuidado funcionando, as tarefas do cuidado se concentram unicamente no lar e as responsáveis são mulheres a postos 24 horas por dia. A isso, se somam as mulheres que passaram para a modalidade de teletrabalho, realizado tarefas de trabalho remunerado e não remunerado simultaneamente, no mesmo lugar, sem considerar as condições de superlotação. É necessário considerar que muitas dessas situações de precariedade acabam se relacionando ao agravamento da violência machista mencionada anteriormente. 

Também nos encontramos nas comedorias comuns enfrentando a fome da comunidade, no aborto da vizinha e no próprio, nos panelaços, no ato, na organização. Dessa forma, nos encontramos suportando e resistindo a esta crise de reprodução da vida e dos cuidados em todas as frentes. 

Revista – Quais são os principais desafios e tarefas da luta feminista hoje? Como pensar em um mundo pós-pandêmico para as mulheres?

Jéssica – O combate que temos realizado desde os feminismos a um sistema criminal é fundamental para avançar em direção a um feminismo antifascista, anticapitalista, antipatriarcal e anticolonial e para impedir o avanço dos fundamentalismos e do fascismo. Neste momento, em nossos territórios, o governo já não consegue mais ocultar sua política de aberta perseguição e amedrontamento fascista aos povos em luta e gravemente ao povo mapuche, nem a situação de vulnerabilidade das mulheres e das dissidências perante a violência machista. 

Em um contexto de crise de reprodução da vida, nosso programa e plano de luta feminista não apenas é vigente, como também urgente. Precisamos avançar em direção a uma sociedade onde o cuidado da vida e dos territórios esteja no centro. Avançar em direção a um Sistema Plurinacional de cuidados, recuperar as águas, reconhecer a plurinacionalidade de nosso território, contar com sistemas de previdência social sem discriminação, bem como alcançar o reconhecimento social e econômico de todos os trabalhos (remunerados ou não), entre outros elementos programáticos, são transformações estruturais fundamentais para acabar com a precarização de nossas vidas. 

Porém, a possibilidade de poder pensar um mundo pós pandemia no Chile atual nos convoca à luta e à organização para frear a onda de racismo e violência impulsionada pelos setores mais duros da direita, que assiste com temor o aumento do mal estar social refletido nas mobilizações e panelaços das últimas semanas, que dizem com força que aqui estamos e aqui seguimos.

Por fim, acredito que as tarefas da luta feminista estão enraizadas na construção de uma alternativa que faça frente ao sistema hegemônico atual, na articulação transfronteiriça, avançando programaticamente de forma plurinacional e internacionalista, com unidade e solidariedade em luta. Alternativa que deve ser forjada desde o feminismo e com a luta, no caminho do combate ao sistema hegemônico e em crise, fortalecendo os tecidos orgânicos e políticos dos povos, objetivando a construção de um mundo que seja diferente.


*Priscila é comunicadora, membra do Setorial de Mulheres do PSOL Bahia e do Coletivo Afronte!

 

NOTAS DA TRADUÇÃO

1 – A tradução precisou ser adaptada para contemplar a intenção de utilizar o gênero neutro em “de las y les que luchan”.

2 – A tradução precisou ser adaptada para contemplar a intenção de utilizar o gênero neutro em “nosotras y nosotres”.

3 – A tradução precisou ser adaptada para contemplar a intenção de utilizar o gênero neutro em “de las y les que luchan”.