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O que foi a Comissão Dewey? Como Stalin e Trotsky se comportaram nos julgamentos de Moscou?

Por LUCHAS, Liga Unitária Chavista Socialista. Tradução: Célia Regina

“Estou pronto para comparecer a uma comissão de investigação pública e imparcial com documentos, fatos e testemunhos em minhas mãos e revelar a verdade mais absoluta. Declaro que, se tal comissão decidir que eu sou culpado no mais leve grau dos crimes que Stalin me atribui, comprometo-me a me colocar voluntariamente nas mãos dos carrascos da GPU”.

Ao mesmo tempo em que o fascismo na Alemanha ascendia e avançava em toda a Europa, com sua carga de ideologia perversa e desumana, na URSS desenvolveram-se, de 1936 a 1938, os julgamentos políticos para liquidar de vez toda a velha direção (98%) da direção do Partido Bolchevique, que tinha dirigido a tomada do poder na revolução de 1917. Nesse processo, também foi julgada e condenada a maioria dos dirigentes da revolução, que foram os protagonistas durante a guerra civil (1917-1921), assim como os melhores quadros entre os oficiais do Exército Vermelho. Esses julgamentos ficaram conhecidos na História como os Processos de Moscou.

Todos esses processados foram acusados de terem cometido crimes contrarrevolucionários e de serem agentes ou espiões dos países e interesses inimigos. A partir de inuméraveis torturas e chantagens, os acusados eram condenados a prisões, exílios e trabalhos forçados. Quase 2 milhões de dirigentes do partido, trabalhadores, camponeses, estudantes e militares foram condenados. Entre estes, foram registrados fusilamentos de, aproximadamente, 700 mil presos.

Enquanto isso acontecia na URSS, no restante dos partidos comunistas no mundo também tiveram início as perseguições, expulsões e calúnias contra os que fizessem críticas ao que estava se passando na URSS, ou que fizessem algum questionamento à política de seus partidos nacionais.

Diante desses fatos, Trotsky e os militantes revolucionários internacionais, que estavam contra as acusações de Stalin e seus seguidores, chamaram à constituição de uma Comissão Investigativa de todos esses crimes e julgamentos viciados. Entre o grupo de intelectuais que atenderam a esse chamado estava John Dewey(1859-1950), um famoso estadunidense profissional da pedagogia e filósofo, que acabou presidindo a Comissão, que ficou registrada e reconhecida em todo o mundo com seu sobrenome, a Comissão Dewey, a qual também ficou registrada nos anais da história como superior e mais exemplar que a de Dreyfus e a de Calas.

Essa Comissão procurou contar com a participação da II Internacional (socialdemocrata) e da III Internacional (comunista), que foram convidadas para serem parte dela ou testemunhas no julgamento, mas que recusaram. Diante dessa negativa, Trotsky disse: “A Internacional Comunista continua repetindo que a ‘URSS é a pátria de todos os trabalhadores’. Curiosa pátria por cujo destino é proibido estar-se interessado”.

No entanto, da Comissão Dewey participaram dirigentes sindicais e deputados de vários países, renomados intelectuais, reconhecidas personalidades da esquerda mundial. Sua composição, além de John Dewey, era a seguinte: Carleton Beals (1873-1979, jornalista e historiador especializado em América Latina e que renunciou durante as investigações), Suzanne Lafollette (1893-1983, jornalista americana e secretária da Comissão),Otto Ruehle (1874 – 1943,biógrafo de Karl Marx e antigo membro do Reichstag ), Benjamin Stolberg (1891-1951, jornalista e ativista sindical), Alfred Rosmer (1877-1964; em 1920-21 foi membro do comitê executivo da Internacional Comunista,  membro da Oposição de Esquerda Internacional, com que havia rompido em 1930, mantendo amizade pessoal com Trotsky), Wendelin Thomas (1884-1956, líder da revolta dos marinheiros alemães em  novembro de 1918 e depois membro comunista do Reichstag), Edward A. Ross (1866-1951, professor de sociologia da Universidade de Wisconsin), John Rensselaer Chamberlain (1903-1995, jornalista, à época crítico literário do New York Times), Carlo Tresca (1879-1943, renomado líder anarquista ítalo-americano) , Francisco Zamora (1890-1980, jornalista e sindicalista mexicano). John F. Finerty(1985-1967, era assessor jurídico da Comissão. Esta Comissão começou seus trabalhos em março de 1937. Uma subcomissão com os cinco primeiros nomes da lista acima foi encarregada de realizar as entrevistas com Trotsky. Após meses de investigação a Comissão deu seu veredito em 21 de setembro de 1937, em Nova Iorque, declarando Trotsky inocente.

Os membros da Comissão não eram partidários de Trotsky e somente Alfred Rosmer tinha relação pessoal com ele e, ao contrário, em sua maioria eram seus adversários políticos.

A Comissão recompilou mais de 400 páginas de testemunhos e de atas, com os quais conseguiu demonstrar a falsidade de todas as acusações, com um veredito contundente que assim concluiu: O resumo de sua decisão dizia que: 

”A conduta dos Processos de Moscou foi no sentido de convencer qualquer pessoa sem preconceitos de que não foi feita nenhuma tentativa de estabelecer a verdade.

” Embora as confissões mereçam sempre a mais séria consideração, as confissões por si sós contêm improbabilidades tão inerentes para convencer a Comissão de que não representam a verdade, independente de quaisquer meios que tenham sido utilizados para obtê-las.”.

Em base às evidências que examinou, a Comissão “rejeitou todas as alegações de que Trotsky tenha jamais se reunido ou dados instruções terroristas para nenhum dos acusados”

Sobre as posições políticas de Trotsky, a Comissão concluiu que:

“Trotsky nunca deu instruções a nenhum dos acusados ou testemunhas nos julgamentos de Moscou para que fizessem acordos com potências estrangeiras contra a União Soviética. Ao contrário, ele tinha proposto de forma inflexível a defesa da URSS. Ele tem sido um opositor frontal ao fascismo representado pelas potências estrangeiras com as quais ele é acusado de ter conspirado.

“Com base em todas as evidências, concluímos que Trotsky nunca recomendou, conspirou ou tentou restaurar o capitalismo na URSS. Pelo contrário, ele sempre se opôs frontalmente à restauração do capitalismo na União Soviética e de sua existência em qualquer outro lugar.

“Concluímos que o Promotor falsificou de forma fantasiosa o papel de Trotsky antes, durante e depois da Revolução de Outubro”

E conclui: “Dessa forma, concluímos que os Processos de Moscou são uma fraude. Consideramos, portanto, que Trotsky e Sedov são inocentes”).

A resposta de Stalin a esse julgamento democrático, e exemplo nos anais da História, foi assasinar Sedov, em 1938, e em agosto de 1940, Trotsky.

Em uma parte de sua intervenção na Comissão Dewew, Trotsky declara: “Senhoras e Senhores da Comissão: a experiência de minha vida, na qual não faltaram êxitos e fracassos, longe de destruir minha fé no futuro brilhante e claro da humanidade, ao contrário me deu uma têmpera indestrutível. Esta fé na razão, na verdade, na solidariedade humana que, aos 18 anos, me levou ao bairro operário da provinciana cidade de Nikolaief, eu conservo total e inteiramente. Ela se tornou mais madura, mas não menos ardente. Na própria formação desta Comissão… vejo um novo e magnífico reforço do otimismo revolucionário, que constitui o elemento fundamental de minha vida”.

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leon trotsky