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Biografias: León Sedov, filho, amigo e lutador

LUCHAS, LIGA UNITÁRIA CHAVISTA SOCIALISTA. TRADUÇÃO: CÉLIA REGINA BARBOSA RAMOS
Sedov e Trotsky

Trotsky dedicou um artigo comovente a seu filho intitulado ”León Sedov: filho, amigo e lutador”. O título já reflete a profunda dor que os embargava e o conteúdo profundamente humano, espiritual. Expressa o grande amor de pai, a valorização que tinha de seu filho como amigo e como camarada militante pelas mesmas ideias.

No desenvolvimento da extensa carta, podemos ler, linha após linha, o desenvolvimento histórico de uma etapa das vidas de Trotsky e sua esposa, Natasha, sempre acompanhados, nos bons e maus momentos, por seu filho. Ele viveu junto a seus pais o alvorecer e a efervescência das revoluções de fevereiro e de outubro, por isso, ainda com pouca idade, tornou-se consciente do significado e importância delas, da necessidade da luta proletária e operária. Podemos notar isso quando Trotsky diz: “… e não é somente porque é nosso filho, fiel, abnegado, amante, mas, sobre todas as coisas, porque ele mais que ninguém na terra tinha se tornado parte de nossas vidas, entrelaçado com todas suas raízes, era nosso camarada partidário, nosso colaborador, nosso guardião, nosso conselheiro, nosso amigo”. Que melhores palavras podem expressar a relação desses seres com seu filho!

Em outra parte da carta, Trotsky diz que, apesar da diferença de idade, Sedov viveu e compartilhou de todos os sentimentos, tensões, exílios, migrações por diferentes cidades e lugares para onde se viu obrigado a fugir por sua luta e militância revolucionárias, especialmente contra o estalinismo, a partir da Oposição de Esquerda.

Ainda sendo quase uma criança, León Sedov participava da atividade política militante. Entrou para o Komsomol (Juventude Comunista) quando tinha apenas 15 anos e participava de todas as atividades revolucionárias; dedicou-se ao trabalho sobre os trabalhadores de padarias e se caracterizava-se por sua simplicidade e humildade, que o levaram a desprender-se de privilégios, como viver no Kremlin ou utilizar o carro oficial, já que seus pais ocupavam cargos importantes no governo. Em lugar disso, mesmo contra a vontade de seus pais, preferiu levar uma vida modesta e de privações, compartilhando as residências estudantis com os estudantes mais pobres; preferia andar com os operários, tomar os ônibus repletos de gente humilde; colaborava em trabalhos como varrer a neve das ruas, ajudar a eliminar o analfabetismo, ensinando os operários que não tinham terminado o curso secundário, descarregando lenha dos caminhões, e, mais tarde, em sua época de estudante de engenharia, consertando locomotivas. No entanto, por sua pouca idade, durante a guerra civil, acompanhou seu pai nos fronts, consciente do porquê daquela luta sangrenta.

Em 1923, com apenas 17 anos, vendo todo o giro que a revolução estava tomando, junto a seu pai e milhares de militantes e dirigentes da velha guarda e de novas gerações de jovens, lançou-se ao trabalho da oposição contra o stalinismo, obviamente, seguindo a influência paterna. Aprendeu muito rapidamente sobre a atividade revolucionária, a arte conspirativa, as reuniões clandestinas, a publicação e distribuição de materiais secretos da oposição.

Quando começou o massacre contra os revolucionários por parte de Stalin, em 1927, León Sedov tinha 22 anos, já tinha mulher, Ania, operária, e filho, Lev, mas, sem vacilação, decidiu separar-se de seus estudos e de sua jovem família para partir com seus pais ao exílio, na Ásia Central, e desde lá continuou seu trabalho de procurar contatos com Moscou. Burlando o estrito controle da GPU, cujos agentes cercavam a casa onde viviam, os portadores, enviados pelo velho bolchevique Boris M. Eltsine, viajavam 3700 km até a estação ferroviária de Frunze, no Quirguistão e de lá, em um trenó conduzido por Mikhail Bodrov, antigo metalúrgico de Moscou, disfarçado de mujique com uma longa barba, por mais 200 km até a estação central de Alma Ata, onde eram recebidos por um funcionário público do qual só se conhece a inicial D., que Sedov havia ganho politicamente para a Oposição de Esquerda. Como conta Trotsky, Sedov se encontrava com D. em um banho público, em matagais fora da cidade ou na feira oriental. Esses encontros eram combinados por um sistema de senhas feitas de flores na janela. Com as grandes qualidades de organização e disciplina, o jovem Sedov garantiu que Trotsky conseguisse manter por um ano o contato com o restante do país e com o exterior.

Sua personalidade e temperamento foram forjados vendo como o estalinismo exterminou, com diversos métodos, as velhas e novas gerações de dirigentes da revolução. Muitos deles eram seus camaradas, aos quais conhecia e amava. Alguns foram fuzilados, acusados falsamente de traidores, outros, presos, torturados até ficarem loucos e obrigados a se declararem culpados de delitos que não haviam cometido ou a se matarem, a envenenarem-se, como foi o caso de Zina, sua irmã. Outros foram exilados, condenados a trabalhos forçados ou deportados e isolados em lugares inóspitos.

Trotsky reconhece que a maioria de seus escritos não teriam sido possíveis sem a ajuda de seu filho na construção da Oposição de Esquerda, sobretudo o papel fundamental que ele teve durante o Sexto Congresso Mundial da Internacional Comunista, na entrega e envio de encomendas para e desde Moscou, as quais chegavam aos milhares, tais como artigos, teses, cartas de camaradas conhecidos e desconhecidos. Trotsky relata que os olhos da mãe brilhavam de orgulho quando falava de seu filho.

Em 1929, quando seus pais foram deportados da URSS, León Sedov decidiu acompanhá-los, separando-se definitivamente de sua família. Começou a aprender novos idiomas e iniciou seu trabalho literário, ao lado de seus pais, ocupando-se de seus arquivos e biblioteca. Era um profundo conhecedor das obras de Marx, Engels e Lenin.
De 1928 a 1932, foi ele quem manteve vivo o Boletim da Oposição Russa, levando-o a Berlin e Paris. Sua principal obra literária foi “O livro vermelho dos julgamentos de Moscou”, publicado em outubro de 1936, cerca de dois meses depois do primeiro processo em agosto de 1936, publicado em francês, russo e alemão. Esse livro foi a primeira resposta às falsificações estalinistas, enquanto seus pais estavam presos na Noruega e eram vítimas das difamações mais monstruosas, sem poder se defenderem.

Sedov não era somente o organizador da Oposição de Esquerda e da Oposição russa, mas tinha ideias fortes e que debatia com seu famoso pai.

Pierre Broue nos deu uma amostra disso em seu artigo sobre Sedov, transcrevendo uma carta do filho para o pai, de outubro de 1932, em que debatia vivamente com Trotsky. Tratava-se de importante discussão sobre se seria correto àquela altura personalizar a luta contra o regime stalinista colocando a ideia de derrubar Stalin (pela luta de massas, desde já):

« É preciso ligar estreitamente as palavras de ordem de ‘Derrubar Stalin’ e ‘Abaixo o regime personalista’, explicar por que a primeira se deriva inevitável e diretamente da segunda; ninguém o compreenderia. ‘Não somos favoráveis a derrubar Stalin, mas estamos contra o regime personalista? ’ Isso não faz sentido. É justamente porque somos contra o regime personalista que estamos a favor de derrubar Stalin”

Em sua despedida final, a carta de Trotsky termina com um discurso emocionado, cheio de dor e lágrimas, na qual o descreve dizendo: “León Sedov fazia tudo seriamente, estudando, refletindo, revisando (…) tudo o que ele escrevia ardia com um fogo vivo, que brotava de seu autêntico temperamento revolucionário, formado e fortalecido pelos fatos de sua vida pessoal e familiar, vinculados aos grandes fatos políticos de sua época. Em 1905, sua mãe estava em uma prisão de Petrogrado, esperando o nascimento do filho para fevereiro do ano seguinte (..) Só pude conhecer meu filho 13 meses depois, quando fugi da Sibéria (…) Toda a sua vida girou em torno da Revolução, por isso, para ele, a Revolução não era uma abstração. Ela impregnava todo eu ser, daí sua atitude séria em relação ao dever revolucionário, que começava com os sábados vermelhos [de trabalho voluntário] e terminava com a ajuda escolar aos estudantes que estavam atrasados, por isso ele se uniu à luta contra a burocracia. ”

Continuava a homenagem:

“Em 16 de fevereiro, apareceu a notícia em um jornal mexicano de que León Sedov havia morrido, depois de uma cirurgia (…) ele foi assassinado no mesmo mês em que nasceu, havia 32 anos. ” Ele se perguntava de onde havia saído essa doença incurável e essa morte repentina? Sua primeira suposição foi que o envenenaram, porque apenas dois dias antes tinha recebido uma carta de seu filho na qual se notava sua emoção, alegria e entusiasmo porque estava fazendo os preparativos para o julgamento na Suíça, onde havia uma situação favorável, tanto na opinião pública como nas autoridades (…) E nós nos perguntamos: seria, por acaso, esse fato o que acelerou o assassinato de León Sedov? (…)“Terminou para nós o 16 de fevereiro, o mais obscuro de nossa vida pessoal”.

E concluía:

”Adeus, León, adeus querido e incomparável amigo. Sua mãe e eu nunca pensamos, nunca esperamos que o destino fosse nos impor essa terrível tarefa de escrever seu obituário. Vivíamos firmemente convencidos de que muito tempo depois que tivéssemos nos ido, você seria o continuador de nossa causa comum. Mas não pudemos te proteger! Adeus, León. Legamos tua recordação irrepreensível às gerações mais jovens às gerações mais jovens dos operários do mundo. Justamente, você irá viver nos corações de todos aqueles que trabalham, sofrem e lutam por um mundo melhor. Jovens revolucionários de todos os países! Aceitem de nós a recordação de nosso León, adotem-no como vosso filho – ele é digno disso – e deixem que, a partir de agora, participe invisível de vossas batalhas, já que o destino lhe negou a ventura de participar de vossa vitória final! ”