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OPRESSÕES

O histórico levante antirracista do esporte nos Estados Unidos

Gabriel Santos, de Maceió, AL

“Os últimos quatro meses lançaram uma luz sobre as injustiças raciais em curso que as comunidades afro-americanas enfrentam. Cidadãos de todo o país têm usado suas vozes e plataformas para se manifestar contra esses delitos”. Assim começou o histórico manifesto de jogadores do time de basquete da NBA Milwaukee Bucks. Em meio a uma série de protestos antirracistas nos Estados Unidos esse time deu o início a um movimento que será lembrado e estudado no futuro.

Porém, falando sobre o presente, ele é dor, incerteza, tristeza, ódio e luta. Para os afro-americanos, ele tem sido assim quase com uma constante. Neste fim de semana mais um brutal assassinato de um negro escancarou o racismo no país. No estado de Wisconsin, Jacob Black, 29 anos, foi baleado por um policial branco com tiros nas costas. O ato aconteceu na frente de seus filhos, e fez com que um novo levante antirracista se formasse nas ruas do país. Novamente as esquinas estavam em chamas.

Antes do retorno da NBA a imensa maioria de seus jogadores participou dos protestos em homenagem e justiça por George Floyd e outros negros assassinados. Se engajaram nesta pauta e a difundiram. O retorno da competição de basquete mais importante e rica do mundo foi questionada por jogadores liderados por Kyrie Irving, que falava que momento do país era crucial para os negros norte-americanos.

Os executivos da NBA para garantir a volta do campeonato garantiram que a bolha, local onde são realizados os jogos dentro da Disney, seria um espaço onde vozes antirracistas seriam amplificadas. Daí um “Black Lives Matter” em letras enormes estão colocadas em cada quadra e jogadores carregam nas camisas ao invés de seus nomes, pautas históricas na luta contra o racismo no país.

Com este novo caso de violência racista da polícia, o clima dentro da bolha se tornou insustentável. Por mais que as ações realizadas na mesma fossem importantes, a necessidade de elevar o tom por justiça racial era maior.

Nesta terça-feira, atletas do Toronto Raptors, equipe canadense e atual campeã da NBA, cogitou não entrar em quadra para seu jogo que seria na quinta feira, mas não anunciou em definitivo sua decisão.

Foi no confronto entre Bucks, do atual MVP (melhor jogador da temporada) Giannis Antetokounmpo, um atleta grego de ascendência nigeriana, e Orlando Magic, que o primeiro boicote aconteceu.

Os atletas do Bucks se negaram a entrar em quadra e no vestiário participaram de uma teleconferência com o procurador-geral de Wisconsin, Josh Paul, e o vice-governador Mandela Barnes. Logo após a reunião, George Hill e Sterling Brown leram um manifesto do time. 

“Estamos pedindo justiça para Jacob Blake e exigindo que os oficiais sejam responsabilizados. Para que isso ocorra, é imperativo que o Legislativo do Estado de Wisconsin se reúna após meses de inação e tome medidas significativas para tratar de questões de responsabilidade policial, brutalidade e reforma da justiça criminal. Incentivamos todos os cidadãos a se educarem, a tomarem medidas pacíficas e responsáveis ​​e a se lembrarem de votar em 3 de novembro”. Esta data foi em referência a eleições presidenciais nos EUA. O manifesto dizia ainda “nosso foco hoje não pode estar no basquete”.

A ação dos Bucks passou a ser elogiada por atletas de outras equipes e o boicote se espalhou pelos demais jogos. Em seu twitter, LeBron James, o maior jogador de basquete do momento e um dos melhores da história, escreveu: ” [email protected]$%-se isso, cara! Queremos mudanças. Cansados disso”. LeBron, conhecido como Rei James, lançou recentemente um movimento para impulsionar lideranças negras de comunidades carentes com pautas antirracistas, e é um dos jogadores que mais se posiciona politicamente sobre o tema.

Durante a noite desta quarta feira todas as equipes se reuniram na Disney World para definir suas posições sobre o futuro dos playoffs, que estavam marcados para terminam em outubro.

Na reunião, o Los Angeles Lakers e o Clippers, os dois grandes candidatos ao título desta temporada, foram os únicos que votaram pelo cancelamento da temporada. Elevando o tom do boicote.

O movimento iniciado no basquete passou para outros esportes. 

Na Major League Baseball, o Milwaukee Brewers, do estado que Jacob Black foi alvejado, também decidiu não jogar.

Os jogadores dos Brewers realizaram uma reunião para discutir o que fariam. Eles decidiram, e em seguida junto de seus adversários os Reds, anunciaram que não entrariam em campo.

Na liga de basquete feminino, a WNBA, as atletas usaram camisas brancas com vermelho nas costas em  alusão às marcas de tiros. Todas as atletas se reuniram no centro da quadra da bolha da WNBA, ficaram de joelhos, deram os braços e exibiram o nome de Jacob Blake, e apóia esta homenagem anunciaram que não jogariam.

A MLS, liga de futebol, teve cinco jogos dos seis da rodada cancelados. Um fator importante sobre a liga, foi que ela deu origem a primeira associação de atletas negros do país. Antes do retorno do campeonato mais de 70 futebolistas profissionais anunciaram a criação do grupo que chamaram “Black Players Coalition of MLS” (Aliança dos Jogadores Negros da MLS). Esta aliança tem o objetivo de lutar por melhoria na condição dos atletas negros na liga, promover campanhas de conscientização com as equipes, e ela apoiara e organizara ações em comunidades periféricas de maioria negra no país, com criação de quadras de esporte, bibliotecas e demais ações.

Outro esporte que teve manifestações foi o tênis. Após boicote de Naomi Osaka ao torneio de Cincinnati, uma decisão tomada em conjunto pela Federação de Tênis dos Estados Unidos (USTA), a ATP e a WTA, todas partidas programadas para esta quinta-feira, dia em que seriam realizadas as semifinais da competição foram suspensas.

Naomi Osaka disse ao anunciar sua decisão: Antes de ser uma atleta, eu sou uma mulher negra. E como uma mulher negra eu sinto que há questões muito mais importantes que precisam de atenção imediata, ao invés de me ver jogando tênis. Não espero que nada drástico aconteça porque não vou jogar, mas se posso iniciar uma conversa em um esporte predominantemente branco, considero um passo na direção certa”.

Os protestos no esporte já foram criticadas pelo presidente Donald Trump. O racista que concorre a reeleição nos Estados Unidos, declarou recentemente em entrevista a Fox: “Quando vejo pessoas ajoelhadas durante a execução do hino nacional e desrespeitando nossa bandeira, o que faço pessoalmente é desligar o jogo. Eu acho isso vergonhoso. Trabalhamos com a NBA para eles voltarem. E então eu vejo todo mundo ajoelhado durante o hino. Isso não é aceitável para mim”.

 Trump alegou que a audiência da liga havia caído por causa dos protestos, o que não passa de mais uma de suas fake news. De acordo com a Sports Media Watch, o reinício da NBA atingiu em média 1,86 milhão de espectadores até segunda-feira, um aumento de 14% em relação à média antes da temporada ser suspensa por conta da pandemia do corona vírus.

Trump afirmou também que foi o melhor presidente para os afroamericanos, na mesma entrevistá ele prosseguiu dizendo: “Reforma da justiça criminal, zonas de oportunidade e melhores números de empregos na história. Novamente, ninguém fez pela comunidade negra de longe!”.

Essa ação histórica dos atletas de diversas modalidades ira aumentar a fúria se Trump e dos supremacistas brancos. Alem de servir como esperança e apoio aos milhões de pessoas da comunidades negra que se levantam contra a injustiça racial. O histórico boicote ao andamento dos playoffste e difuso grito por mudanças numa sociedade racista. A atitude é tão enfática porque revela engajamento por mudança independente do custo que ela carregue.