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A greve dos Correios e o individualismo ‘de esquerda’

Travesti Socialista

Travesti socialista que adora debates polêmicos, programação e encher o saco de quem discorda (sem gulags nem paredões pelo amor de Inanna). Faz debates sobre feminismo, diversidade de gênero, cultura e outros assuntos. Confira o canal no Youtube.

A greve dos Correios que está ocorrendo desde o dia 17 de agosto causou uma reação negativa de muitos trabalhadores e trabalhadoras de outras categorias, que se expressam na utilização da ‘#EuAvisei’ e de comentários irônicos como “Faz arminha com a mão que passa”. Isso nada mais é do que revanchismo, um dos exemplos mais nítidos de individualismo. No entanto, ele aparece como se fosse uma crítica ao suposto individualismo dos trabalhadores dos Correios que supostamente teriam votado no Bolsonaro – essa é uma característica do individualismo ‘de esquerda’.

A ideologia dominante e os momentos de ruptura

De acordo com Marx em ‘A Ideologia Alemã’, “[a]s ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes”. Isso significa que, na maior parte do tempo, o povo – a classe trabalhadora – costuma agir de acordo com as ideias criadas pela classe dominante, portanto, de maneira alienada. No entanto, existem momentos de ruptura – quando as necessidades materiais levam setores das classes dominadas a agirem por vontade própria. É o caso das greves, das manifestações e das revoluções.

Antonio Gramsci explica que essa ruptura leva a uma contradição entre o que as pessoas dizem e o que elas fazem. Não se trata de mentira ou desonestidade, é apenas uma demonstração da alienação (isto é, da separação) entre a consciência e a ação. “Qual será, então, a verdadeira concepção de mundo: a que é logicamente afirmada como fato intelectual, ou a que resulta da atividade real de cada um, que está implícita na sua ação?” (Caderno 11, § 12)

Podemos trazer essa reflexão de Gramsci para a atualidade e nos perguntar: A classe trabalhadora demonstra sua própria consciência quando vota ou quando faz uma greve?

Não existe nenhuma pesquisa eleitoral entre trabalhadores e trabalhadoras dos Correios, de forma que não dá para caracterizar se (e quanto) é verdade que a maioria deles votaram no Bolsonaro, nem por quais razões o fizeram. Mas, ainda que o seja, o fato de agora estarem, na prática, atuando contra o governo Bolsonaro é mais um exemplo de ruptura com a consciência dominante. E não seria apenas essa categoria que, num momento esporádico de revolta, age em contradição com o que ela mesma diz o tempo todo. Isso não é uma exceção, é a regra, pois a alienação atinge todos os setores da classe trabalhadora.

 

Individualismo versus individualidade

 

Como explica Antonio Gramsci, há dois tipos de individualismo: um positivo, que consiste no “florescimento da individualidade” e que dá origem à consciência crítica, e um negativo, o “individualismo econômico” (Caderno 9, § 23). Apesar de semelhantes na aparência, a individualidade e o individualismo são absolutamente opostos, de modo que o individualismo é o máximo apagamento da individualidade.

O fato da categoria de trabalhadores dos Correios entrar em greve contra o governo Bolsonaro logicamente expressa uma consciência crítica e, portanto, um florescimento da individualidade. Quem se posiciona contra a greve demonstra, na prática, ter aversão a esse florescimento da crítica. Esta pessoa, por mais que se diga crítica ao individualismo, na verdade está reproduzindo o individualismo dominante contra a individualidade de uma parte da classe trabalhadora.

Assim, o individualismo dominante, dentro do campo da esquerda, assume a aparência de ‘crítica ao individualismo’. É dessa maneira que as ideias dominantes penetram no campo de esquerda – com a aparência de serem o oposto do que na realidade são.

Para combater a ideologia dominante, não adianta ‘torcer contra’ os setores alienados da classe trabalhadora, pois, por via de regra, toda a classe trabalhadora é alienada. A única maneira de se posicionar verdadeiramente contra as ideias dominantes é apoiar esses setores nos momentos de ruptura com a ideologia dominante. É justamente nesses momentos que a classe trabalhadora produz sua própria ideologia. ‘Torcer contra’ um setor supostamente ‘atrasado’ da classe trabalhadora é, na prática, torcer contra a própria classe.

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